Desistência pré-candidatura de Ratinho Júnior e a polarização
29/03/2026, 15:05:40
A batalha que não houve
A desistência do governador do Paraná de disputar a presidência deixa sem resposta dúvidas sobre o eleitor diante de uma eventual "terceira via".
O tempo avança e, embora ainda não tenha sido dado a largada oficial para a campanha eleitoral deste ano, a cada dia parece mais evidente que a disputa, mais uma vez, se dará entre a esquerda e a direita. Mais especificamente, entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
E pelo que se viu e ouviu até agora, pelo tom das declarações dos apoiadores de um e de outro e pelo ânimo que cerca as duas pré-candidaturas, ninguém deve esperar um clima diferente do que dominou as campanhas anteriores. Nenhum dos lados poupará o outro de críticas e acusações pesadas.
Pelo rumo que a situação está tomando, tudo indica que, de agora até outubro, quando acontecerá a eleição, o país afunde no mesmo atoleiro polarizado que tem mantido o debate político restrito à troca de acusações.
O que mais parece interessar aos dois lados dessa briga não é apresentar ideias nem discutir o que pretende fazer caso venha a ser eleito. O que interessa mesmo é explorar as fraquezas e expor o que o adversário tem de pior.
Dias atrás, Flávio comparou Lula a um Opala velho. "Se comparar o Lula a um carro, é aquele Opala velho, que já foi bonito, mas agora não te leva a lugar nenhum e ainda bebe para caramba", disse o senador, numa frase que se equilibra entre a troca e a ofensa.
Na semana passada, num evento em Salvador, Lula devolveu a ofensa no mesmo tom. "Ele fala porque o Opala dele é o pai, que está no desmanche. Então ele fala. O Opala que ele conhece é o pai dele", devolveu o presidente.
Tem sido assim nas últimas eleições e as esperanças de que, desta vez, a história pudesse tomar um rumo diferente ficaram mais remotas na semana passada, com a retirada da disputa do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD).
Juninho, como ele é chamado no círculo mais próximo, vinha despontando como o nome mais provável para abrir a tão aguardada "terceira via" na corrida para a presidência da República.
Na segunda-feira passada, ele anunciou por meio de nota que pretende permanecer no Palácio Iguaçu até o último dia do mandato — o que significa dizer que não deixará o cargo que ocupa até o próximo sábado, dia 4 de abril. Essa é a data limite, de acordo com o calendário eleitoral, para que os ocupantes de cargos executivos renunciem a seus postos caso pretendam se candidatar.
Candidatura de centro
Ratinho não disputará cargo algum e assumirá, depois das eleições, a presidência do grupo de comunicação criado por seu pai, o apresentador Ratinho, que conta 77 estações de rádio e cinco emissoras de TV que retransmitem o sinal do SBT no Paraná.
A decisão do governador pode ter sido inesperada, mas nada tem de surpreendente. No ambiente político brasileiro, é comum que pessoas mudem de ideia repentinamente e sigam caminhos completamente diferentes do que vinham anunciando. Ratinho é apenas mais um a seguir esse caminho.
A desistência de Ratinho é apenas mais um desses mudanças que acontecem para deixar tudo como exatamente estava antes. A decisão, porém, não deixa de ser lamentável. Será difícil encontrar outro candidato que consiga, como tudo indicava que Ratinho conseguiria, encarnar uma candidatura de centro capaz de oferecer uma alternativa concreta às que têm sido apresentadas ao eleitor.
Ratinho Júnior é um dos governadores mais bem avaliados do país. Embora não seja muito conhecido fora do Paraná, o fato de ser filho de um comunicador de inegável apelo popular poderia ajudar na divulgação de seu nome. De perfil moderado, ele havia largado na frente e angariado mais simpatia do que os outros políticos que, como ele, se apresentaram como alternativas para a disputa.
Um desses políticos é o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD) — que não tem o mesmo perfil moderado que ele. Se for escolhido, Caiado ajudará a reforçar o discurso da direita e colocará mais lenha na fogueira de um debate que já anda acalorado. Outro é o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (também do PSD). O principal problema dele é a confiabilidade.
Leite carrega a má fama de ter sido o principal responsável pela implosão da pretensão de João Doria de disputar a presidência em 2022, quando antes eram filiados ao PSDB. Doria havia sido escolhido pelos filiados do partido, mas Leite não aceitou o resultado e fez o que pôde para solapar a candidatura.
