Maria Luiza Jobim fala sobre legado do pai e nova fase

Maria Luiza Jobim fala sobre legado do pai e nova fase

Um Olhar sobre a Mudança

"O roteirista ficou maluco: minha vida está uma loucura”, diz, em tom de brincadeira, a cantora e compositora Maria Luiza Jobim, de 39 anos. Nos últimos 12 meses, ela mudou de país, casou-se, separou-se e gravou um novo disco. Filha de um dos maiores nomes da música brasileira, Antonio Carlos Jobim, e da fotógrafa Ana Jobim, Maria Luiza recebeu a equipe de ELA em sua nova casa, em Lisboa. A sala, com apenas um sofá, uma mesa e um violão, reflete a fase de transição após o fim do casamento com o cantor português António Zambujo. “Agora, Portugal é minha tela em branco.”

Apesar da habitual discrição em relação à vida pessoal, Maria Luiza não se esquivou de falar sobre a separação. Comentou, porém, que evita usar "palavras da moda do Instagram" para rotular comportamentos que minaram a relação. Há um cuidado evidente em não simplificar assuntos complexos, sabedoria de quem faz terapia "desde que aprendeu a falar".

Talvez, por isso, ela escolha com atenção cada palavra. Espera o fim do ensaio fotográfico, no Hotel Pestana Palace, em Lisboa, para iniciar a entrevista com mais concentração. Durante a produção, opinou sobre cada detalhe, das roupas ao cabelo. Existe método na forma como organiza o trabalho, algo que atribui ao legado executor da mãe. Do pai, diz ter herdado o lado mais doce e emocional. “Sou romântica. Acredito no amor.”

Um Novo Álbum e a Liberdade Artística

Esse traço é evidente no novo álbum, “Rosa no Céu”, produzido por Marcelo Camelo, gravado em Lisboa e que será lançado na terça-feira, dia 2. Com quatro músicas em português, três em inglês e uma em francês, o título do disco nasceu de uma brincadeira afetuosa com a amiga Mallu Magalhães, uma “love language” como define, compartilhada pelas duas, que costumam trocar fotos do céu ao entardecer. Nos próximos meses, “a menina do cabelo amarelo” segue em turnê com shows em Portugal, incluindo grandes festivais, como Ageas Cooljazz (no qual se apresenta antes de Gilberto Gil) e Vodafone Paredes de Coura, e Brasil. Maria Luiza segue com uma postura romântica perante a vida. “Eu trabalho com o amor. Olho o mundo através dessa lente. Se eu não enxergar isso, a fonte seca”, explica. Ao ver os preparativos de um casamento que aconteceria horas depois no hotel, brinca: “Eu falo com a noiva ou vocês?”.

Sobre a Carreira e a Influência do Pai

Você acabou de chegar de Nova York, onde fez dois shows esgotados. Como foi?
Uma surpresa maravilhosa. Nasci no Rio, mas, com poucos meses, minha família se mudou para lá, e fiquei até os 4 anos. Guardo lembranças dos sons e das imagens, alguns flashes... A primeira vez que cantei lá foi aos 8 anos, em um tributo ao meu pai, no Lincoln Center. Teve João Gilberto, Sting... Não é pouca coisa. Mas, na minha carreira solo, este foi o primeiro show.

“Rosa no Céu” chega após mudanças na sua vida pessoal e artística. Que disco é esse?
Tem sabor de liberdade artística. Não pretende ser cabeça, quer seduzir, e não tem medo disso. O título vem de uma “love language” que compartilho com a Mallu Magalhães. É aquele momento fugaz em que o céu fica rosa, na transição entre dia e noite. Tem sabor doce de verão. São oito faixas, entre elas um dueto com Chico Chico.

Você e ele carregam sobrenomes muito simbólicos da música brasileira. A parceria é uma forma natural de seguir esse legado?
Ele tem uma interpretação muito carioca e, ao mesmo tempo, masculina, no melhor sentido, que contrasta com a minha voz. Esse jogo de claro e escuro me lembra os duetos franceses, como Jane Birkin e Serge Gainsbourg. Temos uma leva de nepobabies: nós, os Gil, os Caymmi, os Caetanos... É um privilégio não só pelas portas abertas, mas principalmente por ter crescido em um ambiente musical. Assim como filho de dentista vira dentista, filho de artista vira artista. Mas nenhum sobrenome inventa um artista. Para se sustentar, é preciso verdade.

