As diferenças do crime organizado no Brasil reveladas
18/02/2026, 12:03:11O Crime Organizado no Brasil
Embora organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) atuem em quase todo o país, o crime organizado brasileiro está longe de ser homogêneo. Segundo um estudo da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), divulgado em 2024, existem cerca de 88 facções no país, cada uma adaptando sua atuação a fatores sociais, territoriais, institucionais e políticos.
Adaptação ao Contexto Local
Ao contrário da ideia de um “modelo único” de facção, os grupos criminosos se moldam às condições locais, às formas de repressão estatal e às economias ilegais disponíveis, principalmente dentro do sistema prisional. Nesse sentido, o crime organizado não apenas reage ao contexto, mas é também produto dele.
Segundo Marcos Alan Ferreira, professor de Relações Internacionais da UFPB e pesquisador do CNPq, as diferenças na atuação das facções estão ligadas tanto à geografia quanto à presença do Estado no tráfico, seja doméstico ou internacional.
Estratégias Diferentes por Estado
No Amazonas, a atuação do PCC é marcada pela cooperação com grupos locais, diante da extensão territorial e da dificuldade de reproduzir o modelo paulista. Em 2017, a facção passou a operar de forma mais articulada com organizações regionais, ajustando sua estratégia às especificidades da região.
Em Roraima, a presença do grupo começou com o tráfico de drogas, mas, diante da negligência do Estado em áreas indígenas, expandiu-se para atividades como mineração e garimpo ilegais, além da exploração sexual. Já em São Paulo, onde o PCC surgiu, a atuação é mais estruturada e próxima do cotidiano das periferias, com controle de mercados ilícitos e presença até no setor financeiro. “O controle é central em alguns estados por causa do mercado e da história. São Paulo concentra o maior consumo interno de cocaína e é de lá que o PCC se expandiu para outros mercados”, diz Ferreira.
Comando Vermelho x Primeiro Comando da Capital
Tanto o Comando Vermelho quanto o Primeiro Comando da Capital atuam em 25 unidades federativas do Brasil, segundo o Senappen. Apesar dessa ampla presença territorial, as duas facções apresentam estruturas organizacionais e formas de atuação distintas.
Ambas surgem no sistema prisional, um ponto em comum que diferencia o crime organizado brasileiro de outras organizações criminosas ao redor do mundo. Enquanto máfias como a italiana e a russa se estruturaram a partir de laços familiares ou transformações econômicas, no Brasil a ausência do Estado e a precariedade dos presídios criaram um ambiente propício para o surgimento e fortalecimento das facções.
O Comando Vermelho tem origem no final dos anos 1970, enquanto o PCC surge no início da década de 1990. Em ambos os casos, as prisões funcionaram como espaços de articulação, permitindo que essas organizações se consolidassem e ampliassem sua influência para além dos muros do sistema penitenciário.
Apesar da origem semelhante, as duas facções adotaram modelos organizacionais diferentes ao longo do tempo. O PCC construiu uma estrutura mais hierarquizada e racionalizada, com regras internas e um funcionamento próximo a um modelo burocrático. Já o Comando Vermelho manteve uma lógica mais descentralizada, baseada em lideranças locais, operando como uma rede de grandes traficantes distribuídos em diferentes territórios. “O Comando Vermelho surge da articulação de grandes assaltantes de bancos no Rio de Janeiro e, ainda no início dos anos 1980, passa a priorizar o tráfico de drogas por ser uma atividade menos arriscada. Com o tempo, a facção ampliou sua atuação para práticas como extorsão. O PCC seguiu trajetória semelhante ao diversificar seus negócios, deixando de atuar exclusivamente no tráfico para investir também em esquemas de lavagem de dinheiro”, analisou Ferreira.
Políticas Públicas e os Limites do Enfrentamento
Para Ferreira, o combate ao crime organizado no Brasil exige políticas públicas intersetoriais, capazes de ir além do reforço policial ostensivo. Segundo ele, ações isoladas, como o aumento do policiamento nas ruas, são insuficientes diante da complexidade das facções criminosas.
O professor ainda avalia que o enfrentamento efetivo passa pelo fortalecimento dos setores de inteligência, do sistema de justiça e da capacidade investigativa do Estado. Embora o Judiciário brasileiro seja considerado custoso e burocrático, ele desempenha papel central na desarticulação das organizações criminosas, especialmente no rastreamento financeiro e no combate à lavagem de dinheiro.
Outro eixo considerado fundamental é o sistema prisional. Enquanto o Estado não retomar o controle efetivo das prisões, as facções continuarão utilizando esses espaços como centros de comando e articulação de seus negócios, favorecendo a reprodução e a expansão do crime organizado.
Nesse cenário, Ferreira defende a formulação de políticas nacionais de segurança pública que respeitem as diferenças regionais do fenômeno criminoso. A coordenação entre os entes federativos, o fortalecimento da Polícia Federal e a cooperação institucional aparecem como pontos-chave para reduzir a fragmentação das ações, enfrentar a corrupção policial e limitar a infiltração das facções nas estruturas do Estado.