É proibido homenagear vivos, mas vivos podem fazer filmes

Entre placas vetadas e telas liberadas, o Brasil transforma a política em disputa de narrativa, onde a promoção pessoal muda de nome conforme o interesse do momento.

É proibido homenagear vivos, mas vivos podem fazer filmes

Enquanto projetos de lei, regimentos internos e discursos moralistas tentam impedir que nomes de pessoas vivas sejam usados em homenagens públicas, o Brasil assiste tranquilamente políticos, empresários e figuras públicas produzirem filmes sobre si mesmos, suas versões da história e suas próprias biografias ainda em pleno exercício de poder.

A regra parece simples apenas no papel: não se pode eternizar vivos em prédios, ruas, obras ou títulos públicos para evitar promoção pessoal. O princípio é correto. O problema começa quando a interpretação da vaidade muda conforme o interesse político.

Porque se uma homenagem em praça pública pode ser considerada propaganda antecipada de imagem, o que seria então um filme? Um longa-metragem financiado, articulado, promovido e distribuído nacionalmente não seria também uma ferramenta poderosa de construção de narrativa pessoal?

No Brasil moderno, a disputa deixou de ser apenas eleitoral. Agora é cinematográfica, digital e emocional. Quem controla a narrativa controla a memória. E quem controla a memória, muitas vezes, controla votos.

A contradição é quase cômica: vereadores discutem proibir nomes em placas enquanto documentários, séries e filmes inteiros surgem para transformar figuras públicas em personagens históricos antes mesmo do julgamento definitivo do tempo — ou das urnas.

O problema não está na arte. O cinema é livre. A cultura deve ser livre. O problema aparece quando a régua moral muda conforme o sobrenome, o partido ou o lado ideológico.

Se homenagear vivos é promoção pessoal, filmes também podem ser.
Se filmes são liberdade de expressão, homenagens também podem carregar reconhecimento popular legítimo.

O que não pode existir é a hipocrisia seletiva: proibir pequenas homenagens enquanto grandes campanhas de imagem ganham tela, palco, marketing e aplausos.

No fim, talvez a discussão nunca tenha sido sobre homenagens.
Sempre foi sobre quem pode construir a própria estátua antes da hora — e quem será impedido até de colocar o nome numa placa.

Creditos: Professor Raul Rodrigues