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Fernández diz que brasileiro veio da selva e se desculpa

10/06/2021 09h29
Fernández diz que ‘brasileiros vieram da selva’, enquanto argentinos chegaram em barcos da Europa
Fernández diz que brasileiro veio da selva e se desculpa

O presidente argentino, Alberto Fernández, afirmou ontem, atribuindo a frase a um poeta, que “os brasileiros vieram da selva” enquanto os argentinos vieram em barcos, da Europa. Ele se desculpou.

O presidente argentino, Alberto Fernández, provocou ontem mal-estar diplomático ao declarar, durante encontro na Casa Rosada com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, que os “brasileiros vieram da selva”, enquanto os argentinos chegaram “de barcos vindos da Europa”.

Imediatamente após a gafe na Casa Rosada, o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, rebateu a declaração e escreveu em sua conta no Twitter: “Presidente da Argentina, Alberto Fernández, afirmou que, enquanto seu povo veio de barcos da Europa, brasileiros vieram da selva. Não dirão que foi racista contra indígenas e africanos que formaram o Brasil? Porém, afirmo: o barco que está afundando é o da Argentina.”

O incidente foi causado por uma confusão do presidente argentino. “Os mexicanos vieram dos índios, os brasileiros vieram da selva, mas nós, argentinos, viemos de barcos. Barcos que vinham da Europa, e assim construímos nossa sociedade. O meu Fernández é uma prova disso”, declarou durante encontro com o chefe de governo espanhol.

O presidente argentino creditou sua inspiração a uma frase erroneamente atribuída ao diplomata mexicano e Nobel da Paz Octavio Paz, que teria dito que “os mexicanos são descendentes de astecas, os peruanos, dos incas e os argentinos, dos barcos”. Meios de comunicação locais, no entanto, identificaram que o trecho vem de uma música chamada Llegamos de los Barcos, do cantor argentino Litto Nebbia, que diz exatamente as mesmas palavras.

Mais tarde, diante da repercussão negativa, Fernández tentou contornar o mal-estar. “Afirmou-se mais de uma vez que os argentinos descendem de navios. Na primeira metade do século 20, recebemos mais de 5 milhões de imigrantes que viviam com nossos povos nativos. Nossa diversidade é um orgulho”, escreveu o presidente argentino no Twitter. “Eu não quis ofender ninguém. Em todo caso, peço desde já desculpas a quem se sentiu ofendido.”

A gafe, no entanto, virou o prato do dia para a oposição argentina. O deputado Facundo Suárez Lastra afirmou ontem que “sempre há um degrau a mais para que o presidente desça na escada do ridículo e da vergonha”. “Ofende países irmãos e aparece como um ignorante. Nem professor, nem acadêmico.”

O incidente também não passou despercebido no Twitter, onde as hashtags “Alberto”, “Octavio Paz”, “vergonha nacional” e “Litto Nebbia” se tornaram tendência. “Pobre Octavio Paz. Ele não tem culpa”, escreveu Pablo Avelluto, que foi ministro de Cultura durante o governo de Mauricio Macri (20152019).

Embora grande parte da população argentina seja composta por descendentes de imigrantes, muitos deles vindos da Europa, nos séculos 19 e 20, o país tem uma importante herança indígena, que mescla as culturas inca, mapuche e patagônica, entre outras etnias. O país também contou com mão de obra africana durante seu período colonial.

Na segunda metade do século 19, a Campanha do Deserto (1878-1885), liderada pelo general Julio Argentino Roca, conquistou as estepes do sul do país, povoadas por povos originários. A maioria deles foi aculturada, morta ou submetida a trabalhos forçados. Muitos dos escravos negros argentinos também morreram durante a Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870.

Vínculos. Quando citou a letra da música, Fernández falava sobre as relações entre seu país e a Europa, dizendo ser um “europeísta” e elogiando a aproximação com empresários europeus. O presidente argentino e o premiê espanhol destacaram ontem a importância de União Europeia e Mercosul chegarem a um entendimento sobre o acordo comercial – ainda pendente de validação. “Os vínculos entre a América Latina e a UE são fundamentais”, afirmou Sánchez.

O espanhol apontou questões ambientais e o combate à pandemia de covid-19 como prioridades. “Entendemos as objeções que os governos podem ter, mas acreditamos que podemos aumentar o desenvolvimento de nossos países, criando uma área comercial única no mundo”, declarou.

Outro tema abordado durante o encontro foi a vacinação. Sánchez destacou que o país doará de mais de 20 milhões de vacinas em 2021, “especialmente para a América Latina, que necessita de solidariedade por estar sendo mais golpeada” pelo vírus. Os dois líderes reforçaram que os imunizantes devem ser um “bem público global”, e é necessário aumentar sua distribuição.

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Fonte: pressreader.com/O Estado de S. Paulo