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Da boleia de caminhão a empresário de pedágio

15/09/2021 08h21
Após ajudar a criar Conectcar, João Cumerlato fundou a Greenpass, que atende C6 e Banco Inter
Da boleia de caminhão a empresário de pedágio

Com concorrentes como Sem Parar, Conectcar e Veloe, a Greenpass, do ex-caminhoneiro, oferece tecnologia de tags de pedágio para os clientes dos bancos C6 e Inter e a cooperativa Sicredi.

“Eu conheço bem a dor da estrada”, diz o executivo João Cumerlato, presidente da Greenpass, empresa que oferece a tecnologia de tags de pedágio para os clientes de bancos como C6 e Inter e a cooperativa de crédito Sicredi. Em um setor concorrido, que inclui a líder de mercado Sem Parar, a Conectcar (que tem Itaú e Porto Seguro como sócios) e a Veloe (do Banco do Brasil e do Bradesco), o executivo vê chance de seu negócio relativamente pequeno crescer não só conquistando clientes, mas também ampliando o leque de serviços para quem passa a vida na estrada.

A Greenpass, que iniciou suas operações em 2019, tem hoje 600 mil usuários ativos, sendo a quarta maior força do mercado. A companhia tem 11 clientes corporativos e prevê incluir mais seis nomes ainda em 2021. A empresa não revela faturamento, mas diz ter crescido 65% no primeiro semestre de 2021, em relação aos seis meses anteriores.

Para Cumerlato, o serviço de tags de pedágio está próximo de um ponto de inflexão: ainda associado à abertura de cancelas nas estradas e em estacionamentos de shoppings, ele deve se tornar, em breve, uma ferramenta para pagar quase tudo. A Sem Parar, por exemplo, permite que o cliente abasteça o veículo e até pague um hambúrguer no drive-thru do Mcdonald’s. As possibilidades parecem infinitas, mas o executivo vê especial potencial entre os profissionais do transporte rodoviário de cargas.

Isso porque ele já foi caminhoneiro. Quando tinha 17 anos, o filho do dono de uma pequena frota de seis caminhões na cidade de Canela (RS) queria passar a vida nas estradas. Afinal, seu pai trabalhava como caminhoneiro havia décadas – e, mais tarde, o irmão escolheria a mesma profissão. O então adolescente comunicou o pai que queria dirigir um de seus caminhões Brasil afora. “Meu pai foi contra, mas acabamos por fazer um trato.”

O combinado foi que João trabalharia seis meses como caminhoneiro. A disposição em continuar a vida na estrada acabou a um mês do prazo estipulado. A vastidão dos horizontes logo deu lugar a um sem-número de perrengues que acabaram fazendo o garoto voltar aos bancos da escola. “Mas ele também soube me fazer desistir da ideia, porque me levou para os lugares mais difíceis. Puxei soja no Piauí e no Tocantins há mais de 30 anos. Eu nunca mais voltei, mas meu irmão mora em Fortaleza e dirige caminhão até hoje.”

É com base nessa experiência que ele vê a chance de, como uma solução sem marca, estender sua clientela. Um dos projetos no horizonte envolve justamente os caminhoneiros. A Greenpass vê a possibilidade de oferecer uma série de serviços a esse público graças à entrada em vigor do Documento de Transporte Eletrônico (DTE), que vai funcionar como uma espécie de “holerite” do caminhoneiro. Isso abre a possibilidade para o lançamento de produtos voltados para esses profissionais administrarem seus gastos na estrada.

Para Marcus Ayres, sócio-diretor da área industrial da Roland Berger Brasil, a possibilidade de oferta de serviços para caminhoneiros é grande. “Além da plataforma de pedágio, as empresas de tags podem oferecer a esse público serviços de abastecimento, refeição, seguros e até um marketplace de peças de reposição”, exemplifica Ayres. “E por que não cobrar R$ 1 a mais cada vez que um caminhão passar no pedágio, para garantir que ele esteja segurado?”

Para terceiros. A relação de Cumerlato com o mercado de tags é antiga. Em 2011, quando era funcionário do então poderoso Grupo Odebrecht, propôs comprar parte do Sem Parar, que pertencia a concorrentes como a CCR e a Ecorodovias. O negócio acabou não saindo – os potenciais vendedores queriam quase o dobro do que a

Odebrecht ofereceu –, mas serviu de base para ele propor a criação da Conectcar, operação criada em 2011 e vendida ao Itaú em 2016.

Em 2017, ao sair da Conectcar, Cumerlato começou a trabalhar no projeto da Greenpass, que já nasceu como um fornecedor para terceiros. Após dois anos, o projeto começou com o C6 Bank como cliente – hoje, a empresa mantém parte da carteira do banco, que é dividida com a Veloe. Agora, o empreendedor vê o mercado se redesenhar de novo, com a Conectcar mais voltada mais a reter o cliente do Itaú do que em ganhar dinheiro com o serviço de pedágio em si.

“Era um movimento que a gente esperava que o Itaú fizesse desde 2016”, diz Cumerlato sobre o movimento anunciado este mês. Com a nova configuração, a Conectcar passa a concorrer diretamente com a Greenpass.

Ayres, da Roland Berger, aponta, porém, que as tecnologias para a operação do serviço de pedágio e estacionamentos estão ficando cada vez mais baratas. Foi por isso que a Greenpass conseguiu montar uma estrutura mesmo sendo uma startup, enquanto suas demais concorrentes precisavam, anos atrás, da estrutura e da capacidade de investimento de um banco ou de investidores da Bolsa de Valores.

O executivo da consultoria alemã diz que, por isso, a Greenpass tem um faturamento proporcionalmente mais alto em relação ao investimento realizado. No entanto, a tendência de redução dos valores dessas tecnologias não vai se reverter. “Logo, a barreira de entrada de novas concorrentes vai ficar cada vez menor”, explica Ayres.

“(Meu pai) soube me fazer desistir da ideia (de ser caminhoneiro), porque me levou para os lugares mais difíceis. Puxei soja no Piauí e no Tocantins há 30 anos.” João Cumerlato

FUNDADOR DA GREENPASS

Autor: João Cumerlato, presidente da Greenpass

Fonte: pressreader.com/O Estado de S. Paulo