Todas as crises — existenciais ou não — criaram “mitos”

Entre o vazio e a necessidade de sentido, o ser humano transforma o caos em narrativas para continuar existindo

Todas as crises — existenciais ou não — criaram “mitos”

A história da humanidade pode ser contada não apenas por fatos, datas ou conquistas materiais, mas, sobretudo, pelas narrativas que construímos para dar sentido ao caos. Em cada crise — seja ela pessoal, social, política ou espiritual — o ser humano reagiu não apenas com ações práticas, mas com imaginação. E dessa imaginação nasceram os “mitos”.

Não se trata aqui do mito como mentira, mas como construção simbólica. O mito é uma tentativa de explicar o inexplicável, de organizar o medo, de domesticar a angústia. Em momentos de ruptura, quando a realidade deixa de oferecer respostas satisfatórias, o homem cria histórias que lhe permitam continuar.

As crises existenciais são talvez o terreno mais fértil para esse processo. Quando o indivíduo se vê diante do vazio — questionando sua finalidade, sua identidade ou seu destino — ele frequentemente constrói narrativas internas para sustentar-se. Surgem então os mitos pessoais: a ideia de missão, de destino especial, de sofrimento necessário, ou até de redenção futura. São formas de dar continuidade à própria existência quando o sentido parece escapar.

Mas não são apenas as crises individuais que produzem mitos. As grandes crises coletivas — guerras, colapsos econômicos, mudanças políticas — também são berço de narrativas poderosas. Povos inteiros passam a reinterpretar sua história, criando heróis, vilões e episódios simbólicos que, muitas vezes, vão além da realidade factual. Nessas circunstâncias, o mito cumpre um papel estratégico: une, mobiliza, justifica.

Há ainda um aspecto mais sutil. Toda crise implica perda de controle. E o mito surge justamente como uma tentativa de recuperar esse controle, ainda que no campo simbólico. Quando não se pode dominar os fatos, domina-se a interpretação dos fatos. É assim que surgem explicações simplificadas, figuras quase sobrenaturais — salvadores ou culpados — e narrativas que reduzem a complexidade do mundo a algo compreensível.

Entretanto, é preciso reconhecer que os mitos não são, por si só, negativos. Eles também são motores culturais. Muitas das grandes obras da literatura, da filosofia e até da política nasceram de crises profundas. O problema não está na criação do mito, mas na incapacidade de superá-lo quando a realidade exige lucidez.

O risco surge quando o mito deixa de ser um instrumento de compreensão e passa a ser um substituto da realidade. Quando se transforma em dogma. Nesse estágio, ele já não protege — aprisiona. Já não orienta — distorce.

Portanto, afirmar que todas as crises criaram mitos é reconhecer algo profundamente humano: nossa necessidade de sentido. O desafio, porém, está em saber quando usar o mito como ponte — e quando abandoná-lo para encarar a realidade como ela é.

Porque, no fim, toda crise pede duas respostas: uma para acalmar o espírito — e outra para enfrentar o mundo.

Creditos: Professor Raul Rodrigues