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Laudo não vê indício de facadas em mortos no RJ

25/11/2021 08h36
Documento mostra que operação em São Gonçalo foi motivada por morte de policial; moradores falaram em tortura
Laudo não vê indício de facadas em mortos no RJ

Laudos da Polícia Civil do RJ concluíram que as nove mortes que ocorreram no Complexo do Salgueiro após operação policial no fim de semana foram causadas por disparos de arma de fogo. Segundo a necropsia, não há indícios de facadas.

rio de janeiro Laudos da Polícia Civil do Rio de Janeiro concluíram que as nove mortes que ocorreram no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, após operação policial no último fim de semana, foram causadas por disparos de arma de fogo.

De acordo com a necropsia, não há indícios de facadas ou de ferimentos gerados por outro tipo de arma de ação cortante ou perfurocortante. Familiares e moradores da comunidade afirmaram que os corpos tinham marcas de tortura e de facadas.

Projéteis arrecadados em três corpos passarão por confronto balístico. As armas dos policiais militares que participaram da ação e a lista dos nomes dos agentes devem ser entregues ainda nesta quarta-feira (24) à Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Maricá e Itaboraí, que investiga o caso.

Em nota, a polícia do Rio de Janeiro afirmou que testemunhas estão sendo ouvidas e que outras diligências estão sendo realizadas para esclarecer os fatos.

Segundo o jornal O Globo, a íntegra dos laudos mostra que os mortos foram atingidos por balas de fuzil na cabeça e no tórax, somando um total de 42 tiros.

O confronto no Salgueiro teve início no sábado (20), quando o policial militar Leandro da Silva foi morto a tiros durante um patrulhamento. Em seguida, 75 agentes das equipes Charlie e Delta do Bope (Batalhão de Operações Especiais da PM do Rio) foram acionados para “estabilizar o terreno e cessar os confrontos”, segundo a corporação.

Relatório da polícia, ao qual a Folha teve acesso, afirma que o objetivo da operação foi reprimir ações de ataque às viaturas policiais de serviço. No documento, a Polícia Militar diz que, diante da morte do sargento, tornou-se “imperiosa” a atuação da unidade especial para restabelecer a ordem na área, identificar e prender os responsáveis pelo assassinato e providenciar a retirada em segurança dos policiais que permaneciam no interior da comunidade.

Especialistas consultados pela reportagem afirmam que as chamadas “Operações Vingança” são comuns após a morte de um agente. Dissertação de mestrado da pesquisadora Terine Husek, apresentada na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) em 2017, mostra que, quando um policial é morto em serviço, as chances de um civil ser morto pela polícia no dia seguinte aumentam em 350%. Nos sete dias posteriores, em 125%. No mesmo dia, em 1.150%.

A operação no Salgueiro se estendeu por todo o final de semana e resultou na morte de nove pessoas que, ainda de acordo com a polícia, foram atingidas em confronto. A corporação não isolou o local e não avisou a Polícia Civil e o Ministério Público sobre a existência de corpos. Oito deles foram retirados de um mangue por moradores, apenas na segunda-feira (22) pela manhã.

Os nove mortos foram identificados como Carlos Eduardo Curado de Almeida, 33, David Wilson Oliveira Antunes, 23, Douglas Vinicius Medeiros da Silva, 27, Elio da Silva Araújo, 52, Italo George Barbosa de Souza Gouvêa Ros, 33, Jhonatan Klando Pacheco, 26, Kauã Brenner Gonçalves Miranda, 17, Rafael Menezes Alves, 28, e Igor da Costa Coutinho (sem informação sobre idade).

Além da Polícia Civil, a PM disse que também instaurou um inquérito para investigar as circunstâncias da operação. O Ministério Público do Rio de Janeiro informou que abriu um Procedimento Investigatório Criminal próprio para investigar a operação. Um perito também foi designado ao IML para acompanhar o exame dos corpos.

Em nota, a Defensoria Pública apontou preocupação por “não ter havido comunicação imediata por parte da Polícia Militar à Polícia Civil e ao Ministério Público da existência de corpos na comunidade”. “Além disso, não houve acautelamento do local, fundamental para a realização da perícia.”

Testemunhas que participaram dos acontecimentos contaram à Folha sua versão do que aconteceu ali, que diverge da narrativa de confronto alegada pela polícia. Nenhuma delas será identificada por motivos de segurança.

Segundo esses relatos, policiais fizeram um churrasco, mataram ao menos três homens que não eram envolvidos com o crime, torturaram parte das vítimas e depois levaram duas mochilas de dinheiro, fuzis e pistolas que não estão entre as apreensões divulgadas oficialmente.

Ainda de acordo os relatos, os agentes teriam entrado no chamado Piscina’s Bar no domingo (21) usando uma chave mestra e feito uma festa regada a cerveja e churrasco, deixando para trás escritos como “milícia Ecko” e os nomes do miliciano “Tandera” e da facção rival “TCP”.

Do lado interno do portão marrom, os presentes escreveram um recado: “Obrigado pela recepção, ass: Δ [delta] force, bonde do caça siri”. Delta é o nome da equipe do Bope que realizou a operação policial no domingo.

O relatório apresentado pela polícia afirma que, durante a operação de domingo, a equipe Delta foi surpreendida inúmeras vezes por ataques do tráfico em locais diferentes, inclusive durante patrulhamento na área de mata. O texto diz que, então, a Delta iniciou “uma resposta proporcional à injusta agressão executada pelos marginais fortemente armados”.

Autor: Ana Luiza Albuquerque

Fonte: pressreader.com/Folha de S.Paulo