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Direita tradicional da França aposta em candidata moderada para derrotar Macron e fazer frente a ultraconservadores

04/12/2021 17h38
Valérie Pécresse, que se define como 'um terço Margaret Thatcher e dois terços Angela Merkel' derrotou político da ala mais conservadora do partido Os Republicanos
Direita tradicional da França aposta em candidata moderada para derrotar Macron e fazer frente a ultraconservadores

PARIS — Valérie Pécresse, que se descreve como “um terço Margaret Thatcher e dois terços Angela Merkel”, foi escolhida neste sábado como candidata à Presidência da França pelo partido da direita tradicional Os Republicanos. Ela agora terá como desafio competir com o  presidente Emmanuel Macron pelos votos de eleitores centristas e recuperar votos perdidos para a extrema direita, caso deseje vencer as eleições de abril de 2022 para ser a primeira mulher à frente do Palácio do Eliseu.

A moderada governante da região de Île-de-France, nos arredores de Paris, foi escolhida após a rodada final de votação entre os integrantes do partido — ao todo, 140 mil pessoas estavam aptas a participar. Ela saiu na frente de Eric Ciotti, um político do Sul francês, após ganhar o apoio dos pleiteantes derrotados durante o primeiro turno das primárias, que chegou ao fim na quinta.

Pécresse venceu Ciotti, o mais conservador entre todos os pleiteantes, por 61% dos votos contra 39%. Dois dos inicialmente favoritos, o ex-negociador da União Europeia durante os procedimentos do Brexit, Michel Barnier, e o líder regional Xavier Bertrand, da região dos Altos da França, ficaram para trás ainda na primeira votação, contradizendo a maior parte dos especialistas.

— Pela primeira vez em sua História, o partido do general [Charles] de Gaulle, de Georges Pompidou, de Jacques Chirac e de Nicolas Sarkozy terá uma candidata mulher nas eleições presidenciais — disse Pécresse a apoiadores após ser escolhida, agradecendo-os pela “audácia” de apostar em uma mulher.

Com a candidata, o partido abriu mão de uma guinada à extrema direita, apostando em uma agenda “sem complexos” e sem maiores radicalismos. Driblando um já disputado campo ultraconservador, o partido busca atrair os eleitores moderados de centro-direita, cortejados por Macron e necessários para que o seu República em Marcha continue no poder.

Pécresse, contudo, está distante de alcançar o presidente, que lidera as sondagens com 24% dos votos, segundo o agregador de pesquisas do site Politico. Ela aparece apenas em quarto, apenas com 10% das intenções de voto.

A vice-liderança é ocupada pela candidata de extrema direita Marine Le Pen, com 19% dos votos, seguida pelo polemista ultraconservador Éric Zemmour, ainda mais à direita que a filha de Jean-Marie Le Pen, com 14%. Há algumas semanas tido como o favorito para disputar o segundo turno com Macron, ele, que confirmou sua candidatura na terça-feira, vê sua popularidade em queda após uma série de polêmicas.

— Tenho uma boa notícia: a direita republicana está de volta. A direita das convicções, das soluções, está unida e parte para o combate com uma vontade implacável — disse a candidata em um discurso na sede partidária, em Paris, que recebeu o apoio imediato de Ciotti após o resultado ser anunciado.

Guinada à direita

Em seu discurso, a candidata disse ainda que irá “trazer de volta o orgulho da França e proteger o francês”. Com isso, fez um aceno à ala mais radical de seu partido, cuja força foi evidenciada pela passagem de Ciotti para a rodada final das primárias.

A força da retórica anti-imigração e identitária gera inquietação em quadros mais moderados dos Republicanos e temor de que uma fatia de seus eleitores migre para Zemmour e seu discurso radical, afirmando que a cultura francesa está sob ataque de imigrantes muçulmanos.

A inesperada popularidade de Zemmour, que embolou uma disputa que vinha se caracterizando como um repeteco do pleito presidencial de 2017, com Macron e Le Pen no segundo turno, contudo, leva todo o campo para a direita. Os republicanos não estão isentos, apesar da escolha mais moderada para representá-los na corrida eleitoral.

Em sua fala, Pécresse condenou o crime, a “ascensão do separatismo islâmico” e a imigração descontrolada”. Promete cortar pela metade o número de licenças de residência para cidadãos de fora da União Europeia e proibir que mulheres que acompanham seus filhos em viagens escolares cubram a cabeça com véus islâmicos.

— Sinto a ira das pessoas que se sentem impotentes diante da violência e do crescimento do separatismo islâmicos, que sentem que seus valores e estilo de vida são ameaçados pela imigração descontrolada — afirmou.

Ameaça a Macron

Ela defende também penas mais duras em regiões com altas taxas de criminalidade, mas ainda assim é menos linha-dura que Ciotti. Enquanto o candidato defendia que o partido apostasse na “identidade, na autoridade e na liberdade”, ela substituiu a primeira palavra de ordem por “dignidade”.

— Ao contrário dos extremos, iremos rasgar a página de Macron sem rasgar a História da França — afirmou, classificando o mandatário como um “presidente zigue-zague” que transita entre a direita e a esquerda.

Pécresse, de 54 anos, foi ministra da Educação e do Orçamento durante o governo de Sarkozy e sua porta-voz. Ela se apresenta, destaca o jornal Financial Times, como uma ambientalista fiscalmente conservadora, além de defender plataformas pró-lei e ordem.

Entre suas plataformas de campanha, promete cortar 200 mil vagas do funcionalismo público, apesar de prometer injetar mais dinheiro no Judiciário. Disse que irá acabar com a semana de trabalho de 35 horas semanais, aumentar a idade da aposentadoria e construir mais reatores nucleares.

Com ela, são três mulheres já confirmadas como candidatas ao Eliseu: além de Le Pen, há também Anne Hidalgo, a prefeita socialista de Paris. Elas concorrerão ao lado de Zemmour, do ambientalista Yannick Jadot e do esquerdista Jean-Luc Mélenchon, entre outros que também já lançaram suas candidaturas. Macron deverá confirmar inicialmente que disputará a reeleição no início do ano que vem.

 Nesta semana, o jornal Le Parisien destacou que pessoas da alta cúpula do Eliseu temem que uma ascensão da candidata de direita possa complicar suas chances, classificando-o como a “mais perigosa” para os planos de reeleição — mais pela proximidade de ideias do que pelo gênero. (Com El País).

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Fonte: oglobo.globo.com