Teatro Procópio Ferreira não caiu, revela verdade surpreendente
30/01/2026, 18:05:26Una imagem criada por IA virou manchete
Uma imagem criada por IA virou manchete, indignação e lamento coletivo, enquanto bastava atravessar a rua para descobrir que nada daquilo era verdade. Eu tenho uma memória afetiva com o Teatro Procópio Ferreira. E não é pouca. Todo mundo lembra dele por causa do Sai de Baixo. Eu também. Domingo à noite, sofá, risada gravada, Caco Antibes humilhando o pobre e a gente entendendo que era piada. Enfim, a infância emocional de um país inteiro. Mas a minha relação com aquele teatro não ficou só na televisão. Durante dois anos, eu me apresentei ali todas as semanas com o Clube da Comédia Stand-up, grupo pioneiro de stand-up em São Paulo. Marcelo Mansfield, Danilo Gentili, Rafinha Bastos, Marcela Leal e eu no palco. Lotava! Gargalhada real, suor real, público real. Foi ali também que dirigi um show de comédia. Ou seja: não é só nostalgia de espectador. É memória de palco. De bastidor. De camarim cheio. De aplauso ao vivo.
O que aconteceu de verdade
Por isso, quando eu vi a notícia de que o teatro tinha sido demolido, eu pensei: “Cacetada… Lá se foi um pedaço da minha história também.” Mas aí veio a parte curiosa: o teatro NÃO FOI demolido!
A checagem impossível
Tudo começou com uma única imagem, essa aí de cima, circulando nas redes sociais, mostrando uma máquina supostamente demolindo o teatro. A foto é falsa, feita por inteligência artificial. Mesmo assim, a imagem virou verdade. Não no zap, mas em grandes veículos de imprensa. Terra, Band, CNN, Globo e vários outros publicaram títulos como “Começa a ser demolido”, “Início da demolição”, “São Paulo destrói o teatro”, afirmando a demolição já na manchete. Não foram blogs, foram veículos com redação, editor, telefone, repórter, Google Maps. Com gente que, teoricamente, sabe onde fica a Rua Augusta. E mesmo assim, ninguém pensou: “Será que alguém pode ir lá olhar?” Estamos falando de um teatro numas das regiões mais centrais e acessíveis da cidade. Não é um sítio arqueológico no meio da Amazônia. Não é uma cratera em Marte. É Augusta. Perto da Paulista. Com ônibus, metrô, Uber, bicicleta, patinete e gente andando a pé. Era só o quem escreveu as matérias pedir pra uma tia solteira que mora perto passar na frente e mandar um áudio: “Olha, não caiu não. Tá tudo aí...”
O impacto das informações
Claro que isso depende da tia. Porque, se for aquela tia que acredita em tudo que vem no zap, ela talvez continuasse a frase: “...mas parece que o Lula tá escondido no subsolo.” Mas mesmo assim: era checável. Muito checável. A errata escondida e o escândalo em destaque depois que a fake news já tinha rodado, emocionado, revoltado e rendido engajamento, veio a correção. Ela veio discreta, meio tímida, sabe? Aquelas no fim da matéria? Quase pedindo desculpa por atrapalhar a indignação. Aqui estão os fatos: A fachada foi retirada. O teatro está fechado. Não houve demolição autorizada. O prédio continua de pé. Alguns veículos, como a Folha e a Veja SP, deixaram isso claro já no título. Outros corrigiram depois, editaram texto, incluíram nota.
A responsabilidade da imprensa
Mas, quando a correção chega, o estrago principal já está feito: a maior parte das pessoas só viu a primeira manchete. Mas isso já não importava mais. A tragédia já tinha sido consumida. O luto já tinha sido performado. A timeline já tinha seguido adiante. Até o Kleber Mendonça Filho já tinha chorado. O problema não é errar. É errar grande e checar pequeno. Fake news não é mais coisa de tio conspiracionista. Hoje ela vem com o emblema de veículos que deveriam apenas nos informar direito. É essa a essência do trabalho deles. Me incluo nisso.
A imprensa e a verdade
O problema não é alguém se enganar com uma imagem feita por IA. O problema é transformar uma imagem não verificada em fato, sem o mínimo esforço de confirmação. E, principalmente, manter a manchete chamativa, sabendo que muita gente se informa de maneira superficial. A imprensa critica veementemente as fake news, mas não toma um cuidado tão básico como esse? Provavelmente a razão seja: redações enxutas, pressa pelo clique, dependência de trending topics, a sensação de que, se você não publicar agora, está “atrasado”. Mas nada disso justifica.
O verdadeiro espetáculo
O Teatro Procópio Ferreira continua lá. Fechado sim. Ameaçado sim. Vulnerável sim ao mercado imobiliário como tantos outros espaços culturais da cidade. Existe projeto imobiliário, existe interesse econômico, e esses equívocos, frutos de trabalho mal feito, ajudam a especulação imobiliária porque as notícias falsas entram no inconsciente popular. Quando (e se) demolirem de verdade, vamos pensar: “Ué, mas já não tinham...” O espetáculo mais impressionante dessa história não foi no palco. Foi na internet. Foto falsa, imprensa apressada, indignação automática e correção envergonhada. O teatro resistiu. O critério jornalístico, não. E o ano eleitoral só está começando. Vai vendo!