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Em desgraça, centro-direita do Chile vê seu eleitorado minguar e abraçar candidato radical

14/10/2021 16h03
Acusações contra o presidente Sebastián Piñera, incluindo processo de impeachment, minam cacife eleitoral de candidato à Presidência do seu campo político
Em desgraça, centro-direita do Chile vê seu eleitorado minguar e abraçar candidato radical

A centro-direita do Chile nunca recuperou sua força desde que viu sua popularidade evaporar na rebarba de protestos sociais há dois anos, e a crise vem piorando. A menos de 40 dias das eleições presidenciais de 21 de novembro, os partidos da coalizão Chile Vamos do presidente Sebastián Piñera estão fracos e isolados, atrás de adversários à esquerda e à direita na pesquisas.

Nesta quarta-feira, deputados da oposição abriram um processo de impeachment contra Piñera. A iniciativa se segue à abertura de uma investigação do Ministério Público, na semana passada, sobre um possível crime de suborno cometido pelo presidente na compra e venda de uma mineradora, após revelações dos Pandora Papers. Se a acusação for endossada nas duas Câmaras — por maioria simples na Câmara dos Deputados e dois terços no Senado — o presidente será forçado a deixar o cargo e ficará inelegível por cinco anos.

Já a campanha do candidato governista, Sebastián Sichel, egresso da democracia cristã e hoje sem partido, enfrenta um terremoto. Na terça-feira, os canais CHV e CNN Chile apresentaram denúncias sobre supostas irregularidades no financiamento de sua campanha para deputado em 2009. Um dos envolvidos nas denúncias era Cristóbal Acevedo, seu coordenador de campanha. Diante das denúncias, Acevedo pediu desligamento do cargo ontem.

Pessimismo eleitoral

Asssim, caem ainda mais as chances de Sichel avançar ao segundo turno. Segundo a última pesquisa Criteria, da semana passada, o candidato da esquerda Gabriel Boric está em primeiro, com 26% das intenções. Em segundo está o candidato da direita radical José Antonio Kast, que tem atraído eleitores da direita tradicional, e marcou 17%. Sichel está em terceiro, com 15%. A direita democrática chilena enfrenta “uma crise muito séria”, disse ao GLOBO a cientista política Julieta Suárez Cao, da Universidade Católica do Chile:

— Estão em seu pior momento, mas sempre parece que pode piorar ainda mais — disse Suárez Cao. — Os Pandora Papers são um tiro de misericórdia na reputação de Piñera, que terminará seu mandato com essa acusação.

O processo envolve a venda da mineradora Dominga por Piñera a um de seus melhores amigos por meio de uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas em 2010, nove meses antes de começar o seu primeiro mandato. O pagamento da terceira parcela da transação esteve sujeito à não declaração da área de operações como reserva ambiental, decisão que ficou nas mãos de Piñera quando era presidente.

A despeito de méritos inegáveis na campanha de vacinação contra o coronavírus — o país foi o que vacinou mais rápido na América Latina, e atualmente cerca de 75% dos chilenos já tomaram duas doses — a popularidade de Piñera já estava no chão antes das denúncias, com cerca de 20% de aprovação e 70% de rejeição.

Em 2019, Piñera já enfrentou um processo de impeachment, barrado por sua coalizão. De lá para cá, no entanto, seu bloco tem se tornado crescentemente indisciplinado. Com isso, segundo Suárez Cao, não é impossível que o novo processo avance:

— Não há mais disciplina partidária. Vários deputados estão em campanha para a reeleição, e é possível que votem a favor da acusação. É necessário ver quais cálculos políticos serão feitos, mas [um impeachment] já não parece tão improvável — disse a cientista política.

Já a campanha de Sichel enfrenta problemas múltiplos. Segundo Stéphanie Alenda, socióloga da Universidade Andrés Bello, o candidato cometeu erros na campanha, como ter atacado o opositor Boric por não ser pai, o que não repercutiu bem. Além disso, o independente, vencedor das primárias da centro-direita, “demorou a vincular-se aos partidos políticos e criou tensões com a elite, o que fez com que se isolasse muito”.

Para Alenda, um fator de identidade da direita também pesa. Diante de uma provável vitória da esquerda nas eleições — na maioria das pesquisas, Boric tem mais de 60% dos votos no segundo turno — muitos eleitores rejeitaram alguém com um passado no centro democrata cristão. Esses eleitores apostam que, “se é para a direita perder, então que seja para um dos seus”.

— O fato de Kast ser de uma linha muito clara lhe traz certo prestígio. Fortaleceu-o também um clima de desordem, a percepção de que o Estado de direito não está operando bem — disse Alenda, destacando ser improvável a sua vitória.

Reação da direita

Diante da perda de prestígio e das acusações judiciais, o bloco reage. Ontem, Sichel disse que nunca soube da origem das contribuições, e acusou a democracia cristã de ser a responsável pela arrecadação de dinheiro. Também se disse vítima de difamação:

— Este é mais um capítulo de uma operação política destinada a me desprestigiar.

Já representantes de Piñera acusaram o processo de impeachment de golpista.

— Estamos diante de um golpe branco. É óbvio que querem modificar os resultados das eleições democráticas e não querem uma transferência de comando democrática e republicana, como apropriado, em 11 de março [de 2022] — disse o porta-voz do governo, Jaime Bellolio.

Piñera também tem buscado dar sinais para o eleitorado mais conservador. Anteontem, o presidente decretou estado de exceção por 15 dias, prorrogáveis por mais 15, em regiões no Sul do país onde há conflitos agrários ligados a terras ancestrais mapuche. Embora de fato haja conflitos violentos na região entre indígenas e fazendeiros, o momento da decisão indica uma motivação eleitoral:

— Seria ingênuo não relacionar o estado de exceção à campanha presidencial. É uma forma de responder a uma demanda forte da direita mais dura, de tentar recuperar eleitores — disse Suárez Cao.

Autor: André Duchiade

Fonte: oglobo.globo.com