Polícia

Vendedor negro denuncia injúria racial após homem puxar seu cabelo e ameaçar tocar fogo dentro de loja de shopping em Maceió

25/11/2021 16h53
Vítima contou que as recorrentes agressões ocorriam quando ele saía do trabalho na loja Centauro para usar o banheiro do Parque Shopping, em Cruz das Almas.
Vendedor negro denuncia injúria racial após homem puxar seu cabelo e ameaçar tocar fogo dentro de loja de shopping em Maceió

O vendedor Luís Felipe Mesquita denunciou à polícia nesta quinta-feira (25) que sofreu injúria racial durante quatro meses, sempre no horário de trabalho na loja Centauro do Parque Shopping, em Cruz das Almas, Maceió. A vítima, que é negra, relatou que o caso mais grave foi quando o agressor entrou na loja na última terça-feira (16) puxou seu cabelo black power e falou: "Se eu tivesse fósforo, eu tacaria fogo em você".

As agressões começaram de forma verbal e até gestual, mas com o passar do tempo foram se agravando até chegar ao puxão de cabelo e a ameaça. O funcionário disse que relatou os ataques à Centauro e ao Parque Shopping, mas que nenhum dos dois estabelecimentos tomou providências.

A reportagem tenta contato com a loja e com o shopping.

Em entrevista ao g1, a advogada da vítima, Else Freire, disse que o jovem estava bastante abalado e disponibilizou o relato feito por ele ao delegado do 6º Distrito Policial, onde a denúncia foi registrada.

Na denúncia, Luís Felipe contou que começou a trabalhar na loja no dia 2 de agosto, e como o estabelecimento não possui banheiro interno para os funcionários, tinha que utilizar o banheiro externo quando era preciso.

"Já nas primeiras semanas, comecei a notar a presença de um cliente do shopping que frequenta um estabelecimento perto desse banheiro, fazendo alguns gestos de tesoura, macaco e faca, mas que, por não o conhecer, em um primeiro momento, não achei que eram direcionados a mim. Com o passar das semanas, comecei a parar para observar a movimentação do homem para ver se seria direcionado a mim e percebi que realmente as agressões se dirigiam mim", relatou.

A vítima conta que acionou a Polícia Militar na quinta-feira (19). Os policias foram ao local, mas "o shopping retirou o agressor pela saída VIP". Por esse motivo, a PM não conseguiu fazer o flagrante.

Sem apoio da loja e do shopping, a vítima contou que se viu desamparada e com medo de sair nos momentos de intervalo ou para ir ao banheiro. "Eu pedia a uma amiga para verificar se ele [o agressor] estava lá ou não. Caso estivesse, não iria por medo de sofrer injúrias raciais e perseguição".

Antes que as agressões chegassem a ser físicas, o jovem conta que, no final de agosto, o agressor foi falar diretamente com ele e usou expressões como "e aí, amigo macaco?", "e aí, neguinho".

"Toda vez que eu via o agressor, ficava com medo e travava. Por isso não conseguia reagir na hora, ao ponto de ser penalizado no trabalho por demorar muito no banheiro, situação que acontecia, porque ficava tentando me acalmar para tentar enfrentar o agressor e voltar ao trabalho", relata Luís Felipe.

A vítima conta ainda que quando o agressor foi confrontado, tentou invalidar suas atitudes dizendo que "era coisa da cabeça" dele, que ela era "o amigo neguinho da Centauro". O funcionário agredido disse que esse episódio de injúria foi presenciado por um segurança do shopping, que não agiu para defendê-lo.

No dia em que o agressor puxou seu cabelo blackpower, "todo mundo do trabalho presenciou essa situação e não fizeram nada e que "saiu correndo e foi falar com a gestão, informando que o agressor tinha entrado na loja e que o agrediu. Mais uma vez, não tomaram nenhuma atitude contra o homem e apenas disseram: "Ah não... Ele de novo. É inadmissível".

Luis Felipe também relatou que na quinta-feira, foi quando ocorreu novamente a injuria racial gestos injuriosos por volta das 16h/17h "foi quando o shopping veio se pronunciar de maneira a se solidarizar com, que embora já tivesse reclamado inúmeras vezes ao SAC e com diferentes gestores, os presentes na hora davam a entender que aquela era a primeira vez que ele estava falando sobre o assunto, o que não é verdade. Dos quatro gerentes de segurança presentes no shopping nesses quatros meses de trabalho na Centauro, a vitima falou com os quatro. Nesse mesmo dia, a chefe geral da segurança também veio conversar dizendo para ele não ligar. pois "seu cabelo é bonito"".

A vítima disse na delegacia que "quando chegava em casa ficava se perguntando o que faria no outro dia. Começou a fazer tratamento psicologico, pois não estava aguentando mais, que pediu socorro, mas ninguém o socorreu".

Autor: Roberta Batista

Fonte: g1.globo.com