Érika Hilton e o ciclo vicioso da agressividade
25/04/2026, 18:07:29
O Ciclo do Ódio
Quando o personagem que te salvou começa a te aprisionar, a transformação vira vingança e ninguém sai ganhando.
Oscar Filho, colunista do iG, é apresentador, ator, repórter, humorista, escritor e empresário. Pioneiro do stand-up no Brasil, manteve o solo 'Putz Grill…' por 11 anos. Famoso pelo CQC, participou de diversas produções na TV e no cinema, com indicação ao Emmy Internacional 2024. Também é autor de 'Autobiografia Não Autorizada' e criou a linha de vinhos 'Putos'. Atualmente, se apresenta em teatros e eventos corporativos.
Recentemente, fiz um vídeo sobre Érika Hilton no Roda Viva, que se tornou um ponto de discussão. Nos comentários, algumas pessoas aproveitaram para criticar: "É, ela é burra mesmo." Mas esse não era o foco. Érika Hilton é uma mulher extremamente inteligente. A trajetória dela até aqui não é fruto do acaso. O vídeo analisava a soberba, não a capacidade. Focava na contradição, não na pessoa.
Ela participou de uma nova entrevista no Podpah, e eu assisti aguardando mais falhas de português. Ela cometeu alguns erros, que poderiam gerar uma parte dois para atrair visualizações. No entanto, uma frase capturou minha atenção: "Eu não tenho muita paciência." As pessoas a criticam, dizendo que ela só grita, que fala com indignação. E sim, essa indignação vem de quem já conheceu a miséria. Érika Hilton.
Essa indignação é compreensível. Vivenciar a miséria dá razões para a pressa. Mas ela não é mais a menina pobre à deriva. Hoje, é deputada federal. Ela superou desafios. Existe uma tendência de nos apegarmos aos personagens que nos salvam. O problema surge quando esses personagens se imobilizam. A impaciência que faz sentido diante da miséria, no parlamento, se transforma em agressividade. E agressividade não convence ninguém.
A esquerda volta-se para Paulo Freire. Uma de suas máximas diz: "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor." Érika hilton, originária de um contexto de pobreza, hoje é deputada. Será que, sem perceber, ela mudou de papel? Freire não é apenas um nome para discursos; ele alerta sobre o risco de quem foi oprimido repetir a estrutura que o oprimia.
A direita, que a chama de burra, erra ao alimentar um ciclo de ódio. Mas Érika também pode estar perpetuando o mesmo ciclo, só que de outro lado. Ambos os lados acreditam ter razão. Ambos estão aprisionados.
A história de Érika Hilton poderia ser uma poderosa ferramenta de transformação e inspiração, não de vingança. Quebrar esse ciclo não é uma fraqueza, mas sim o que Freire definia como libertação.
