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Radicalização de discurso na ONU foi decisão de Bolsonaro e do filho Eduardo

21/09/2021 17h32
Presidente optou, pessoalmente, por falar de tratamento precoce, afirmam integrantes da comitiva em Nova York
Radicalização de discurso na ONU foi decisão de Bolsonaro e do filho Eduardo

BRASÍLIA — A radicalização do discurso de Jair Bolsonaro, nesta terça-feira, na abertura da Assembleia Geral da ONU, foi decisão pessoal do presidente, influenciado pelo filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).  Integrantes da comitiva presidencial em Nova York indicam que embora "90% do texto lido por Bolsonaro nas Nações Unidas sejam baseados na minuta elaborada pelo Itamaraty", os trechos mais polêmicos foram acrescentados na versão final

Segundo estas fontes, que falaram sob sigilo, Bolsonaro não aceitou negociar a retirada do trecho em que defende o tratamento precoce. Defensor da cloroquina, o presidente estava convicto de que precisava falar disso na ONU. Já a Eduardo Bolsonaro são creditados os termos mais conservadores, como a menção a Deus e à "iminente ameaça"socialista no Brasil antes do atual governo.

Para o grupo mais ideológico do governo, o "ponto alto"do discurso de Bolsonaro foi o fato de ele ter se posicionado contra o passaporte sanitário. Mais que isso: muitos acreditam que de fato ele enfrentou o passaporte, ao andar por Nova York sem vacina.

Na proposta original do discurso, elaborado pelo Itamaraty, havia "um espelho" do discurso de posse do ministro Carlos Alberto França, quando assumiu o Ministério das Relações Exteriores, há poucos meses. A proposta abordava o chamado tripé da política externa: diplomacia da vacina, retomada econômica e preservação ambiental.

Fontes afirmam que Bolsonaro decidiu, pessoalmente, cortar esta parte. O presidente também cortou vários pontos do discurso, como por exemplo o trecho que tratava do acordo com o Reino Unido para transferência de tecnologia da vacina da Universidade de Oxford/AstraZeneca e a promessa de doação de imunizantes para países vizinhos do Brasil.

Segundo uma fonte, a promessa foi deixada de lado porque "o presidente não gosta de prometer e depois não cumprir. Quer esperar primeiro ter as vacinas para depois anunciar as doações".

Para muitos integrantes do governo, França falhou ao não conter o discurso de Bolsonaro. Embora tenha sido menos estridente que os da gestão do chanceler anterior, Ernesto Araújo, a fala na ONU "anulou" eventuais ganhos com a carta moderada que o presidente assinou depois dos atos antidemocráticos do 7 de Setembro, elaborada em parceria com o ex-presidente Michel Temer. 

Interlocutores do presidente não sabem, ainda, qual a razão de Bolsonaro não ter citado os militares em seu discurso, como aparecia na versão distribuída por escrito. Na versão, divulgada pelo Planalto, os fardados são equiparados à Constituição. Ao falar, contudo, Bolsonaro cortou essa parte.

Autor: Jussara Soares

Fonte: oglobo.globo.com