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OS EMPECILHOS PARA O TÃO DESEJADO SUCESSO DE TÓQUIO 2020

04/05/2021 09h00
A Olimpíada pensada para ser um marco na história do Japão se transformou numa corrida de obstáculos para o país — mas ainda pode ter um final feliz
OS EMPECILHOS PARA O TÃO DESEJADO SUCESSO DE TÓQUIO 2020

Tóquio, 10 de outubro de 1964. O corredor Yoshinori Sakai, nascido em Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945, a mesma data do primeiro ataque nuclear da história, que matou cerca de 140 mil dos 350 mil habitantes da cidade, acende a pira olímpica, abrindo oficialmente a XVIII Olimpíada da Era Moderna. Rio de Janeiro, 21 de agosto de 2016. Na cerimônia de encerramento dos Jogos da XXXI Olimpíada, no Maracanã, chega a hora da passagem da bandeira olímpica para a próxima sede — Tóquio, a anfitriã do evento programado então para 2020. Depois de o telão exibir o personagem Super Mario, astro de um dos mais icônicos videogames do Japão, surge de repente no palco alguém usando na cabeça sua marca registrada: um boné vermelho. Era ninguém menos do que o então primeiro-ministro japonês, o conservador Shinzo Abe. Simbólicos, os dois episódios dão conta de traduzir o Japão de ambas as ocasiões. Renascido, literalmente, das cinzas provocadas pela Segunda Guerra Mundial, o país de 1964 apelava para a paz. Já o de 2016 se pretendia um sinônimo de tecnologia e modernidade.

Desde o show carioca do pretenso “Super Abe”, foram quatro anos de intensificação da estratégia nacional conhecida como “Cool Japan” (algo como “Japão legal”), resumida em um documento do Ministério da Economia, Comércio e Indústria concluído no começo de 2012. Nele, o país identificava o potencial de crescimento econômico baseado no poder dos produtos culturais japoneses e na imagem do arquipélago que eles disseminavam mundo afora. O evento de 1964 marcou a ascensão do país ao clube dos ricos com base na industrialização. O de 2020 era a oportunidade de marcar uma nova fase do Japão, já como economia pós-industrial. Sediar, pela segunda vez, o maior evento esportivo da Terra seria a chance também de acelerar o crescimento econômico.

Escorado na simpatia de seus animes, como são conhecidos os desenhos animados japoneses, o país passaria a reivindicar uma posição de centro cultural global, dialogando com o público mais jovem — o próprio Comitê Olímpico Internacional (COI) colaborou para isso, incluindo o surfe, o skate e a escalada no programa dos Jogos de Tóquio, em uma tentativa de rejuvenescer a audiência, deixando em segundo plano referências às antigas e milenares tradições do império nipônico. Ao mesmo tempo, planejava o reaquecimento da indústria do turismo, na esteira de uma imagem de nação hospitaleira — e na contramão da ideia corrente de uma sociedade introspectiva, com elevados índices de suicídios.

Sem a presença de turistas estrangeiros, Tóquio vai ter um evento com pouco lucro para o comércio local. Foto: Yusuke Harada / NurPhoto / AFP

O governo só não poderia imaginar que teria uma pandemia no meio do caminho. Com ela, e o consequente adiamento da Olimpíada, a realidade confrontou o “Super Abe” — e tudo que decorria da estratégia posta em movimento até então, transformando completamente o projeto de Jogos Olímpicos que os japoneses haviam se preparado para entregar a todos os continentes.

“Havia a possibilidade de os Jogos de 2020 evocarem sentimentos semelhantes aos de 1964, de esperança e de um mundo surpreso com o Japão”, afirmou Roy Tomizawa, jornalista americano, filho de japoneses, autor do livro 1964 — The greatest year in the history of Japan: how the Tokyo Olympics symbolized Japan’s miraculous rise from the ashes (em tradução livre, 1964 — O maior ano da história do Japão: como os Jogos de Tóquio simbolizaram a milagrosa ascensão japonesa vinda das cinzas). “Agora as próximas semanas serão desafiadoras. Se os organizadores forem capazes de criar uma operação em que os atletas consigam competir nas melhores condições, o mundo poderá ser novamente inspirado pela maneira como conseguiu se manter unido em um período desafiador para todos.”

A menos de 100 dias para a cerimônia de abertura — marcada para 23 de julho —, muitas dúvidas pairam no ar. No último dia 23, o governo japonês decretou o terceiro estado de emergência em Tóquio e outras três cidades para tentar conter o avanço da Covid-19. Há também certezas, algumas, bastante incômodas. Não haverá, por exemplo, público estrangeiro para ocupar a rede hoteleira, que estimava cerca de 600 mil visitantes ao país, os quais movimentariam perto de R$ 10 bilhões na capital e nos arredores.

A preocupação do Japão agora é mitigar perdas como essa. O desgaste do governo do premiê Yoshihide Suga — Shinzo Abe, que estava no cargo desde 2012, um recorde, considerando dias consecutivos, oficializou sua renúncia em setembro do ano passado, atribuindo a decisão a uma colite ulcerativa crônica — vem no rastro do agravamento da crise econômica, enquanto os números da Covid-19 seguem crescentes.

