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Índia se torna 3º país com mais mortos por Covid em meio a caos sanitário

03/05/2021 19h19
No ranking dos países mais afetados pela pandemia, os EUA seguem na primeira posição, com 577.045 óbitos
Índia se torna 3º país com mais mortos por Covid em meio a caos sanitário

BAURU, SP (FOLHAPRESS) - Depois de se tornar o primeiro país a registrar mais de 400 mil casos de Covid-19 em apenas um dia, a Índia ultrapassou o México e se tornou, nesta segunda-feira (3), o terceiro país com o maior número de mortos pelo coronavírus, atrás apenas dos Estados Unidos e do Brasil.

De acordo com dados compilados pela Universidade Johns Hopkins e pelo site Our World in Data, a Índia confirmou 3.417 óbitos neste domingo (2) e chegou à marca de 218.959 mortes –número oficial muito menor que o real, visto que o país de 1,4 bilhão de habitantes enfrenta não apenas um colapso no sistema de saúde mas também a subnotificação de casos e mortes.

No ranking dos países mais afetados pela pandemia, os EUA seguem na primeira posição, com 577.045 óbitos. O Brasil, com mais de 407 mil mortes, ocupa o segundo lugar, mas, dos três países, é o que tem a maior média móvel de mortes no cálculo proporcional à população. São 11,32 a cada milhão de habitantes, contra 2,47 da Índia e 2,06 dos EUA.

Para membros do Insacog, consórcio de cientistas criado pelo governo da Índia no final de dezembro para atuar como órgão consultivo, as autoridades ignoraram os conselhos da ciência, e o governo central, particularmente, não se preocupou em impor restrições para impedir a disseminação do coronavírus.

O Insacog reúne dez laboratórios indianos com capacidade para identificar e estudar variantes de vírus. Foram cientistas desse consórcio, por exemplo, que identificaram a cepa B.1.617, hoje dominante entre os casos de coronavírus na Índia. Ainda no início de março, o consórcio compartilhou suas descobertas com o Ministério da Saúde local e fez alertas de que as novas infecções poderiam disparar rapidamente em várias partes do país, segundo o que contaram seus membros à agência de notícias Reuters.

O ministério tornou as descobertas públicas em 24 de março, mas, em comunicado à mídia, disse que as variantes potencialmente mais perigosas exigiam apenas a adoção de medidas que já estavam em andamento, como o aumento de testes e a quarentena para os infectados. Nada se falou sobre a imposição de restrições mais duras para conter a propagação.

"A política deve ser baseada em evidências, e não o contrário", disse Shahid Jameel, presidente do Insacog.

"Estou preocupado que a ciência não tenha sido levada em consideração para conduzir as políticas. Mas sei onde minha jurisdição termina. Como cientistas, fornecemos evidências; a formulação de políticas é tarefa do governo."

Embora não seja possível afirmar que o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, tenha tido acesso direto aos alertas, é razoável esperar que, como chefe de Estado, ele tenha tomado conhecimento sobre o potencial danoso da terceira onda de coronavírus no país, maior e mais letal que as duas primeiras.

Modi, porém, afirmava há dois meses que a Covid estava prestes a ser vencida e que a população indiana poderia começar a voltar à vida normal. Ele mesmo protagonizou imensos comícios para alavancar seu partido e permitiu a festividade de Kumbh Mela, que atraiu milhões de hindus às águas do rio Ganges.

Ao discursar à nação pela TV no mês passado, Modi aconselhou a população a manter uma distância de dois metros e usar máscara, logo depois de participar de megaeventos políticos em Bengala Ocidental, onde saudou centenas de milhares de pessoas sem máscaras.

Mais tarde, em outro pronunciamento, o premiê se posicionou contra um novo fechamento da Índia como estratégia de contenção da pandemia. "Temos que salvar o país dos lockdowns. Peço aos estados que usem os lockdowns como última opção", disse Modi, em referência à autonomia que lideranças estaduais têm para conduzir a resposta à pandemia em seus territórios.

Pelo menos 11 estados e regiões ordenaram restrições ao movimento para conter as infecções, mas Modi resiste a anunciar um confinamento nacional devido ao impacto econômico que a medida causaria.

A tragédia vivida pelos indianos tem sido marcada pela falta de oxigênio nos escassos leitos de hospitais, pela cremação de mortos ao livre devido à falta de espaços mais apropriados e pela postura de países que fecharam as portas para os indianos por medo da propagação de variantes identificadas no país.

O cenário, no entanto, custou a Modi um revés político. Seu partido, o BJP, conquistou apenas 77 das 292 cadeiras parlamentares em Bengala Ocidental, onde o premiê concentrou seus comícios. A derrota no estado de 97 milhões de habitantes representa um obstáculo às ambições eleitorais de Modi e, segundo analistas, é o sinal de que seu domínio populista pode ser contido.

A confiança na forma como o governo está lidando com a crise despencou desde fevereiro, quando a crise sanitária voltou a se agravar, de acordo com uma pesquisa do YouGov. Em abril do ano passado, 89% dos entrevistados consideravam que o governo lidou "muito bem" ou "razoavelmente bem" com a pandemia de coronavírus. Um ano depois, os dados mais recentes mostram que esse número caiu para 59%.

"As pessoas provavelmente não esquecerão tão rapidamente da escassez de leitos hospitalares, de oxigênio e de vacinas", avalia o comentarista político Neerja Chowdhury. "Também é improvável que se esqueçam que a liderança central do BJP fez da vitória de Bengala sua batalha de vida ou morte, enquanto existe luta real entre vida e morte no país."

No estado de Assam, o BJP conseguiu se manter no poder. Em Tamil Nadu, o vencedor foi o DMK, principal partido de oposição regional a Modi. Em Kerala, o LDF, de esquerda, conquistou maioria, enquanto o BJP de Modi não garantiu nenhum assento. Em Puducherry, a NDA, aliança nacional liderada pelo BJP aparece à frente em todas as principais pesquisas de boca de urna.

Autor: FOLHAPRESS

Fonte: noticiasaominuto.com.br