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Sob pressão por 'partygate', premier britânico busca sobrevida no cargo enquanto partido avalia seu futuro político

15/01/2022 08h42
Boris Johnson sempre conseguiu se livrar de crises, mas sucessão de festas em Downing Street durante pandemia pode provocar reviravolta em sua carreira política
Sob pressão por 'partygate', premier britânico busca sobrevida no cargo enquanto partido avalia seu futuro político

LONDRES — No fio da navalha, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, busca sobrevida no cargo, enquanto seus colegas de partido pesam os prós e contras de mantê-lo onde está. Eleito há pouco mais de dois anos, o premier irritou opositores, o conjunto da sociedade e membros do próprio Partido Conservador com uma série de escândalos culminando com o “partygate” — festas organizadas por membros do entorno de Boris em plena vigência de três rigorosos períodos de quarentena no país. A sigla do premier começa a ver seu futuro ameaçado pela queda de popularidade do chefe de governo. Se até há alguns meses, poucos apostariam no afastamento de Boris, hoje, nos corredores da política britânica em Londres não se descarta uma renúncia iminente.

— Fazer previsões numa situação febril como esta é sempre difícil. Mas creio que Boris Johnson terá de renunciar no futuro próximo. Seu comportamento começou a influenciar as intenções de votos nos conservadores. Se a eleição geral fosse amanhã, muitos deputados da legenda perderiam seus assentos. Isso cria grande nervosismo — disse ao GLOBO o professor emérito de Governo Paul Whiteley, da Universidade de Essex.

Efeito Teflon

Crises nunca intimidaram o camaleônico primeiro-ministro, que tem histórico de sobrevivência. Bastava despentear um pouco mais a cabeleira loura, sair-se com duas boas tiradas ou uma curta mensagem de três palavras e pronto: a mágica estava feita. Assim sobreviveu ao Brexit — que derrubou seus três antecessores —, venceu as eleições gerais de 2019, superou escândalos políticos e navega pela pandemia do coronavírus.

— É verdade que Boris Johnson é uma espécie de primeiro-ministro Teflon: escândalos parecem não colar nele. Mas tem um velho ditado do mundo das finanças que diz: “Primeiro, as pessoas vão à falência aos poucos e, depois, depressa.” Me parece que ele perdeu o rumo — disse Whiteley, autor de 27 livros sobre comportamento eleitoral, opinião pública e economia política.

O premier parecia invencível até uma sequência de escândalos recentes. O mais grave dos quais, o chamado “partygate”. Duas das festas de seu pessoal, em especial, abalaram a opinião pública. A primeira, que contou com a presença do premier, aconteceu em dezembro de 2020, em pleno Natal, com os britânicos trancados em casa sob duras restrições sanitárias. A denúncia foi publicada nos jornais no mês passado. Esta semana, para tentar estancar a raiva geral e pôr uma pedra sobre o assunto, Boris se desculpou no Parlamento. Mas um segundo convescote veio à tona na noite de quinta-feira. A festa, com direito a música com DJ, aconteceu na véspera do funeral do príncipe Philip, em abril passado, quando a rainha Elizabeth II apareceu só, longe da família, na capela do Castelo de Windsor, onde se despedia do companheiro de 73 anos de casamento. A monarca seguia à risca as regras de distanciamento social vigentes. Ontem, Boris pediu desculpas à rainha.

A pressa dos parlamentares conservadores em tirá-lo da liderança e do cargo vai depender das suas ambições e temores. Há quem diga que podem esperar até as eleições regionais de maio, que têm menos peso para o quadro político nacional, mas podem ser o sinal definitivo enfraquecimento da liderança de Boris.

Há ainda aqueles que não querem pagar para ver. Mês passado, os conservadores perderam para os liberais democratas assento em Shropshire, um reduto conservador há 200 anos. Ontem, uma nova pesquisa de opinião da consultoria Savanta ComRes indicou que os trabalhistas estão com 42% de preferência do eleitorado (aumento de cinco pontos em relação à pesquisa anterior), contra 32% dos conservadores (queda de um ponto). E 70% dos britânicos desejam ver a saída de Boris. Isso significa, para os conservadores, “perder mais assentos” na eleição geral do ano que vem.

O futuro de Boris está nas mãos do partido. Há o grupo do deixa disso, parlamentares leais ao premier, que tentam pôr água na fervura. Mas os críticos de Boris são cada vez mais numerosos. De tão exauridos por suas peripécias, alguns já admitem publicamente a possibilidade de questionar a sua liderança.

Para o professor de Essex, as chances de que isso aconteça são grandes, dada a insatisfação do partido com os fatos recentes. Como a próxima eleição geral será em 2023, o premier só sai se renunciar, ou se os membros do partido apresentarem contra ele um voto de desconfiança. Para que isso aconteça, é preciso que 54 parlamentares conservadores apoiem o pedido, que necessita de 180 votos para ser levado adiante. Sem isso, Boris fica no cargo e não poderá ter sua liderança questionada novamente pelo período de um ano. Este é um dos riscos avaliados dentro da legenda nos últimos dias.

Entre apostas arriscadas num momento de crises sanitária, econômica e política agudas, o premier tem sido percebido como errático na tomada de decisão. Às vezes, até confuso. No viaduto da Estrada M4, 70 km a sudoeste da capital, o cartaz estampa uma foto de Boris com um chapéu de palhaço: “Boris mente”.

Sua popularidade é a mais baixa entre 15 primeiros-ministros que deixaram seus cargos desde a Segunda Guerra: 23%. A também conservadora Margaret Thatcher tinha 26% quando renunciou. Mas o momento era outro e o próprio partido estava muito mal avaliado. O principal motivo que levou à queda dos premiers do pós-guerra foi a perda de eleições gerais. Em seguida, problemas de saúde. Só dois não se encaixam nesse perfil: o trabalhista Tony Blair e Thatcher.

Costuras nos bastidores

Mas Boris ainda aposta numa espécie de salvo-conduto do relatório final das investigações sobre o “partygate”, que será anunciado nos próximos dias. Dentro do partido, ele tenta agradar a uma ala contrária a medidas sanitárias restritivas, quando os casos de Covid-19 se mantêm em alta, enquanto indica que continuará seguindo os conselhos dos cientistas. E ainda enfrenta o impopular reajuste nos preços da energia e uma crise de abastecimento causada pela pandemia e pelos efeitos do Brexit.

Nos bastidores, há candidaturas sendo costuradas para o lugar de Boris, entre elas a do xerife das contas públicas, Rishi Sunak, que tem se saído bem durante a pandemia, e da secretária de Relações Exteriores, Liz Truss. A verdade é que, para muitos, a saída de Boris e a escolha de um novo líder para o partido podem significar a recuperação nas intenções de voto — estratégia que funcionou em 1990 após a queda de Thatcher.

Autor: Vivian Oswald, especial para O GLOBO

Fonte: oglobo.globo.com