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Presidente eleito da Colômbia, Petro promete fronteira aberta com Venezuela; veja o que esperar das relações dos dois países

22/06/2022 18h44
Expectativa é de retomada de relações agora que colombianos elegeram um governo de esquerda. Especialistas, no entanto, que não se pode esperar alinhamento automático de Petro com Maduro.
Presidente eleito da Colômbia, Petro promete fronteira aberta com Venezuela; veja o que esperar das relações dos dois países

Presidente eleito da Colômbia, Gustavo Petro disse nesta quarta-feira (22) por meio do Twitter que entrou em contato com o governo da Venezuela e vai reabrir a fronteira entre os dois países, que teve diversas fases de fechamento parcial e total nos últimos anos.

 

“Eu me comuniquei com o governo venezuelano para abrir as fronteiras e restabelecer o pleno exercício dos direitos humanos na área”, tuitou Petro.

 

Ao ganhar a eleição de domingo (19), Petro tornou-se o primeiro presidente de esquerda eleito na Colômbia. Ele não deixou claro se se comunicou diretamente com o presidente venezuelano, Nicolás Maduro — que tinha enviado mensagem cumprimentando-o pela vitória. Mas o chanceler venezuelano, Carlos Faria, disse que Caracas espera “construir uma nova era” na relação entre as duas nações.

Gustavo Petro e Francia Marquez na comemoração da vitória, em 19 de junho de 2022 — Foto: Daniel Munoz/AFP

A fronteira dos dois países foi fechada em 2015 pelo governo venezuelano após um confronto entre forças de segurança venezuelanas e civis, que Nicolás Maduro atribuiu ao "paramilitarismo" na Colômbia e pelo qual culpou o então presidente colombiano Álvaro Uribe, que negou as acusações.

Nos anos seguintes, a situação se normalizou gradativamente, mas em 2019, mais uma vez, a Venezuela fechou a fronteira, em meio a uma escalada de tensões entre os governos de Maduro e de Iván Duque.

A pandemia de 2020 fez com que a Colômbia fechasse suas fronteiras em março daquele ano, embora as tenha reaberto em junho de 2021.

As pontes internacionais Simón Bolívar, Santander e Unión entre o departamento de Norte de Santander (Colômbia) e o estado de Táchira (Venezuela) foram fechadas. Outras passagens, no entanto, como Maicao, no departamento de La Guajira (Colômbia) e Maracaibo, em Zulia (Venezuela), ficaram em sua maioria abertas.

As relações diplomáticas entre Caracas e Bogotá vinham bastante degradadas desde 2019, quando o governo colombiano reconheceu o opositor Juan Guaidó como “presidente legítimo” da Venezuela. Guaidó tentou derrubar o regime de Maduro com apoio internacional, mas não conseguiu, e o fato é que o poder continuou na mão dos chavistas, portanto é com eles que precisariam ser definidas medidas práticas como questões de fronteira.

 O presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, durante entrevista coletiva no Palácio Miraflores, em Caracas, na segunda-feira (16) — Foto: Reuters/Leonardo Fernandez Viloria

Os dois países compartilham uma linha de mais de 2,2 mil quilômetros de fronteiras. Estima-se que mais de 2 milhões de venezuelanos buscaram refúgio no país vizinho nos últimos cinco anos.

Até o fechamento da passagem, milhares de venezuelanos e colombianos a atravessavam rotineiramente para atividades de natureza comercial, educacional e sanitária. Mas por serem bastante porosas, as fronteiras também favoreciam ações ilegais de narcotraficantes, contrabandistas e grupos guerrilheiros.

O presidente eleito Gustavo Petro afirmou que restabelecerá as relações com a Venezuela de Nicolás Maduro após três anos de ruptura e graves acusações trocadas entre Caracas e Bogotá.

 

Ideologia ou pragmatismo?

 

Petro, que assume a presidência em 7 de agosto, desperta temores entre muitos venezuelanos que o associam ao chavismo, embora o ex-guerrilheiro tenha mantido distância do governo de Maduro durante a campanha eleitoral, chegando a classificá-lo como "ditadura".

A Venezuela, que acusou frequentemente o atual presidente da Colômbia, Iván Duque, de planos de golpe de Estado e até de assassinato contra Maduro, felicitou em um comunicado a vitória do líder de esquerda e expressou "a mais firme vontade de trabalhar na construção de uma renovada etapa de relações integrais".

 

Caracas rompeu relações com Bogotá em 2019 depois que Duque reconheceu como presidente encarregado da Venezuela o líder opositor Juan Guaidó, que agora está em um limbo. Foi o pior momento entre esses países vizinhos, que sempre tiveram altos e baixos, especialmente nos últimos 20 anos com a entrada em cena de Hugo Chávez e Álvaro Uribe.

Não há consulados ou voos diretos e a fronteira permaneceu oficialmente fechada entre 2019 e outubro de 2021, o que colapsou o comércio bilateral.

"As relações diplomáticas não podem depender ou se concentrar no simples clientelismo ideológico", disse à AFP o historiador Ángel Lombardi, professor da Universidade de Zulia (LUZ), região fronteiriça com a Colômbia.

"Se prevalecer o bom senso, eles terão uma relação baseada no pragmatismo e no interesse comum."

 

"Novos tempos estão no horizonte", comemorou Maduro no Twitter.

 

"Muda radicalmente a relação com a Venezuela com o simples fato de que a oligarquia deixa de governar" na Colômbia, disse Diosdado Cabello, número dois do chavismo, em entrevista coletiva na segunda-feira.

Autor:

Fonte: g1.globo.com