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IGREJA ABANDONADA SE TORNA OCUPAÇÃO DE SEM-TETO NO CENTRO PAULISTANO

28/10/2021 08h15
A colombiana Rosa Gonzalez, 67, se mudou para o imóvel; o local, que fica em frente à praça Princesa Isabel, estava fechado desde ao menos 2018 e foi tomado há cerca de um mês
IGREJA ABANDONADA SE TORNA OCUPAÇÃO DE SEM-TETO NO CENTRO PAULISTANO

são paulo Deitada no sofá em frente a uma das amplas janelas do imóvel onde funcionava uma igreja de imigrantes nigerianos, no centro de São Paulo, Cibele Ribeiro da Silva, 31, olha os três filhos sentados no chão em frente à televisão. Um deles é Adrian, 10, portador de paralisia cerebral.

Grávida do sexto filho, Cibele é uma das moradoras da ocupação aberta há cerca de um mês em imóvel fechado ao menos desde 2018, quando os inquilinos deixaram de pagar aluguel. O endereço fica em frente à praça Princesa Isabel, atualmente, o retrato da crise de moradia na capital paulista, tomada por barracas de sem-teto.

O imóvel de dois andares tem dívidas de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), de água e luz, e também é alvo de disputa na Justiça entre herdeiros.

O espaço interno está sendo repartido entre as famílias com uso de divisórias de madeira e paredes de tijolos. A maioria é imigrantes, idosos e mães solteiras. Cada um paga cerca de R$ 150 para morar lá, abaixo da média de R$ 300 cobrada em outras ocupações.

A líder da ocupação batizada de “Unidos para Vencer” é Janaína Xavier, 41, ex-usuária de drogas que se tornou referência de assistência à moradia para quem vive na região da cracolândia.

Na semana passada, após ação de despejo que deixou 30 pessoas desabrigadas na cracolândia, foi ela quem ajudou a abrigar a família de Josimar Cruz Moraes. Ele, a mulher e os quatro filhos conseguiram uma vaga em uma ocupação na avenida São João. “Ela, agora, é como uma mãe para mim”, diz Moraes.

Uma das primeiras moradoras de ocupação foi Cibele. Vítima de violência doméstica, ela vive com a companheira Talita que a ajuda com as crianças e na reciclagem, único meio de sustento da família.

Elas saíram da outra ocupação onde viviam, na avenida São João, porque não conseguiam pagar o valor cobrado todo mês, e também pela falta de segurança. “Roubaram a cadeira de rodas do Adrian na ocupação”, diz ela, que passou a usar um carrinho de supermercado para se locomover com o filho.

No andar de cima, vive a colombiana Rosa Gonzalez, 67. Ela tem artrose nos joelhos e problema no quadril após sofrer uma queda. Devido à locomoção limitada, ela evita sair da ocupação para não ter que subir os dois lances de escada. Rosa vive no Brasil há seis anos com a neta e o sobrinho, Jaime Gonzalez, 42.

A família também foi atraída pelo baixo valor cobrado na nova ocupação. “Com o dinheiro que pagávamos na outra ocupação, conseguimos comprar tijolos, cimento e areia”, diz o sobrinho enquanto ergue uma parede de alvenaria no meio do salão onde antes funcionava a igreja.

Autor: Mariana Zylberkan

Fonte: pressreader.com/Folha de S.Paulo