Política

Análise: Disputa entre alas distintas é marca da gestão Bolsonaro

23/01/2022 19h56
Briga pelo posto na campanha à reeleição é simbólica ao mostrar como grupos distintos lutam por espaços de poder nos cargos ao redor do presidente
Análise: Disputa entre alas distintas é marca da gestão Bolsonaro

A disputa que se desenha em torno da vaga de vice na chapa de Jair Bolsonaro à reeleição traz um caráter de ineditismo — um presidente que resolve mudar a configuração da aliança ao tentar renovar o mandato — e é simbólica de um episódio recorrente nos três anos de gestão: grupos distintos que convivem no entorno do chefe do Executivo brigando pelos espaços de poder.

Da formação de um governo que reservou áreas relevantes a um segmento ideológico até a configuração atual, em que o Centrão pilota o projeto em busca de mais quatro anos no poder, a distribuição de forças já transmitiu sinais diversos.

No momento em que Carlos Alberto dos Santos Cruz foi afastado da Secretaria de Governo por pressão familiar — Carlos Bolsonaro mobilizava a militância contra o então ministro —, houve a sensação de enfraquecimento dos militares e vitória dos ideológicos. Abraham Weintraub (ex-ministro da Educação) e Ernesto Araújo (ex-chanceler), por sua vez, principais expoentes da ala, foram exonerados quando a pressão política tornou-se incontornável — justo a “política tradicional”, principal alvo do grupo.

E até mesmo o hoje poderoso Centrão tem adversidades para contar. Não há no grupo quem discorde que Bolsonaro se beneficiaria eleitoralmente se parasse de atacar a vacinação — tampouco há quem consiga convencê-lo a reduzir o tom ou, quem sabe, seguir o exemplo dos 148 milhões de brasileiros já completamente imunizados.

Ao definir o companheiro de chapa, o presidente também traduzirá parte do que vê pela frente em um eventual segundo mandato. Escolher um militar pode ser sinal de que não quer um vice tão palatável ao mundo político — todos conhecem o final da história que uniu Dilma Rousseff e Michel Temer. Caso a indicação acolha uma sugestão do Centrão, haverá um indício da disposição de franquear ainda mais o acesso do Palácio do Planalto e dos ministérios à antiga inimiga, a “velha política”.

Autor: Marco Grillo

Fonte: oglobo.globo.com