O terceiro nome é Romeu Zema (Novo), governador de Minas Gerais, nome forte para ser o vice na chapa de Flávio Bolsonaro. Como os outros dois, ele teria dificuldades para ultrapassar as divisas de seu estado e se firmar como um nome nacional.
De acordo com as avaliações feitas no mundo da política, as credenciais de Ratinho Júnior eram superiores às dos demais postulantes — tanto assim que era o preferido dos caciques de seu partido, o PSD, para encabeçar a chapa do partido.
Ele, de fato, tem o que mostrar. Sob seu comando, o Paraná, por exemplo, tornou-se o único estado brasileiro que pode atingir ainda este ano as metas de universalização dos serviços de água e esgoto previstas para 2030.
No estado, 100% das moradias são abastecidas com água potável. A coleta e tratamento do esgoto alcança 81,7% dos domicílios e há 600 obras em andamento para expandir esse percentual. Nenhuma outra unidade da federação tem números melhores num quesito sensível como esse.
O Paraná tem, também, desempenho positivo na educação, no combate à criminalidade e em mais um punhado de rubricas que, nas campanhas eleitorais brasileiras, têm perdido espaço para a troca de farpas entre candidatos. Tratar desses assuntos na campanha ajudaria a ampliar o debate e fazer com que a campanha não se limitasse à troca de acusações. Só que isso, infelizmente, não acontecerá.
A questão é: será que o eleitor está interessado em discutir programas de governo ou, ao contrário disso, acha melhor ver o circo pegar fogo, como tem acontecido com frequência nas campanhas no Brasil? Será que ele, o eleitor, quer ouvir propostas antes de escolher seu candidato ou prefere participar da briga que tem inviabilizado o diálogo na política brasileira? Ninguém tem as respostas para essas perguntas e, na ausência de uma candidatura capaz de seguir esse caminho, a dúvida persistirá pelo menos até 2030.
Seja como for, a saída de Ratinho Júnior da disputa e a ausência, até segunda ordem, de um nome capaz de desempenhar o mesmo papel que ele desempenharia na campanha, transforma em especulação qualquer análise que se faça a respeito da "terceira via" no processo eleitoral.
Qualquer pergunta que se faça a respeito da reação do eleitor a esse tipo de candidatura ficará sem resposta — assim como ficaram sem resposta as perguntas sobre um evento histórico que também envolveu o estado do Paraná, na Revolução de 1930: a batalha de Itararé, que passou para a história como "a batalha que não houve".
Para quem não se recorda, o município paulista de Itararé é um entroncamento ferroviário importante, localizado bem na divisa com o estado do Paraná.
Em 1930, as tropas leais ao presidente Washington Luís, comandadas pelo coronel Paes de Andrade, se concentraram ali para conter os exércitos leais a Getúlio Vargas, que saíram do Rio Grande do Sul e se uniriam aos destacamentos do próprio Paraná, sob comando do general Miguel Costa. Dali, seguiram de trem em direção ao Rio de Janeiro.
A expectativa em torno da luta que aconteceria naquele campo de batalha dominou o país inteiro. No final, houve um acerto entre os comandantes e Itararé entrou para a história como "a grande batalha que não houve".
Uma dúvida, porém, sempre rondou as cabeça dos historiadores: o que teria acontecido com o Brasil se os legalistas tivessem vencido a batalha e impedido o avanço da revolução? Numa comparação rasteira, a pergunta em relação à candidatura é: o que poderia acontecer caso Ratinho Júnior mantivesse sua candidatura e tivesse um caminhão de votos no dia 4 de outubro?
Mundo ideal
Calma! Ninguém está sugerindo, aqui, que Ratinho Júnior tinha um caminho desimpedido pela frente e reunia condições de conquistar a preferência do eleitor a ponto de tomar de Lula ou de Flávio uma vaga no segundo turno. Isso poderia até acontecer, mas a probabilidade era mínima. O que está sendo dito é que ele poderia ter um papel relevante na campanha e exercer uma influência decisiva no segundo turno.
Há um outro aspecto a ser observado. A importância de ter um candidato forte e identificado com o centro na disputa pela presidência também está na influência que ele pode exercer sobre o eleitor que, além do presidente, também escolherá governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais.
É importante que, no imperfeito sistema de representação da política brasileira, exista no parlamento um grupo expressivo de parlamentares que não esteja previamente alinhado com os dois lados que têm dominado à política brasileira.
