Geral

Líder de milícia de extrema direita é preso sob primeira acusação de sedição por invasão do Capitólio

14/01/2022 08h32
Fundador dos Oath Keepers, Stewart Rhodes, e outras 10 pessoas são suspeitas de conspirar para evitar a certificação da vitória de Joe Biden à Presidência
Líder de milícia de extrema direita é preso sob primeira acusação de sedição por invasão do Capitólio

NOVA YORK — Stewart Rhodes, líder e fundador da milícia de extrema direita Oath Keepers, foi preso nesta quinta-feira e acusado, juntamente com outras dez pessoas, de conspiração sediciosa por organizar um plano abrangente para invadir o Capitólio em 6 de janeiro de 2021 e interromper a certificação da vitória de Joe Biden nas eleições à Presidência, informou o Departamento de Justiça. Além de Rhodes, Edward Vallejo, de Phoenix (Arizona), também foi preso e acusado pela primeira vez no caso. Os outros nove já enfrentavam outras acusações criminais. O indiciamento por sedição é o mais grave apresentado contra participantes da invasão ao Capitólio. Se forem considerados culpados, poderão ser condenados a até 20 anos de prisão.

A prisão de Rhodes foi um grande avanço na extensa investigação do ataque ao Capitólio. O caso marcou a primeira vez que os promotores apresentaram acusações de sedição.

Rhodes, ex-paraquedista do Exército que se formou em Direito em Yale, está sob investigação por seu papel no motim desde ao menos meados do ano passado, quando, contra o conselho de seu advogado, reuniu-se com agentes do FBI para um depoimento no Texas. Ele estava na região do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, comunicando-se por celular e um aplicativo de bate-papo com membros de sua equipe, muitos dos quais entraram no prédio. Mas não há evidências de que ele tenha entrado na sede do Congresso americano.

Os Oath Keepers, juntamente com os Proud Boys, emergiram como os extremistas de direita mais proeminentes envolvidos no ataque ao Capitólio. Os promotores coletaram caixas de provas contra eles, incluindo bate-papos criptografados por celular e gravações de reuniões on-line. Eles acusaram seus integrantes de não apenas forçar a entrada no prédio, como também de posicionar uma “força de reação rápida” armada em um hotel na Virgínia para estar pronta para correr para Washington, se necessário.

Em entrevista ao The New York Times ano passado, Rhodes expressou frustração porque vários membros de seu grupo “saíram da missão” ao entrar no Capitólio em 6 de janeiro, acrescentando rapidamente: “Não houve nenhuma instrução minha ou da liderança para que fizessem isso."

No entanto, pelo menos quatro Oath Keepers que estavam no Capitólio naquele dia e que estão cooperando com o governo atestaram, em documentos judiciais, que o grupo pretendia invadir o prédio para obstruir a certificação final do voto do Colégio Eleitoral.

Rhodes também atraiu a atenção da comissão especial da Câmara que investiga o dia 6 de janeiro, que o intimou em novembro. Na época, os investigadores da Câmara registraram, em carta, que Rhodes havia participado de vários eventos destinados a questionar a integridade das eleições presidenciais de 2020.

Segundo o documento, no dia da eleição (7 de novembro de 2020), Rhodes disse que uma contagem “honesta” dos votos só poderia resultar em uma vitória para Trump. Ele também pediu aos membros de seu grupo que estocassem munição e se preparassem para uma “guerra total nas ruas”.

Uma semana antes da eleição, Rhodes disse ao teórico da conspiração Alex Jones que tinha homens perto de Washington preparados para agir sob o comando de Trump. Na mesma época, dizem os promotores federais, ele instou seus companheiros da Oath Keepers, em uma reunião on-line, a apoiar Trump, chamando-o de “presidente devidamente eleito” e acrescentando: “Você pode chamar de insurreição ou pode chamar de guerra ou lutar.”

A incitação continuou, dizem os promotores, quando Rhodes apareceu em um comício pró-Trump em Washington, em 12 de dezembro de 2020, e pediu ao então presidente que invocasse a Lei da Insurreição, sugerindo que deixar de fazê-lo resultaria em uma “guerra muito mais sangrenta”. Rhodes reconheceu em uma entrevista na televisão que ele e membros de seu grupo estavam no comício para fornecer segurança para palestrantes famosos juntamente com outra organização paramilitar sombria, a Primeira Emenda Pretoriana.

Em 4 de janeiro, apenas dois dias antes da tomada do Capitólio, Rhodes postou um artigo no site Oath Keepers pedindo a "todos os patriotas" que "apoiem a luta do presidente Trump para derrotar os inimigos estrangeiros e domésticos que tentam um golpe”.

Com seu típico tapa-olho preto — resultado de um acidente com arma —, Rhodes tem sido uma figura representativa da extrema direita quase desde o dia que anunciou a criação dos Oath Keepers, em 2009, durante um comício em Lexington, Massachusetts.

No evento, Rhodes apresentou uma plataforma antigovernamental para os atuais e ex-policiais e militares que se juntaram ao grupo. Ele lhes disse que seu plano era que os membros desobedecessem a certas ordens de autoridades e, em vez disso, cumprissem seu juramento à Constituição.

Durante os anos em que o presidente Barack Obama esteve no cargo, os Oath Keepers participaram repetidamente de conflitos em espaços públicos, muitas vezes desempenhando o papel de vigilantes fortemente armados.

Em 2014, por exemplo, eles apareceram em uma fazenda em Nevada depois que seu proprietário, Cliven Bundy, envolveu-se em um confronto armado com autoridades federais. Nesse mesmo ano, membros do grupo foram para Ferguson, Missouri, em uma missão autodesignada para proteger as empresas locais de distúrbios provocados pela morte de Michael Brown, um homem negro que fora baleado pela polícia.

Mas depois de Trump chegar ao poder, Rhodes e os Oath Keepers se distanciaram de sua visão antigoverno e pareceram adotar o novo espírito do nacionalismo e as suspeitas de que uma conspiração do "estado profundo" havia se enraizado em Washington. Assim como outros grupos de extrema direita como os Proud Boys, os Oath Keepers também se opõem — até fisicamente — aos protestos do Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que surgiram após o assassinato de George Floyd pela polícia em Minneapolis.

No fim de março de 2020, Rhodes reconheceu publicamente que o FBI estava em seu encalço, declarando que o Departamento de Justiça havia adotado uma "campanha persecutória" contra o grupo.

“Posso ir para a prisão em breve, não por algo que realmente tenha feito, mas por crime inventados", disse.

Autor: Alan Feuer e Adam Goldman, do New York Times

Fonte: oglobo.globo.com