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Prevent Senior se diz vítima de armação e pede apuração da PGR

22/09/2021 08h30
Empresa apela à PGR e afirma que papéis obtidos pela CPI foram manipulados
Prevent Senior se diz vítima de armação e pede apuração da PGR

A Prevent Senior recorreu à PGR sob a alegação de que documentos em poder da CPI da Covid “foram visualmente manipulados”. Dossiê acusa a empresa de omitir 7 mortes de pessoas tratadas com hidroxicloroquina.

brasília A PGR (Procuradoria Geral da República) analisa o pedido da Prevent Senior para que se apure a responsabilidade por denúncias feitas contra a empresa.

Advogados da operadora de saúde recorreram ao órgão nesta segunda (20) sob a alegação de que documentos em poder da CPI da Covid “foram visualmente manipulados e utilizados fora de contexto” com o intuito de colocá-la no foco da comissão parlamentar de inquérito do Senado e de outros órgãos de investigação.

No pedido, de 18 páginas e endereçado ao procuradorgeral da República, Augusto Aras, a empresa rebateu as acusações publicadas contra ela nos últimos dias e afirma que serão desmentidas no depoimento que seu diretor-executivo deverá prestar à CPI.

A defesa da Prevent afirmou serem infundadas as denúncias de prescrição indiscriminada de cloroquina, azitromicina e ivermectina para pacientes associados e até mesmo para quem não tinha sintomas da Covid-19.

“Há considerável possibilidade de que as ações praticadas pelos denunciantes se amoldem em tipos penais previstos no ordenamento brasileiro”, dizem os advogados.

Citando trecho do Código Penal que define o crime de denunciação caluniosa, eles afirmaram que se faz “necessária a instauração de procedimento para melhor esclarecimento dos fatos”.

A norma afirma que é crime dar causa à instauração de investigação policial, de processo judicial, instauração de investigação administrativa, inquérito civil ou ação de improbidade administrativa contra alguém, imputando-lhe crime de que o sabe inocente.

A empresa disse que essas denúncias deram início a apurações em variadas instâncias, incluindo a Promotoria de Justiça de Saúde Pública do Ministério Público de São Paulo e o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa da Polícia Civil paulista.

Dossiê de posse da CPI da Covid afirma que a Prevent Senior usou pacientes como cobaias em uma pesquisa com remédios do chamado “kit Covid”. Segundo o documento, a empresa omitiu sete mortes de pessoas tratadas com a hidroxicloroquina.

O material é assinado por 15 médicos da operadora de planos de saúde. De acordo com os profissionais, hidroxicloroquina foi administrada sem avisar pacientes ou seus parentes. O estudo foi realizado em São Paulo.

Segundo o documento, medicamentos sem comprovação científica foram incorporados ao experimento, na medida em que resultados não eram atingidos. Teria sido usado contra Covid até remédio para câncer.

O conteúdo do dossiê foi divulgado na quinta-feira passada (16) pela Globonews. A Folha confirmou o material e teve acesso a uma análise do documento feita pela CPI da Covid no Senado.

A empresa está na mira dos senadores. O diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, era esperado na comissão para depor, faltou e disse que foi avisado tardiamente do compromisso. Os senadores insistem no depoimento, que foi remarcado para quarta-feira (22).

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) — entusiasta de remédio sem eficácia contra a Covid — chegou a divulgar o estudo da Prevent Senior em redes sociais, em 18 de abril de 2020, antes mesmo da publicação oficial de resultados.

Bolsonaro citou a pesquisa como um caso de sucesso. Ele disse que o estudo apontara que nenhum dos participantes que tomaram hidroxicloroquina havia morrido, enquanto o número de óbitos no grupo que não havia tomado foi de cinco pessoas.

A informação divergia do estudo original, que registrara dois mortos. Mesmo essa versão, contudo, continha subnotificação de óbitos, segundo o dossiê que foi entregue aos senadores.

De acordo com uma planilha obtida pela Globonews, nove pacientes que participaram do estudo morreram — seis deles tomaram hidroxicloroquina. Ou seja, ao todo, sete mortes foram ocultadas pela Prevent Senior.

Os médicos relataram ainda a falta de autorização para determinados procedimentos e falhas éticas. O estudo teria sido feito com mais de 700 pacientes, sem a submissão necessária à Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa).

O projeto inicial tinha autorização para trabalhar com 200 pessoas. O estudo com hidroxicloroquina da Prevent Senior chegou a ser suspenso por indícios de irregularidades, mas mesmo assim a empresa teria seguido medicando clientes.

Autor: Marcelo Rocha

Fonte: pressreader.com/Folha de S.Paulo