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Certidão de óbito de Anthony Wong e da mãe de Luciano Hang omitiram Covid, mostram documentos

22/09/2021 17h46
Prontuário médico enviado à CPI da Covid mostra complicações devido ao coronavírus; médico era conhecido por defender drogas ineficazes contra Covid, como a cloroquina
Certidão de óbito de Anthony Wong e da mãe de Luciano Hang omitiram Covid, mostram documentos

BRASÍLIA - Documentos enviados à CPI da Covid mostram que o médico Anthony Wong, conhecido por defender o "tratamento precoce", ineficaz contra a Covid-19, foi submetido às mesmas drogas cujo uso defendia em um hospital da Prevent Senior. O fato de ter morrido por complicações devido ao coronavírus foi omitido de sua certidão de óbito. O mesmo ocorreu com a mãe do empresário Luciano Hang.

O Ministério da Saúde determinou, desde o início da pandemia, que as certidões de óbito por Covid incluam o vírus como causa da morte. Eventuais complicações derivadas da infecção podem ser citadas também, mas a Covid não pode ser omitida.

O caso foi antecipado pela revista "Piauí". Procurada, a Prevent Senior diz em nota que, "por limitações éticas e legais", "não pode fornecer ou confirmar informações de pacientes". "Apesar disso, afirma que não houve fraudes ou omissões nos atestados de óbito", afirma a empresa.

Anthony Wong foi internado no Sancta Maggiore, da rede Prevent Senior, em 17 de novembro de 2020. No mesmo dia, assinou um termo autorizando o uso de hidroxicloroquina, comprovadamente ineficaz contra a Covid-19, e também a ozonioterapia, proibida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

Em alguns trechos do prontuário de Wong, a que o GLOBO teve acesso, é citada a prescrição de medicamentos sob orientação de Nise Yamaguchi. A médica foi uma das maiores defensoras do uso de cloroquina e outras drogas ineficazes contra a Covid-19 e é investigada pela CPI da Covid sob a suspeita de integrar um "gabinete paralelo" de assessoramento do Palácio do Planalto.

Em agosto do ano passado, Mauro Luiz de Britto Ribeiro, presidente do CFM, afirmou que o uso da ozonioterapia coloca em risco a saúde dos pacientes e não há evidência científica que tenha eficácia contra alguma doença. Ele alertou que médicos que usassem o tratamento poderiam ser punidos.

O receituário do dia da internação mostra que Wong tomou hidroxicloroquina e azitromicina, o chamado "kit Covid", desde o primeiro momento em que foi internado. Naquele momento, foi constatado que ele estava com febre, tosse e cansaço.

"Iniciado protocolo Covid", registrou a médica responsável. "Aguardo restante dos exames laboratoriais. Converso com o paciente e sua esposa que compreendem e concordam com a conduta." O teste para Covid-19 teve resultado positivo, afirma posteriormente o prontuário médico.

Nas semanas seguintes, o quadro de Wong piorou. Foi intubado e teve uma hemorragia digestiva. Por fim, teve uma pneumonia bacteriana, cujo risco é maior nos casos de Covid-19. Wong faleceu em 15 de janeiro de 2021 aos 73 anos. A causa da morte não foi divulgada pela família na época.

Wong tinha a especialidade de toxicologista. Quando morreu, ele era médico chefe do Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas e embaixador do Instituto Trata Brasil. Nascido em Nanking, na China, em 1947, Wong se naturalizou brasileiro em 1973.

Nas palavras do relator da CPI, senador Renan Calheiros, Wong foi um dos "maiores propagandistas das fake news envolvendo o tratamento precoce". Durante a pandemia, ele gravou vídeos e deu palestras nos quais defendia o tratamento precoce, colocava em dúvida a eficácia da vacinação e defendia a estratégia chamada de "intervenção radical", que consistia no isolamento apenas dos idosos e na abertura geral das cidades.

Mãe do Luciano Hang

A mãe do empresário Luciano Hang, Regina Modesti Hang, também foi submetida aos medicamentos do "kit Covid". Ela morreu em fevereiro de 2021 e estava internada no Sancta Maggiore, da rede Prevent Senior. A sua certidão de óbito, a que o GLOBO também teve acesso, cita pneumonia e acidente vascular cerebral, mas não faz menção a Covid.

Em vídeo publicado em rede social após a morte de sua mãe, Hang diz que ela havia chegado ao hospital "assintomática" e com 95% dos pulmões comprometidos. Ele defende que a sua mãe poderia ter sido salva se tivesse começado a tomar antes o "kit Covid" sem comprovação científica. Os documentos mostram que Regina foi internada com insuficiência respiratória, submetida a ozonioterapia e depois apresentou complicações.

Autor: Natália Portinari e Eduardo Gonçalves

Fonte: oglobo.globo.com