Redescobrindo a Identidade Musical

Em algum momento da sua carreira parecia haver um cuidado em não se aproximar musicalmente do universo do seu pai. Hoje isso soa mais natural. Você se sente mais livre para dialogar com esse legado?
A música sempre foi algo sagrado para mim porque era minha relação com meu pai. Eu o perdi muito cedo (tinha 7 anos, em 1994), então aquele era um lugar onde eu o acessava. Quando decidi transformar isso em ofício, senti que precisava me afastar dessa figura tão forte no mundo, e ainda mais dentro de mim, para entender quem eu era. Comecei pela música eletrônica, em um duo em que não usava meu nome, cantava em inglês e não tocava nada dele. Só depois que minha filha nasceu resolvi iniciar minha carreira solo. Foi um processo de conexão com quem eu sou musicalmente, com a minha verdade. Hoje, canto músicas do meu pai nos shows. A primeira vez teve um efeito quase físico. Eu tinha medo de imitar, de mimetizar.

Memórias e Luto

Existe alguma memória íntima do seu pai que o público não conhece, mas que resume quem ele era para você?
Meu pai era mais velho e não me carregava no colo porque tinha dores nas costas. Mesmo assim, eu pedia. Um dia, cochilei no sofá e ele me pegou no colo para me levar até a cama. Lembro muito dessa sensação.

Você perdeu seu pai muito jovem, depois um irmão adolescente em um acidente de carro e, recentemente, outro irmão pela mesma doença do seu pai, câncer de bexiga. Como lida com essas perdas?
A escritora Tatiana Salem Levy, que é minha amiga, diz que precisamos aprender a conviver com nossos mortos. Acho isso muito bonito. E, claro, com muita terapia...

A Relação com Portugal e o Recente Casamento

Qual é hoje sua relação emocional com Portugal? Existe algo ancestral nessa conexão?
Somos da província de Jovim, perto do Porto. Em 1992, meu pai veio fazer o show histórico no Mosteiro dos Jerónimos, quando Mário Soares era presidente. Eu estava nessa viagem e lembro da gente comendo amêijoas e, depois, assistindo novela no hotel. Em 2015, minha mãe comprou uma casa no Estoril, e passei a vir com frequência. Até que me mudei com minha filha, Antônia (de 7 anos, do relacionamento com o advogado Paulo Figueiredo), quando me casei, em setembro. Casar envolveu todas as responsabilidades de mudar uma criança de escola e de país. Chega um momento em que percebemos que compramos gato por lebre. Mas continuo aqui, tenho muitos amigos e gosto muito de estar em Portugal.

Seu relacionamento com António Zambujo terminou poucos meses após o casamento. O que aconteceu?
Percebi, muito rapidamente, assim que vim morar aqui. Teve toda a presepada do casamento, era um sonho dele, e eu embarquei porque me apaixonei. Mas minha geração entendeu que certas coisas não são possíveis, que não podemos aceitar determinadas situações, ainda mais quando há uma criança envolvida. Não me demorei. Se não fosse esse relacionamento, talvez eu nem estivesse aqui hoje. Há males que vêm para o bem, e há malas que vão para Belém.

Um Coração Romântico em Tempos Difíceis

Depois de tudo, você continua romântica?
Meu trabalho é olhar o mundo através da lente do amor. Se eu não enxergar isso, a fonte seca. Existe um enamoramento, uma poesia, em tudo o que faço.

Hoje há pressão para transformar a vida íntima em conteúdo. Crescer perto da fama te fez proteger mais a intimidade?
Venho de uma família extremamente pública, mas ninguém é celebridade. É uma escolha, um jeito de viver. Eu não falo da minha vida íntima, nunca falei, meu pai nunca falou. O foco sempre foi o trabalho, e a poesia já tem tanta coisa boa para dizer.

Você e Luana Piovani são amigas, mas parecem muito diferentes...
Temos uma química quase de irmãs, muito carinho e uma intimidade instantânea. A Luana é esse furacão maravilhoso e necessário. Tenho muito orgulho da mulher que ela é, da coragem e de como se posiciona por todas nós. Ela é uma guerreira.

A Música como Terapia

A música ainda funciona como uma forma de organizar emocionalmente a vida?
Sou muito pisciana, sensível e emocional. O trabalho sempre me aterra. Sou filha de uma mulher muito prática, que executa e realiza, e isso me ajudou a concretizar sonhos. Ao mesmo tempo, herdei do meu pai esse lado doce. Acho que foi um bom samba. É isso que quero deixar para a Antônia: valores no lugar certo, especialmente sendo mãe de uma mulher.