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Teste de míssil hipersônico chinês assusta os EUA

18/10/2021 17h36
Ensaio mostrou que experimentos chineses estão muito mais avançados do que americanos sabiam
Teste de míssil hipersônico chinês assusta os EUA

washington e taipei | financial times A China testou em agosto um míssil hipersônico de capacidade nuclear que circulou a Terra antes de acelerar em direção a seu alvo, demonstrando uma capacidade militar avançada que pegou de surpresa a inteligência dos Estados Unidos.

Cinco pessoas com conhecimento do teste disseram que os militares chineses lançaram um foguete que carregou um veículo planador hipersônico que voou em órbita baixa antes de seguir em direção a seu alvo.

O míssil errou a meta em cerca de 38 quilômetros, de acordo com três pessoas informadas sobre o ensaio, mas duas delas disseram que, ainda assim, o experimento demonstrou que a China fez um progresso surpreendente em armas hipersônicas e está muito mais avançada do que os americanos sabiam.

O teste também levantou novas questões sobre por que os EUA frequentemente subestimam a modernização militar da China. “Não temos ideia de como eles fizeram isso”, disse uma quarta fonte.

Os Estados Unidos, a Rússia e a China estão desenvolvendo armas hipersônicas, incluindo veículos planadores lançados ao espaço em um foguete, mas que orbitam a Terra com seu próprio impulso. Eles voam a cinco vezes a velocidade do som, menos que um míssil balístico, mas não seguem a trajetória parabólica fixa desses projéteis e são manobráveis, o que os torna mais difíceis de rastrear.

Taylor Fravel, especialista em política de armas nucleares chinesas que não sabia do teste, disse que um veículo planador hipersônico com uma ogiva nuclear poderia ajudar a China a “neutralizar” os sistemas de defesa antimísseis dos EUA, projetados para destruir mísseis balísticos.

Fravel acrescentou que seria “desestabilizador” se a China desenvolver e implantar totalmente essa arma, mas advertiu que um teste não significa necessariamente que Pequim usaria o equipamento.

A preocupação crescente sobre as capacidades nucleares da China surge à medida que Pequim continua aumentando suas forças militares convencionais e se engajando em atividades militares cada vez mais assertivas perto de Taiwan. As tensões entre os EUA e a China aumentaram conforme o governo de Joe Biden adotou uma postura dura com Pequim, que acusou Washington de ser abertamente hostil.

Oficiais militares dos EUA alertaram nos últimos meses sobre a crescente capacidade nuclear da China, especialmente após a divulgação de imagens de satélite que mostraram a construção de mais de 200 silos de mísseis balísticos intercontinentais (ICBM). A China não está vinculada a acordos de controle de armas e não se dispôs a envolver os EUA em negociações sobre seu arsenal e sua política nucleares.

No mês passado, Frank Kendall, secretário da Força Aérea dos EUA, deu a entender que Pequim estava desenvolvendo uma nova arma. Ele disse que a China fez enormes avanços, incluindo com “potencial para ataques globais do espaço”.

Ele não quis dar detalhes, mas sugeriu que o país asiático estava desenvolvendo algo semelhante ao “Sistema de Bombardeio Orbital Fracionário” que a União Soviética implantou durante parte da Guerra Fria, antes de abandoná-lo.

Em agosto, o general Glen VanHerck, chefe do Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte (Norad), disse em uma conferência que a China havia “demonstrado recentemente capacidades muito avançadas de veículos planadores hipersônicos”. Ele alertou que a capacidade chinesa “ofereceria desafios importantes à capacidade do Norad de fornecer alertas de ameaças e avaliações de ataques”.

Duas pessoas familiarizadas com o teste chinês disseram que a arma poderia, na teoria, sobrevoar o Polo Sul, o que representaria um grande desafio para os militares americanos, porque seus sistemas de defesa antimísseis estão focados na rota polar norte.

A revelação ocorre no momento em que o governo Biden faz a Revisão da Postura Nuclear, uma análise da política e das capacidades ordenada pelo Congresso que opôs defensores do controle de armas àqueles que afirmam acreditar que os EUA devem agir mais para modernizar seu arsenal nuclear devido à China.

O Pentágono não comentou o relatório, mas manifestou preocupação. “Deixamos claro nossas preocupações sobre as capacidades militares que a China continua perseguindo, capacidades que só aumentam as tensões na região e além dela”, disse o porta-voz John Kirby. “Essa é uma das razões pelas quais consideramos a China nosso principal desafio em curso.”

A embaixada chinesa não quis comentar o teste, mas o porta-voz Liu Pengyu disse que a China sempre seguiu uma política militar de “natureza defensiva” e que seu desenvolvimento militar não tem como alvo nenhum país.

“Em contraste, os EUA nos últimos anos inventaram desculpas como ‘a ameaça chinesa’ para justificar sua expansão bélica e o desenvolvimento de armas hipersônicas. Isso intensificou diretamente a corrida armamentista nesta categoria e minou gravemente a estabilidade estratégica global.”

Um oficial de segurança nacional asiático disse que os militares chineses efetuaram o teste em agosto. A China geralmente anuncia o lançamento de foguetes Longa Marcha —do tipo usado para lançar o veículo planador hipersônico em órbita—, mas ocultou visivelmente esse lançamento.

O oficial de segurança e outro especialista em segurança chinês próximo do Exército Popular de Libertação disseram que a arma foi desenvolvida pela Academia Chinesa de Aerodinâmica Aeroespacial (CAAA), um instituto de pesquisa da Corporação Chinesa de Tecnologia e Ciência Aeroespacial, principal empresa estatal que fabrica sistemas de mísseis e foguetes para o programa espacial chinês.

A Academia Chinesa de Tecnologia de Veículos de Lançamento, que supervisiona os lançamentos, disse em 19 de julho em uma conta oficial em rede social que havia lançado um foguete Longa Marcha 2C e acrescentou que foi o

77º lançamento desse foguete. Em 24 de agosto, anunciou que havia realizado o 79º voo. Mas não houve anúncio de um 78º lançamento, o que gerou especulações entre os observadores de seu programa espacial sobre um lançamento secreto. A CAAA não respondeu a pedidos de comentários da reportagem.

Autor: Demetri Sevastopulo e Kathrin Hille Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

Fonte: pressreader.com/Folha de S.Paulo