Política

'Traição' na aprovação de Mendonça é nova derrota para Alcolumbre

03/12/2021 16h33
Presidente da CCJ trabalhou até o fim contra André Mendonça, saiu de confiante a apreensivo após a sabatina e já relatou a aliados temer por sua reeleição
'Traição' na aprovação de Mendonça é nova derrota para Alcolumbre

BRASÍLIA — A aprovação pelo Senado do ex-advogado-geral da União André Mendonça para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), anteontem, foi um duro golpe contra o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Davi Alcolumbre (DEM-AP). Até o último minuto, o senador tentou reverter votos para barrar o indicado do presidente Jair Bolsonaro à Corte.

Ao longo de todo o processo de indicação, que se arrastou por mais de quatro meses, Alcolumbre agiu para tentar viabilizar como alternativa o nome do procurador-geral da República, Augusto Aras. Segundo relatos, ele procurou diretamente senadores nos últimos meses para que votassem contra Mendonça. E, no dia da sabatina, não foi diferente.

Apesar do aparente armistício durante a arguição, Alcolumbre continuou agindo nos bastidores e contando votos na esperança de derrotar o ex-AGU em plenário, onde havia incerteza e ele alegava ter 50 votos. Para isso, usava a influência que conquistou no período em que foi presidente do Senado e detinha o controle das emendas de relator, que fazem parte do orçamento secreto.

Segundo um parlamentar, Alcolumbre agiu com mais empenho na campanha do que quando atuou para eleger o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) como seu sucessor na presidência do Senado.

Caminho sem volta

Após tantos meses segurando a indicação, o resultado da votação de Mendonça se tornou parte de um jogo político do qual Alcolumbre considerou que não poderia mais perder, sob o risco de ficar desmoralizado perante os outros senadores e com a imagem mais desgastada.

Até antes da sabatina, o resultado era considerado incerto, principalmente pelo fato de a votação ser secreta. Aliados do Palácio do Planalto evitavam fazer estimativas e apostavam no desempenho de Mendonça na sabatina para reverter o jogo.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do presidente, considerava como um cenário otimista o ex-AGU receber o mínimo de votos necessários em plenário, ou seja, 41 votos.

Após a sabatina, entretanto, o clima mudou. Governistas deixaram o plenário da CCJ confiantes de que Mendonça tinha conseguido virar alguns votos e seria aprovado. Parlamentares consideram que Alcolumbre errou o cálculo ao segurar a indicação por quatro meses, porque deu mais tempo para o ex-AGU se preparar para possíveis embates.

Depois da aprovação na CCJ, Alcolumbre ficou mais apreensivo. No plenário, sentou ao lado de Rodrigo Pacheco. De acordo com relatos, agiu de sobressalto quando o senador Esperidião Amin (PP-SC) surgiu para falar de outro tema. O presidente da CCJ se antecipou e começou a se defender sobre a condução do processo de Mendonça. A mulher de Alcolumbre também enviou mensagens para aliados dele demonstrando apreensão.

No Senado, a avaliação é que Alcolumbre sai enfraquecido, porque foi traído por muitos parlamentares, algo que não acontecia em outras votações da Casa. Ele também relatou a aliados que teme uma queda de popularidade em seu estado, onde tentará se reeleger no próximo ano. Lideranças evangélicas que apoiaram a indicação de Mendonça já prometeram retaliação.

Autor: Julia Lindner

Fonte: oglobo.globo.com