Bloco do Bobo preserva cultura em meio ao afundamento do solo
18/02/2026, 15:01:39O Bloco do Bobo em Maceió
Enquanto muitos grupos desapareceram com o esvaziamento das comunidades, o Bloco do Bobo permaneceu ativo no Bom Parto, mantendo ensaios, oficinas e desfiles mesmo diante das dificuldades enfrentadas.
Esse bloco é um dos mais tradicionais da cultura carnavalesca de Maceió e surgiu de uma simples brincadeira de crianças, atravessando gerações no bairro do Bom Parto. Inspirados em personagens caricatos e "monstros fofões", os meninos começaram a criar fantasias improvisadas com saco de nylon, corda amarrada na cintura e latas que serviam de instrumento. O Bloco do Bobo, atualmente, é um dos poucos grupos que resistem após os danos ambientais e o afundamento do solo causados pela extração de sal-gema em Maceió.
A História do Bloco do Bobo
A história do Bloco do Bobo é um verdadeiro símbolo de resistência cultural na capital alagoana. O fundador, Antônio Severino, é uma referência na promoção cultural da comunidade. Ele recorda: "Baseado naqueles monstrinhos fofões, a gente começou a trabalhar o bobinho com uma roupinha de saco de nylon, a corda amarrada na cintura, batendo umas latas. Começamos quando crianças. Depois, já adultos, fomos pegando o pique, gostando disso e moldando esse carnaval até chegar aqui".
Mais do que um simples desfile, o Bloco do Bobo representa um espaço de formação e fortalecimento comunitário. A população local participa ativamente na confecção das fantasias e na organização das alas, mantendo viva a tradição no bairro. Antônio destaca que "é produção da própria comunidade. Eles se juntam para delegar funções e assim se movimenta o nosso carnaval. Eu dou oficinas todas as segundas e quintas-feiras".
As Alas do Bloco
Na avenida, essa união se transforma em cores e ritmos, com várias alas que dão identidade ao cortejo, como o Batuque das Poderosinhas, o Boi Caprichoso, a Ala dos Narcóticos Anônimos e o Bloco da Inclusão.
No entanto, a trajetória do Bloco do Bobo não foi apenas de festa. O bloco é um dos poucos que sobreviveram aos danos ambientais e ao afundamento do solo, consequência da extração de sal-gema. A desocupação dos bairros de Mutange, Bebedouro e Pinheiro afetou diretamente a dinâmica cultural da região. Antônio relatou: "Os bobos que a gente tinha vinham do Alto das Colinas, desciam a Chã de Bebedouro, passavam no Mutange. Quando acabou com esses bairros, acabou com o movimento e com a população que fazia parte do carnaval com a gente".
Apesar dos desafios enfrentados pela comunidade, cada detalhe dos figurinos carrega significados profundos. A escolha das cores e o desenho dos personagens são cuidadosamente pensados como uma forma de transformar dor em expressão cultural. Segundo Antônio: "Além da pandemia, que deixou todo mundo triste, ainda vem a violência. Para trabalhar esse sentimento, esse bobo não é um bobo bizarro, ele é um bobo alegre. Tem uma cara sorridente, é colorido, mexe com os sentimentos da comunidade".