Quando a ciência não basta para a ética
28/02/2026, 09:13:58Quando a ciência não basta
A Ciência moderna já demonstrou, com clareza, que sozinha não conduz o ser humano a padrões éticos elevados. Apesar de suas extraordinárias descobertas e avanços tecnológicos, ela se mostra incapaz de conduzir a humanidade pela trilha da espiritualidade, especialmente nos moldes fragmentados e pragmáticos do mundo contemporâneo.
A ética, por sua vez, exige fundamentos mais profundos. Ela precisa de padrões perenes, de valores que não se tornem obsoletos com o tempo: amor, verdade, honestidade, inclusive no campo intelectual. Sem esses referenciais sólidos, não há como conduzir o ser humano a uma vida verdadeiramente plena.
“Conhecimento sem valores não produz humanidade.”
É justamente nesse ponto que o discurso religioso se apresenta como essencial. Ao tratar de dimensões subjetivas como alma, espírito e eternidade, a fé toca o lugar onde nasce toda ética autêntica e toda espiritualidade consistente. São essas questões invisíveis aos métodos científicos que sustentam o sentido da existência e orientam o agir humano.
O astrônomo americano Allan Sandage (1926–2010), um dos maiores cientistas do século XX e que se tornou cristão ao longo da vida, afirmou:
“Somente com o sobrenatural posso encontrar a razão do propósito.”
Vivemos em uma sociedade democrática, plural e livre, e isso exige maturidade. Precisamos aprender a conviver com os que pensam diferente de nós e, mais do que isso, ter a liberdade de dialogar sobre valores, princípios de conduta e ética com pessoas que compartilham a mesma jornada existencial, mas não as mesmas convicções espirituais, religiosas ou científicas.
Enquanto cientistas como Allan Sandage e John Polkinghorne, físico teórico da Universidade de Cambridge, mudaram profundamente suas rotas existenciais após experiências com o sobrenatural e encontraram respostas na fé, milhares de outros seguem caminhos distintos. E isso precisa ser respeitado.
“A pluralidade de caminhos não elimina a necessidade de valores comuns.”
Nem todos partilham de uma visão espiritualizada da vida, e muitos não reconhecem a dimensão sobrenatural da existência. Diante desse cenário, o que nos resta é a construção de uma base moral e ética compartilhável, capaz de sustentar a convivência social sem suprimir a liberdade de pensamento, crença ou expressão.
As convicções humanas não são estáticas. Os ateus convictos de hoje podem se tornar os religiosos de amanhã e o contrário também é verdadeiro. Por isso, o diálogo precisa ser permanente, respeitoso e livre de radicalismos.
Em sociedades de maioria religiosa, é natural que as leis dialoguem com princípios éticos oriundos dessa tradição. No entanto, isso jamais pode significar imposição. A democracia existe justamente para proteger as minorias e garantir que a força do número não se transforme em autoritarismo.
“Maiorias não legitimam imposições; legitimam responsabilidades.”
O desafio do nosso tempo não é escolher entre ciência ou fé, mas compreender que nenhuma sociedade se sustenta apenas sobre dados, técnicas ou estatísticas. Sem valores, sem ética e sem um horizonte transcendente, o progresso perde seu propósito e o ser humano, sua direção.