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Ex-ministro e dois pastores são presos sob suspeita de corrupção

23/06/2022 07h47
‘Se a PF prendeu, tem motivo’, diz Bolsonaro sobre Milton Ribeiro
Ex-ministro e dois pastores são presos sob suspeita de corrupção

A Polícia Federal prendeu o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro por suspeita de corrupção passiva, prevaricação, advocacia administrativa e tráfico de influência no MEC. Os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, que comandavam um gabinete paralelo na pasta e pediam propina em troca de liberação de verbas, também estão presos. O caso foi revelado pelo Estadão em março. O advogado do ex-ministro disse que a PF identificou um depósito de R$ 50 mil na conta bancária da mulher de Ribeiro feito por parentes de Arilton. A defesa liga o valor à venda de um carro. Em março, Bolsonaro disse que colocaria “a cara no fogo” por Ribeiro. Ontem, afirmou que “se a PF prendeu, tem motivo”.

O ex-ministro da Educação Milton Ribeiro foi preso ontem pela Polícia Federal sob suspeita de corrupção passiva, prevaricação, advocacia administrativa e tráfico de influência enquanto comandava o MEC. Ribeiro e os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, que chefiavam um gabinete paralelo na pasta e pediam propina em troca de liberação de dinheiro público, foram presos preventivamente – por tempo indeterminado.

O inquérito foi aberto após série de reportagens do Estadão revelar o esquema na pasta. Prefeitos relataram ao jornal que para conseguir verba no MEC era preciso pagar propina aos dois pastores em barras de ouro ou comprar bíblias com preços superfaturados. Os livros traziam a foto do então ministro Milton Ribeiro.

A Justiça Federal não divulgou ontem o motivo das prisões preventivas e manteve o sigilo do processo. O advogado do ex-ministro disse que as investigações da PF identificaram um depósito de R$ 50 mil na conta bancária da mulher do ex-ministro feito por parentes de Arilton. A defesa disse se tratar de valor relativo à venda de um automóvel.

Como mostrou o Estadão em 18 de março, os pastores tinham acesso direto ao presidente Jair Bolsonaro e frequentavam o Planalto. Em resposta às reportagens, o presidente disse que “botava a cara toda no fogo” pelo ministro e estavam fazendo uma “covardia”. Ribeiro deixou o cargo dez dias depois e sua exoneração saiu no Diário Oficial da União como “a pedido”. “Deus vai provar que ele é uma pessoa honesta”, disse a primeira-dama Michelle Bolsonaro na ocasião.

Com a prisão ontem, Bolsonaro mudou o discurso de apoio ao ex-ministro e disse que “se a PF prendeu, tem um motivo”. “Que ele responda pelos atos dele. Peço a Deus que não tenha problema nenhum”, afirmou à Rádio Itatiaia (mais informações na página ao lado).

Em 31 de março, já fora do governo, Ribeiro foi convocado pela PF a depor. Ele confirmou que Bolsonaro lhe pediu para receber os pastores MEC. Arilton esteve no Planalto 35 vezes desde 2019. O ex-ministro

é o primeiro da pasta na história recente do País a ser investigado e preso por suspeita de corrupção. Ribeiro esteve 20 meses à frente do MEC.

PRÓXIMO ALVO. Batizada de

Operação Acesso Pago, a ação da PF mira agora o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão controlado pelo Centrão e que concentra a maior fonte de recursos da educação. O presidente do órgão, Marcelo Lopes da Ponte, foi indicado pelo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, líder do Progressistas, principal partido do grupo de apoio a Bolsonaro. Além de levar prefeitos ao MEC, os pastores também agendavam conversas no FNDE. Em nota, a direção do fundo informou que não foi alvo da apuração.

O mandado de prisão preventiva foi expedido pelo juiz Renato Borelli, da 15.ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal, a pedido da PF. Além do ministro e dos pastores, também foram alvo o advogado Luciano Musse e o ex-assessor da prefeitura de Goiânia Helder Diego da Silva Bartolomeu – contra ambos foi decretada prisão domiciliar. Musse, nomeado gerente de projetos em abril do ano passado pelo próprio ministro, atuava como apoio aos religiosos. Helder Bartolomeu também era ligado aos pastores.

Ribeiro foi preso em seu apartamento em Santos. Havia determinação para que fosse transferido para Brasília. No fim do dia, a Justiça informou que ele ficaria detido em São Paulo, de onde participará hoje de audiência de custódia por videoconferência com o juiz federal. Preso no Pará, o pastor Arilton também será ouvido a distância. Apenas o pastor Gilmar está preso na capital federal. Há determinação judicial para que os investigados não mantenham contato entre si. INDÍCIOS. A PF informou que, com base em documentos, depoimentos e relatório de investigação preliminar da Controladoria-geral da União (CGU), “foram identificados possíveis indícios de prática criminosa para a liberação das verbas públicas”. Em nota, a CGU afirma que abriu investigação preliminar em 23 de março, após as reportagens do Estadão, para “apurar a possível atuação irregular de agentes públicos e privados” no MEC. A investigação terminou em 23 de maio.

“Foi identificada a prática de atos suspeitos. Os indícios foram encaminhados à Polícia Federal e ao Ministério Público”, disse a CGU. Antes disso, o órgão afirmou ter recebido denúncia anônima do próprio Ribeiro. O caso, porém, fora arquivado e só retomado após o Estadão revelar o gabinete paralelo.

Autor: JULIA AFFONSO BRASÍLIA PEPITA ORTEGA RAYSSA MOTTA SÃO PAULO • COLABOROU ALEXANDRE FERNANDES, ESPECIAL PARA O ‘ESTADÃO’

Fonte: pressreader.com/O Estado de S. Paulo