Se antes do surto epidêmico a Olimpíada de Tóquio era vista com potencial de nova virada histórica positiva para o país, o risco de um fracasso é tido como um poderoso elemento para tirar Suga de seu posto. “Em setembro haverá eleições gerais no Japão. Pode ser que o desenrolar dos Jogos traga alguns efeitos para a liderança do primeiro-ministro, dependendo do avanço ou não do coronavírus e da performance econômica do país”, atestou Alana Camoça, doutora em economia política internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Uma mensagem que pretendiam passar em 2020 e que ainda pode reverberar neste ano diz respeito a uma consciência ambiental e de sustentabilidade do Japão, em contraponto à controversa e milionária indústria pesqueira japonesa, que abastece as mesas chinesas de toneladas de barbatanas de tubarão todos os anos e ameaça extinguir espécies do animal. O Comitê Organizador apostou na realização de um evento sustentável, seja na escolha dos materiais utilizados na produção dos pódios e medalhas, seja no investimento em mobilidade com baixa emissão de carbono. Com a pauta ambiental em alta, de certa forma um reflexo da substituição de Donald Trump por Joe Biden na Presidência dos Estados Unidos, os Jogos poderão mostrar ao mundo um pouco mais da conhecida preocupação dos japoneses com o descarte de lixo — virou notícia no Brasil o hábito dos torcedores nipônicos de limpar as arquibancadas dos estádios depois dos jogos. “A pauta ambiental é um ativo do Japão nessa Olimpíada”, acredita Alexandre Ratsuo Uehara, coordenador acadêmico do Centro Brasileiro de Estudos sobre Negócios Internacionais & Diplomacia Corporativa (CBENI & DiC/ESPM). “Primeiro, o país teve seu crescimento econômico ainda com consequências ao meio ambiente. A partir dos anos 1970, ele começa a ter medidas ambientais mais claras. Hoje existe a preocupação em ter uma economia sustentável, com reciclagem muito intensa. As crianças recebem educação ambiental, e hoje isso é algo cultural.”

“A OLIMPÍADA DE 1964 FOI O SINAL DA RECUPERAÇÃO DO JAPÃO APÓS A SEGUNDA GUERRA. O PLANO INICIAL COM TÓQUIO 2020 ERA MARCAR UMA NOVA ERA DE CRESCIMENTO, MAS, COM A PANDEMIA, AS EXPECTATIVAS TIVERAM DE SER REVISADAS”

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Para além da imagem que tenta projetar de si no exterior, é preciso contextualizar os planos do Japão com a Olimpíada em termos internos.

A ideia de superioridade japonesa — historicamente tão forte e que serviu de base para o imperialismo que antecedeu à Segunda Guerra — sofreu abalos diante do avanço de novos protagonistas a seu redor. Nas últimas duas décadas, a China tomou do Japão o posto de segunda maior economia do mundo, abrindo uma vantagem que parece irreversível a curto e médio prazo. A Coreia do Sul cresceu no campo da tecnologia, e seus produtos culturais — especialmente no terreno da música e do audiovisual — passaram a disputar mercado com os japoneses no Ocidente e dentro do próprio Japão. Quando Abe dizia que, com ele no governo, o país estava “de volta”, era um sinal de reconhecimento que, em algum ponto da história, o antes poderoso Japão havia perdido características que sua população entendia como naturais a sua terra natal. “O povo japonês está perdendo um pouco o orgulho de ser japonês”, afirmou Kiyomi Nakamura, jornalista esportiva japonesa que há 20 anos é correspondente no Brasil dos canais Fuji e NHK. “Os Jogos seriam uma oportunidade de mostrar a força do país.”

Tarefa difícil. Atualmente, a Olimpíada é rejeitada pela maior parte da população japonesa. Uma pesquisa da agência de notícias Kyodo News realizada em janeiro apontou que 80% dos japoneses gostariam que os Jogos fossem adiados novamente ou cancelados. O prejuízo que a nação acumula desde o primeiro adiamento, em 2020, é um dos motivos apontados pelos entrevistados para seu mau humor com relação ao evento. Estima-se que a competição custará R$ 79 bilhões, o que inclui os gastos decorrentes da não realização em julho do ano passado e os cuidados sanitários adicionais resultantes da Covid-19.

Mesmo contra a opinião pública, os organizadores apostam que um triunfo do Japão na corrida de obstáculos que se tornou a Olimpíada deste ano representaria uma “medalha de ouro” para o país e uma janela de entretenimento para o mundo. Yukio Mishima (1925-1970), gigante da literatura japonesa, que escreveu artigos sobre o evento de 1964, observou que se podia sentir uma impressão de paz no planeta vendo os atletas se livrarem da rigidez da separação por delegações e se misturarem — alegres como crianças em um parque, seria possível dizer — na festa de encerramento das competições. A propósito, aqueles Jogos ficariam conhecidos como “a Olimpíada feliz”. Se Tóquio conseguir manter o mesmo clima sem agravar problemas sanitários, terá cumprido uma de suas grandes metas.

Autor: Bruno Marinho

Fonte: epoca.globo.com