Geral

PT não pode tratar evangélicos como gado, afirma Lula

01/12/2021 08h15
Ex-presidente teve encontro com base religiosa do partido no sábado (27)
PT não pode tratar evangélicos como gado, afirma Lula

são paulo O PT “não pode acreditar na história de que os evangélicos e as evangélicas são como se fossem um gado” e deve lembrar o segmento de que a maioria dos fiéis, pobre e periférica, foi beneficiada por políticas públicas dos governos petistas.

As palavras são do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que antecipou neste sábado (27) a estratégia que deve usar para recuperar um bloco eleitoral que já lhe foi fiel.

Em encontro virtual, ele propôs a criação de “um momento evangélico” na TV e na rádio do partido, como forma de reverter a falsa premissa de que o verdadeiro cristão não vota na esquerda, martelada por megapastores hoje alinhados a Jair Bolsonaro.

É um argumento muito usado por pastores com linha direta no Palácio do Planalto capitaneados por Silas Malafaia. Hoje, nenhum líder de uma igreja grande está ao lado de Lula. A bola era mais dividida antes —o próprio Malafaia, que o apoiou em 1989 e 2002, é exemplo disso.

O bispo Edir Macedo é outro termômetro para o debate eleitoral no campo religioso.

Raramente visto em eventos fora de sua igreja, vem usando a Folha Universal para expressar predileções ideológicas. E elas não são boa notícia para petistas que querem reaproximação com ele, ex-parceiro dos governos Lula e Dilma.

Segundo Lula, é importante oferecer uma contranarrativa “porque há muito fetiche, há muita queimação, há muita maldade, contra e a favor, há muito disse-que-disse”.

Em 2002, o PT distribuiu a Carta aos Evangélicos na porta de igrejas. Lá, o então presidenciável dizia ter “esperança cristã” e fazia vários acenos a adeptos dessa religião, que por anos escutaram pregações que o comparavam a um demônio que fecharia igrejas se assumisse o poder. Deu certo em parte. Em

2006, estima-se que Lula teve a maioria dos votos evangélicos no segundo turno, contra o tucano Geraldo Alckmin. Transferiu a Dilma Rousseff, sua sucessora, alianças que solidificou com megapastores ao longo de dois mandatos. Edir Macedo foi um deles.

Mas em 2018 a maioria do segmento —da base à cúpula pastoral— preferiu Bolsonaro ao petista Fernando Haddad. Sete em cada dez eleitores evangélicos votaram no católico que soube se firmar como preferido dos pastores, segundo projeção do Datafolha.

Na reunião de sábado, todos os convidados na sala virtual já eram simpáticos ao PT.

Evangélicos progressistas acertam quando repelem a noção de um bloco monolítico de fé, como se todo fiel seguisse cegamente o que Malafaia, Macedo e companhia dizem.

O meio é plural e horizontalizado, e é pelas veias abertas das pequenas igrejas, sobretudo nas periferias, que a mensagem evangelizadora corre com mais pulsão.

Mas pastores com projeção nacional, donos de horários em TV e catapultados pelas redes sociais, muitas vezes servem de bússola para peixes menores no meio.

Confortável como porta-voz do grupo, Malafaia se tornou uma das faces mais conhecidas para os seculares (como evangélicos se referem a quem é de fora da crença deles).

Não está só. Nomes como André Valadão (Igreja Batista da Lagoinha), popular entre jovens e muito presente nas redes sociais, ajudam a disseminar o bolsonarismo.

Fato é que a força dos pastores que se assumem de esquerda é reduzida, e Lula ainda precisa furar a bolha se quiser ganhar espaço nas igrejas.

Para tanto, sua campanha não descarta diminuir os decibéis para pautas identitárias e focar a economia.

Lula discursou ao lado da líder nacional do PT, Gleisi Hoffmann, e da deputada Benedita da Silva, principal quadro evangélico do partido.

O tom afável monopolizou, como na fala do pastor Ariovaldo Ramos, do evangelismo progressista: “O medo do futuro transforma nosso dia a dia no soluçar de dor, [...] a extrema direita zombou do nosso Deus. Mentiram descaradamente, dividiram a gente”.

Autor: Anna Virginia Balloussier

Fonte: pressreader.com/Folha de S.Paulo