Um ano após morte de Herus, pai cobra justiça sem respostas
10/06/2026, 10:50:04
Um ano após a morte do jovem Herus Guimarães, pai cobra justiça
O office-boy Herus Guimarães Mendes da Conceição, de 23 anos, estava na festa junina do Santo Amaro quando o Bope subiu o morro em uma operação. Sargento e tenente são réus.
Um ano após a morte do jovem Herus Guimarães, assassinado por um policial do Bope no Rio de Janeiro, seu pai lamenta que os acusados continuem soltos.
Em fevereiro, a Justiça tornou réus por homicídio o sargento Daniel Sousa, que disparou 13 vezes, e o tenente Felippe Martins, comandante da ação.
O governo estadual prometeu pagar indenização e pensão ao filho de Herus, de 3 anos, mas a família relata nunca ter recebido um pedido de desculpas.
O tenente Felippe Martins também foi denunciado por invadir clandestinamente 13 residências no Complexo da Maré durante outra operação policial realizada em janeiro de 2025.
O coronel Aristheu Lopes, ex-comandante do Bope na época do crime, foi nomeado para cargo na PM e atualmente lidera o Comando de Policiamento Especializado.
“A gente só gostaria de saber por que as leis não valem para policiais. Meu filho foi morto com tiros de fuzil, e o PM que fez isso continua livre e solto. Não dá para entender.”
O desabafo é do auxiliar de escritório Fernando Guimarães, pai do office-boy Herus Guimarães Mendes da Conceição, de 23 anos, que há 1 ano foi assassinado por um policial militar do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).
Naquela madrugada de 7 de junho de 2025, a tropa de elite da Polícia Militar do RJ tinha subido o Morro Santo Amaro, na Zona Sul do Rio de Janeiro, para uma operação. Na hora, acontecia a tradicional festa junina da comunidade.
No dia 4 de fevereiro, 8 meses após a morte do rapaz, a Justiça do RJ aceitou a denúncia do Ministério Público do Rio (MPRJ) e tornou réus por homicídio o 1º sargento Daniel Sousa da Silva e o 1º tenente Felippe Carlos de Souza Martins. Daniel foi o único policial a disparar no local. Ele atirou 13 vezes.
O g1 não localizou a defesa deles.
Até a última atualização desta reportagem, a Justiça ainda não tinha determinado se os militares iriam a júri popular. Também não havia previsão de data para julgamento.
O governo do estado se comprometeu a pagar indenizações por danos morais aos familiares e uma pensão mensal ao filho de Herus, Theo, de 3 anos, até que ele complete 18 anos — ou 24, caso esteja matriculado em uma instituição de ensino superior.
Sem desculpas
Mesmo assim, Fernando conta que jamais recebeu um pedido de desculpas.
“Sinceramente, o que podemos esperar do outro lado [a polícia]? Nada. Nós, que estamos deste lado, não temos segurança alguma. O policial que autorizou a incursão que matou meu filho foi flagrado meses antes dentro da casa de um morador na Maré. O mesmo PM.”
O policial citado por Fernando é o tenente Felippe Martins, que comandou a operação do Bope que matou Herus. Felippe e outros 9 colegas foram denunciados pelo MPRJ por violação de domicílio, descumprimento de missão e recusa de obediência durante uma operação no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, em 10 de janeiro de 2025.
De acordo com a denúncia do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp/MPRJ) — oferecida em abril deste ano —, no dia da ação, os agentes entraram clandestinamente em 13 residências na Nova Holanda, em alguns casos utilizando chave mestra ou arrombando a porta, sem autorização dos moradores nem ordem judicial.
Segundo o MPRJ, parte dos policiais também deixou de cumprir a missão de incursão e estabilização para permanecer dentro dos imóveis, onde dormiram, usaram banheiros e até consumiram itens das geladeiras dos moradores.
Na ocasião, a PM afirmou que instaurou um “procedimento apuratório cabível” e que Felippe foi afastado das funções.
PM diz que atirou 13 vezes em festa junina
De acordo com a denúncia do MP no caso Herus, Daniel efetuou os disparos que causaram a morte do office-boy.
Em depoimento, o sargento Daniel disse que foi o único de sua equipe a realizar disparos na ação. Ele afirmou que os 13 tiros foram uma resposta a disparos de traficantes. A manifestação do agente contrariou o primeiro posicionamento da PM, que afirmava que os policiais não dispararam naquela noite.
“As imagens das câmeras operacionais portáteis demonstram que Herus não esboçou qualquer atitude agressiva e tentou se afastar para se proteger, estando de costas no momento em que foi atingido”, diz o MPRJ em nota à época.
Já o tenente Felippe, comandante da equipe Alfa do Bope, foi denunciado sob suspeita de omissão penalmente relevante. Para o MPRJ, ele decidiu manter a operação mesmo após receber informações de que havia uma festa junina em andamento com muitos moradores no local, incluindo crianças.
Felippe e Daniel são réus na 2ª Vara Criminal do RJ por homicídio qualificado por motivo fútil e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. A Justiça determinou diversas medidas cautelares, como:
- suspensão das atividades de policiamento externo;
- proibição de acesso a unidades militares diferentes daquela em que forem designados para trabalhar;
- proibição de manter qualquer tipo de contato — pessoalmente, por telefone, mensagens ou redes sociais — com testemunhas do processo e familiares da vítima entre outras.
De subsecretário a comandante
O coronel Aristheu de Goes Lopes, comandante do Bope à época da operação no Santo Amaro e chefe de Felippe e Daniel, chegou a ser exonerado, mas passou por vários batalhões ao longo dos últimos meses.
Nesta segunda-feira (8), no dia seguinte ao aniversário da morte de Herus, o governador em exercício, Ricardo Couto, nomeou Aristheu como subsecretário-adjunto de Comando e Controle da PM.
O ato foi assinado com efeitos retroativos a 26 de janeiro de 2026. Entretanto, o coronel não está mais na função. Atualmente, ele lidera o Comando de Policiamento Especializado (CPE), onde responde pelos batalhões de áreas turísticas, vias expressas e estádios do estado.
Aristheu Lopes nunca foi investigado pela Corregedoria da PM na morte do office-boy.
Por nota, a Polícia Militar disse que “não há qualquer determinação judicial que impeça” Aristheu Lopes “de exercer a função policial”. Ainda de acordo com o comunicado, “a publicação em Diário Oficial tratou-se de um ato administrativo em função do ajuste retroativo de cargos e reestruturação das unidades da PMERJ.”
A instituição disse também que “o inquérito policial militar sobre o caso Herus foi concluído e encaminhado ao Ministério Público Militar.”
O g1 questionou o Governo do Estado sobre a nomeação. No entanto, não houve retorno.
Vida mais difícil
Nesse 1 ano, o pai de Herus relata que a saúde da esposa piorou e que a vida ficou “mais difícil.”
“A situação do coração dela piorou. Ela tem o coração grande e os batimentos têm ficado abaixo do normal: chegaram a 40 por minuto e hoje estão em 33. A cirurgia é considerada o último recurso — um transplante, porque o coração dela está dilatado. Ela fica muito abatida, porque a vida ficou mais difícil sem o meu filho,” conta.
