Rachaduras na liderança evangélica entre Malafaia e Damares

Rachaduras na liderança evangélica entre Malafaia e Damares

Conflitos entre líderes evangélicos

O pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, foi citado por Damares e não deixou barato. Em vídeo, maldiz \"a fofoca nessa língua do capeta\" e afirma ser \"inadmissível você falar da igreja do outro\".

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O pastor Silas Malafaia acusou Damares Alves (Republicanos-DF) de ser \"leviana linguaruda\" ao falar em \"grandes igrejas\" envolvidas nas \"falcatruas\" investigadas pela CPMI do INSS, sem dar nome aos bois. Ato contínuo, a senadora divulgou igrejas e pastores na mira da comissão e retrucou que faria bem a Malafaia \"orar um pouco\". O pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, foi citado por Damares e não deixou barato. Em vídeo, maldiz \"a fofoca nessa língua do capeta\" e afirma ser \"inadmissível você falar da igreja do outro\". A troca de farpas pública entre o trio evangélico extrapolou a rixa pessoal e virou sintoma de algo maior. Divergências se repetem em outros flancos, da indicação do batista Jorge Messias ao STF (Supremo Tribunal Federal) às articulações para este ano eleitoral.

A candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) dá pistas de uma cúpula menos alinhada do que em ciclos eleitorais passados. É verdade que, em 2018, a disputa começou com muitos desses pastores de peso nacional endossando Geraldo Alckmin, então no PSDB e tido como alternativa à direita. Mas, conforme o primeiro turno ia chegando, mais e mais líderes pularam na canoa bolsonarista. O segundo turno com Fernando Haddad (PT) selou de vez a predileção por Jair Bolsonaro (PL). O apoio da maioria de pastores se repetiu em 2022. O primogênito de Jair ainda não entusiasmou peixões do evangelicalismo brasileiro.

A maior parte prefere o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) na chapa, com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) de vice. Malafaia já declarou achar Flávio fraco eleitoralmente. \"Eu disse a ele: não sou covarde, você não tem musculatura.\" Damares pegou a outra via: declarou apoio ao 01 de Bolsonaro e prometeu se empenhar para levar evangélicos à campanha.

O deputado Marco Feliciano (PL-SP) postou um conselho a Flávio: \"Sente com o pastor Silas\", a \"voz política mais relevante da nação\", e escute o que ele tem a dizer. À Folha ele diz ver \"pontos isolados de discussão\", mas uma trupe \"mais unida do que nunca\". Pastores com trânsito político admitem que, se Bolsonaro insistir no filho, Tarcísio tentará a reeleição em São Paulo, e aí restará o \"se não tem tu, vai tu mesmo\".

O bispo Robson Rodovalho, que dará \"assistência religiosa\" para o ex-presidente aprisionado, diz que conversará com Flávio nos próximos dias. \"Não podemos nos dividir. A direita tem que entrar junta.\" Não tem andado junta, no entanto, em muitos assuntos que devem atravessar a corrida eleitoral. A escolha do presidente Lula (PT) por seu advogado-geral da União para o Supremo provocou cizânia nesse núcleo evangélico.

O senador Magno Malta (PL-ES) é um que repele a hipótese. Ele escreveu um artigo no Pleno News, portal evangélico, desancando a nomeação. \"E agora começou essa história de 'ah, mas o Messias é evangélico'. Ora, por favor. Identidade religiosa não é salvo-conduto ético. O povo de fé tem discernimento. Sabe distinguir convicção de conveniência. Em Messias, tudo cheira a conveniência.\" O posicionamento contrasta com o de outros líderes que foram a público defender o AGU. O bispo Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira, chegou a publicar foto entre Lula e seu indicado. Na legenda: \"Jorge Messias, Deus é contigo\".

Outro pastor que se aproximou do governo foi Otoni de Paula (MDB-RJ). Ex-bolsonarista e de direita, segundo o próprio, o deputado federal orou em mais de uma ocasião por Lula e, em debate na terça (20), definiu Malafaia como um camarada \"com poucos amigos e muitos reféns\". Sugeria que o pastor intimidava colegas, acuados para contrariá-lo abertamente. Desavenças entre aliados evangélicos sempre aconteceram, mas sem tanto ruído.

O que 2026 vem mostrando é uma turma menos unida. Eles apostam que, na hora do vamos ver, todos estarão juntos, mas por ora os atritos têm se tridimensionalizado. E pior: de forma bem pública. Pegou particularmente mal o bate-boca entre Damares, Malafaia e Valadão, na esteira do escândalo envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master, arrastados para a CPMI do INSS.

Damares começou, dizendo haver igrejas e pastores, sem nomeá-los, implicados no esquema. Malafaia a cobrou por jogar uma névoa jogada sobre todo o segmento. Valadão, por sua vez, reagiu após a senadora esclarecer de quem estava falando -no caso, dele e de Fabiano Zettel, entre outros. Zettel é cunhado de Vorcaro e atuava como pastor na Lagoinha. Foi afastado. Nas coxias evangélicas, há quem veja a denúncia de Damares como um \"saneamento\" do campo.

Outros acusam os personagens da trama de fomentar um fogo amigo que divide a igreja e enfraquece a direita. André Ítalo Rocha, autor de \"A Bancada da Bíblia: Uma História de Conversões Políticas\", lembra que a briga entre Damares e Malafaia é antiga. \"O atrito começou em 2018, depois da eleição de Bolsonaro.\" O pastor apoiou Magno Malta para liderar o recém-criado Ministério da Família, mas a vaga acabou ficando com Damares, uma ex-assessora de Malta. \"O movimento foi interpretado como uma traição.\"