Política

Isolamento do Brasil aumentará ainda mais na Europa pós-Merkel, alertam especialistas

24/09/2021 07h44
Às vésperas das eleições na Alemanha, desenhos de possíveis governos de coalizão ampliam distanciamento do governo Bolsonaro; ratificação do acordo UE-Mercosul deve estagnar
Isolamento do Brasil aumentará ainda mais na Europa pós-Merkel, alertam especialistas

BERLIM - Desde 2019, as relações diplomáticas entre a Alemanha, a maior economia da Europa, e o Brasil sob Jair Bolsonaro são frias. Na era pós-Angela Merkel, que deixará o governo depois das eleições do próximo domingo, tendem a se tornar tão geladas quanto o inverno em Berlim. Analistas políticos ouvidos pelo GLOBO na Europa afirmam que, caso se concretizem as previsões eleitorais, e nos principais cenários das subsequentes negociações para formar a coalizão que governará o país, a diplomacia entre os dois países, já abalada, deve praticamente congelar.

Desde o início do governo Bolsonaro — e desde que os repasses do governo alemão ao Fundo Amazônia foram interrompidos, que um ministro brasileiro apareceu em um vídeo imitando um figurão nazista, que houve aumento dos desmatamentos e focos de incêndio em florestas brasileiras e que o presidente brasileiro se aproximou da extrema direita alemã, por exemplo —  o país de Angela Merkel mantém-se afastado de conversas com o governo federal.

—  É notável o esfriamento das relações desde que Bolsonaro chegou ao poder —  afirma Sérgio Costa, professor de Sociologia e diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Freie Universität, de Berlim. —  Se o Partido Social-Democrata (SPD) comandar o novo governo, é evidente que o distanciamento se aprofundará. A cooperação acadêmica e científica e a diplomacia cultural continuarão na medida em que o Brasil investir suficientemente para manter acordos científicos bilaterais, mas novos acordos e as demonstrações mais efusivas de aproximação, como houve desde ao menos os governos de Fernando Henrique, continuarão escassas ou mesmo inexistentes.

A três dias das eleições parlamentares, as pesquisas mostram uma disputa apertada, mas com liderança dos social-democratas, que hoje governam em coalizão com os democratas cristãos de Merkel. O SPD — cujo candidato, Olaf Scholz, é o atual vice-chanceler e ministro das Finanças —  lidera na média das sondagens, com 25% das intenções de voto. Em segundo lugar, com 21%, vem a União Democrata Cristã (CDU) da atual chanceler, que tem Armin Laschet como candidato apoiado por ela. O terceiro lugar é dos Verdes, que lançou ao páreo Annalena Baerbock, com 15%.

Diferentemente do que acontece no Brasil, no parlamentarismo alemão a população elege o parlamento, de 709 assentos, que, por sua vez, escolhe o novo chanceler. A escolha é feita durante conversas que podem durar um mês —  ou seis.  A única coisa dada como quase certa é que os Verdes participarão de qualquer futura coalizão de governo. 

Autor: Bruno Abbud, especial para O Globo

Fonte: oglobo.globo.com