São eles que funcionam como o fiel da balança e permitem a aprovação das pautas estruturantes que todo governo tem a apresentar — e que jamais seriam aprovados se dependesse apenas do confronto ideológico.
É lógico que, no mundo real, é cada vez mais nítido que os deputados e senadores se movem mais pelos interesses relacionados com as emendas parlamentares do que por qualquer outro interesse. Mas, no mundo ideal, quanto mais equilíbrio existir no poder onde são feitas as leis, melhor.
Seja como for, a campanha já está nas ruas, embora oficialmente ainda não esteja. Os pré-candidatos já pensam, falam e agem com os olhos concentrados nas urnas de outubro.
E, nesse esforço, têm deixado a coerência de lado para evitar debates que, no final das contas, podem gerar desgastes a sua imagem. Foi o que aconteceu, por exemplo, na terça-feira da semana, passada quando o senador Flávio votou a favor de um projeto de lei que tem a imagem e semelhança do que há de pior na esquerda lacradora.
O projeto em questão dá à misoginia(ou seja, às manifestações explícitas de preconceito contra as mulheres) o mesmo tratamento e as mesmas punições previstas para o crime de racismo. O tema é importantíssimo e a discussão do respeito às mulheres, mais do que oportuna. O problema é o tratamento que o assunto recebeu no texto aprovado.
O texto que foi votado e aprovado sem votos contrários é um substitutivo elaborado pela senadora Soraya Thronick (Podemos/MS) ao projeto original apresentado pela senadora Ana Paula Lobato (PSB/MA) em 2023. Genérico em suas formulações, ele define como misoginia "a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres".
Ao fim e ao cabo, o que foi aprovado nada mais é do que a transformação em lei das bandeiras e clichês do movimento feminista mais ranheta; mas não avança um único centímetro em medidas que realmente importam. Ali não há medidas concretas de prevenção do feminicídio, do combate à violência sexual ou do aumento das proteções às mulheres no ambiente de trabalho ou no transporte público.
No final, o texto atraiu a ira das facções da direita mais identificadas com a resistência às políticas identitárias. Flávio e todos os outros senadores da oposição preferiram não expressar sua opinião.
Disseram sim ao projeto mesmo sem concordar com ele e transferiram para a Câmara a responsabilidade de conter os arroubos do texto. A intenção de Flávio, segundo os analistas de sua campanha, seria a de fazer um aceno para as mulheres com o objetivo de reduzir sua rejeição pelo eleitorado feminino. Será que conseguiu?
Candidatura palatável
O hábito discutível de, em nome do cálculo eleitoral, tomar decisões que contrariam em gênero, número e grau tudo o que disseram ao longo de sua trajetória não é um privilégio de Flávio. Exemplos dessa conduta estão por toda parte.
Na quarta-feira passada, por exemplo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou com apenas dois vetos o projeto da lei que endurece o tratamento aos integrantes das organizações criminosas relatado pelo ex-secretário da Segurança Pública de São Paulo, deputado Guilherme Derrite.Quem dissesse, meses atrás, que o mesmo Lula seria capaz de sancionar uma lei que amplia as penas e endurece o tratamento aos integrantes das facções, seria acusado de espalhar fake news.
Acontece, porém, que o eleitor está atento a esse tema, apoia o projeto de Derrite e tem dado sucessivas demonstrações de que negará seu voto a quem quiser continuar oferecendo flores aos bandidos que mantém a sociedade sob ameaça.
Lula fez apenas dois vetos. Um deles não tem a ver diretamente com o endurecimento do tratamento proposto aos criminosos, mas com a transferência para os estados e para o Distrito Federal dos recursos e equipamentos apreendidos nas operações contra as facções. O presidente quer que o dinheiro fique com a União.
O outro veto alcança um artigo que, de acordo com as razões apresentadas pela assessoria do Planalto, poderia dar aos integrantes de "movimentos sociais" o mesmo tratamento mais duro previsto para os criminosos faccionados.
Ou seja, assim como Flávio Bolsonaro parece não ter sido sincero com o eleitor ao votar a favor do projeto da misoginia, que contraria tudo o que ele e seu partido pensam a respeito desse assunto, Lula demonstra padecer do mesmo mal no momento em que elogia o endurecimento do tratamento aos fora da lei — que o PT sempre rejeitou. A questão é: será que o eleitor está disposto a se deixar enganar por atitudes como essas? A resposta para isso terá que esperar até outubro.
