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Tunísia reprime protestos contra medidas autoritárias do presidente

15/01/2022 08h46
Manifestação ocorre no aniversário de 11 anos da renúncia do ditador Zine el-Abidine Ben Ali, evento que marcou a primeira e mais bem-sucedida revolta da Primavera Árabe
Tunísia reprime protestos contra medidas autoritárias do presidente

TÚNIS — A polícia tunisiana usou canhões de água e bastões para dispersar mais de mil manifestantes que tentavam chegar ao centro da capital Túnis nesta sexta-feira, desafiando as restrições relativas à Covid-19, para protestar contra o presidente Kais Saied. A oposição o acusa de ter dado um golpe após ter destituído o primeiro-ministro e suspendido o Parlamento em julho de 2021.

Uma forte presença policial impediu que muitos manifestantes se reunissem na Avenida Habib Bourguiba, a principal via no centro de Túnis e tradicionalmente o principal ponto das manifestações, inclusive durante a bem-sucedida revolução de 2011, que deu início à chamada Primavera Árabe e trouxe a democracia ao país.

Com chutes e empurrões, a polícia tentou forçar o recuo de vários grupos de manifestantes, sendo um deles formado por centenas de pessoas, segundo testemunhas. De acordo com o Ministério do Interior, 1.200 pessoas protestaram e as forças de segurança agiram com moderação.

 

 

 

Partidos de oposição, incluindo o moderado islâmico Ennahda, protestam contra a suspensão de meses do Parlamento pelo presidente Saied, o novo governo anunciado por ele e seus movimentos para reescrever a Constituição, medidas que classificam como golpe.

— Impedir que os tunisianos protestem no aniversário da revolução é vergonhoso. É um ataque às liberdades e representa um grande declínio sob as autoridades golpistas — disse Imed Khemiri, membro do Ennahda.

Dezenas de carros da polícia estavam na área e dois canhões de água foram usados do lado de fora do prédio do Ministério do Interior.

O protesto desta sexta-feira vai contra a proibição de todas as reuniões internas ou externas que o governo anunciou na terça-feira para impedir uma onda de casos de Covid. Para o Ennahda e outros partidos que participaram do protesto, o governo implementou as medidas e retomou o toque de recolher noturno por motivos políticos, e não de saúde, em uma tentativa de evitar protestos.

— Hoje, a única resposta de Saied aos oponentes é com o uso da força e com as forças de segurança. É tão triste ver a Tunísia como um quartel na data de nossa revolução — disse Chayma Issa, ativista opositora.

Embora, em um primeiro momentos, as ações de Saied em julho tenham aparentemente recebido apoio popular —em um contexto de anos de estagnação econômica e paralisia política—, analistas afirmam que ele pode ter perdido parte do apoio nos meses subsequentes.

A economia da Tunísia continua atolada pela pandemia, houve pouco progresso na obtenção de apoio internacional e o governo de Saied nomeado em setembro anunciou um orçamento impopular para 2022.

Os protestos desta sexta-feira ocorreram no dia que os tunisianos marcaram como o aniversário da revolução, quando, há 11 anos, o ditador Zine el-Abidine Ben Ali renunciou e fugiu do país depois de estar no poder por 23 anos. No ano passado, Saied decretou que o aniversário da revolução cairia na data de dezembro em que ocorreu o suicídio de um vendedor ambulante que desencadeou o levante.

Autor: Reuters

Fonte: oglobo.globo.com