Brasil deve enfrentar a difícil decisão de envelhecer
02/07/2026, 06:04:05
O chamado de Jorge Félix
Em seu mais recente livro, o gerontólogo Jorge Félix defende que é crucial aceitar o envelhecimento, pois, sem essa aceitação, a sociedade não dará a devida atenção ao tema. Segundo Félix, o Brasil enfrenta uma era em que a questão do envelhecimento precisa ser amplamente discutida.
A importância da decisão de envelhecer
Jorge Félix, doutor em ciências sociais pela PUC-SP e professor na Universidade de São Paulo, enfatiza a necessidade de uma mudança de perspectiva. "O Brasil precisa tomar essa decisão difícil de envelhecer. De verdade, não o envelhecimento fake do aplicativo. Precisa enxergar o fenômeno do envelhecimento muito além da previdência, onde o tema está confinado e com lentes fiscalistas", escreve no seu livro intitulado "A (difícil) decisão de envelhecer".
Envelhecimento como transformação econômica
Félix argumenta que o envelhecimento populacional é também uma transformação econômica que, embora implique gastos, também gera riquezas. Ele discute como a economia da longevidade pode impulsionar a industrialização e promover uma nova cesta de consumo, onde há menos crianças e mais idosos.
Ele lamenta que no Brasil a interdisciplinaridade do tema ainda seja negligenciada. "A decisão de envelhecer implica promover a saúde, a educação ao longo de toda a vida, a adaptação das cidades, a adequação das moradias, as condições de trabalho, a segurança alimentar", enumera, reforçando que o debate não pode se limitar às questões previdenciárias.
Reflexões sobre a saúde e a política
O livro de Félix também é uma coletânea de artigos que discutem a complexidade do envelhecimento, incluindo a questão do endividamento dos idosos e críticas à política de saúde durante a pandemia do governo Bolsonaro. Em um dos artigos, ele critica o modelo adotado pelo ex-ministro da Economia, Paulo Guedes: "O objetivo maior da economia, como um ramo das ciências sociais, é garantir a vida, oferecer respostas às ameaças ao bem-estar social, ou seja, servir ao homem", defende.
A negação do envelhecimento
O especialista aponta que precisamos aceitar que somos velhos, pois, do contrário, a sociedade não trata o tema como merece. Ele comenta sobre um fenômeno nas redes sociais onde, de repente, “um exército de internautas decidiu envelhecer”. No entanto, essa abordagem ignora que o envelhecimento é um processo coletivo que possui profundas repercussões.
Ele reflete: "O curioso é que, quanto mais se escreve sobre envelhecer, mais as pessoas reagem e se embrenham em uma fuga frenética rumo a um desconhecido ‘desenvelhecer’ ou sonham com idealizadas blue zones nada científicas e muito menos replicáveis".
Desafios da humanidade
Félix menciona que a humanidade enfrenta duas transformações radicais: a mudança climática e a demográfica. Ele salienta que ambos os fenômenos ainda não são plenamente reconhecidos e discutidos. Uma boa notícia é que a Organização Mundial da Saúde não reconheceu oficialmente a velhice como doença, evitando estigmas que poderiam prejudicar a dignidade dos idosos.
É necessário que todos nós parem e reflitam sobre essas questões. O envelhecimento não deve ser visto com temor, mas sim como uma fase digna da vida que merece atenção e planejamento.
