Política

CPI da Covid tenta ouvir suposto 'sócio oculto' de empresa garantidora de contrato da Covaxin

14/09/2021 06h45
Depoimento é um dos mais aguardados pela cúpula da Comissão Parlamentar de Inquérito
CPI da Covid tenta ouvir suposto 'sócio oculto' de empresa garantidora de contrato da Covaxin

BRASÍLIA - A CPI da Covid ouve nesta terça-feira o depoimento do empresário e advogado Marcos Tolentino, apontado como sócio oculto do FIB Bank, que concedeu a garantia apresentada pela Precisa Medicamentos ao Ministério da Saúde no contrato de fornecimento de 20 milhões de doses da vacina Covaxin, na mira da comissão. A oitiva foi remarcada após ele ter faltado na primeira data alegando problemas de saúde.

O Fib Bank não tem autorização do Banco Central para oferecer esse tipo de fiança — o que viola decisões do Tribunal de Contas da União (TCU).

Embora não seja formalmente sócio do FIB Bank, Tolentino é citado em ações judiciais como "sócio oculto" da empresa, como antecipou a "Folha", e também consta como procurador e representante legal de uma empresa sócia do FIB Bank, a Pico do Juazeiro. Essa firma é registrada no mesmo endereço da Rede Brasil de Televisão, principal empresa de Tolentino.

O advogado é amigo próximo do líder do governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (PP-PR), que também é alvo da CPI, segundo disse o próprio Barros em seu depoimento. O deputado, porém, negou ao GLOBO ter conhecimento do envolvimento de Tolentino com a fiadora da Covaxin.

— Marcos Tolentino é um amigo meu pessoal, dono da Rede Brasil Televisão. Eu tenho rádio há 40 anos e sempre nos encontramos nos eventos de radiodifusão em todo o Brasil — afirmou Barros, no mês passado.

Tolentino, inclusive, acompanhou Barros durante o depoimento do líder do governo à Comissão Parlamentar de Inquérito, em 12 de agosto, o que chamou atenção da cúpula da CPI.

No início deste mês, o empresário apresentou atestado médico para não comparecer ao seu depoimento na comissão, alegando “formigamento” no corpo. A justificativa foi questionada por senadores da oposição, após o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) exibir um vídeo de uma entrevista concedida por Tolentino, no dia da internação, em que ele aparecia em bom estado de saúde.

— Ele se internou no final da tarde, e oito horas da noite estava dando entrevista. Sorridente, como se nada estivesse acontecendo. Para quem estava passando mal, não dava para estar dando entrevista. O Marcos Tolentino é um fraudador, e não vai fraudar uma doença? É esse cidadão que se interna na véspera de ser ouvido. Ele vem para cá nem que seja de maca. Mas vai vir aqui — afirmou o presidente do colegiado, Omar Aziz (PSD-AM).

Ontem, a Justiça Federal de Brasília autorizou, se necessário, a condução coercitiva de Tolentino. Ele poderá ser levado à força se não comparecer espontaneamente. A decisão foi mantida pela ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia.

Inconsistências

O presidente do FIB Bank, Roberto Pereira Ramos Junior, deu informações desencontradas sobre a relação da empresa com Tolentino, durante o depoimento desta quarta-feira à CPI da Covid, em agosto.

Roberto negou inicialmente que Tolentino fosse o dono do FIB Bank ou que exercesse qualquer nível de gerência na empresa. Depois, questionado novamente se Tolentino tinha alguma relação com a empresa, mudou um pouco o tom e disse que isso não era de seu conhecimento. Mas reconheceu que Tolentino é advogado do empresário Ricardo Benetti, que, por meio da empresa Pico do Juazeiro, é sócio do FIB Bank. Também afirmou que Tolentino é procurador da Pico do Juazeiro.

Durante a oitiva de Roberto, senadores da oposição apresentaram elementos para reforçar a tese de que Tolentino seria dono da FIB Bank. Eles citaram que o telefone do escritório do advogado é o mesmo do FIB Bank e que ele possui um e-mail "tolentino@fibbank.com".

Autor: Julia Lindner

Fonte: oglobo.globo.com