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CAOS CLIMÁTICO PÕE MODELO AMERICANO NA ROTA DO COLAPSO

01/12/2021 08h18
Durante viagem de 21 dias, a Folha percorreu as estradas que ligam a Flórida à Califórnia para entender como a crise do clima tem impactado a vida de quem vive nos Estados Unidos
CAOS CLIMÁTICO PÕE MODELO AMERICANO NA ROTA DO COLAPSO

Casas destruídas pelo furacão Ida em Grand Isle, na Louisiana; ilha sofre com tempestades e tem um dos maiores aumentos relativos de nível do mar do mundo

flóridaelouisiana Quando o telefone tocou, Benny Dardar estava prestes a receber uma notícia terrível. Ouviu com atençãoorelatodooutroladodalinhaedecidiutestemunharatragédiapessoalmente.Erasábado,4desetembro.

Ele atravessou a estreita rodovia que liga a parte continental da Louisiana à ilha de Jean Charles, lugar que chamou de casa a vida toda, e encontrou a península tomada de destroços e pavor, seis dias depois da passagem do furacão Ida. A construção de madeira em que vivia com a mulher, Dana, havia sido derrubada pelos ventos de até 240 km/h de uma das tempestades mais violentas nos EUA em 150 anos. “Minha vida acabou”, lembrou Benny quatro semanas após o desabamento.

Os moradores de Jean Charles são uma das populações mais vulneráveis aos efeitos da crise do clima nos EUA. Desde que Benny nasceu, na década de 1950, a ilha perdeu 98% do território, principalmente devido à erosão do solo e à elevação do nível do mar, e hoje é possível percorrê-la de ponta a ponta em menos de três minutos de carro.

Mas o cenário de degradação não é exclusivo de ilhotas no sul da Louisiana. Com cada vez mais frequência, pessoas em todo o país perdem casas e negócios, morrem de sede, calor e frio em decorrência de enchentes, furacões, secas e incêndios florestais.

Durante 21 dias, a Folha percorreu regiões sob efeitos de fenômenos climáticos extremos. Em quatro capítulos, registramos o caminho da água que invade a Flórida e a Louisiana; a tentativa de salvar o sistema energético do Texas por meio de turbinas eólicas; a seca que corrói Arizona e Nevada, com a escassez inédita do maior reservatório de água do país; e o fogo que consome florestas, vinícolas e cidades na Califórnia.

Por 10.417 quilômetros, foi possível ver a destruição do território americano em vários níveis, além do negacionismo e da falta de consciência coletiva de populações que ainda não entenderam estar sob uma ameaça existencial iminente.

A crise do clima transforma os EUA de maneira irreversível. Quase 35 milhões de pessoas —mais de 1 em cada 10 habitantes— já vivem em áreas que aquecem rapidamente no país.

A situação deve piorar. Caso as emissões de carbono continuem a subir de forma acelerada, em menos de 50 anos metade da população americana sofrerá com mais calor e menos água, e milhões terão de morar em locais considerados inóspitos.

Chegamos à Flórida em 21 de setembro. Estava nublado e ventava forte na praia de Sunny Isles, a 29 km do centro de Miami. As ondas estavam agitadas, e a impressão era a de que logo avançariam pela pequena faixa de areia que separa o Atlântico de luxuosos prédios à beiramar —o mais alto deles, inaugurado em 2018, tem 51 andares e 200 metros de altura.

Não era só impressão. A Flórida foi o ponto de partida do nosso roteiro porque poucos lugares do mundo são tão atingidos pela crise do clima como o sul daquele estado.

Os 6 milhões de pessoas que vivem ali sofrem com quase todos os fenômenos naturais, da elevação do nível do mar à erosão do litoral, de furacões a ondas de calor, que, juntos, podem deixar parte da região completamente debaixo d’água em menos de 80 anos.

Os efeitos produzidos até agora, porém, são sentidos de formas diferentes pela população, reflexo de que a questão climática é outra camada das desigualdades racial e social.

Enquanto parte dos mais ricos ainda insiste em viver nas áreas costeiras, empreiteiras buscam terrenos mais altos para construir, fomentando a chamada gentrificação pelo clima. Longe do mar, essas regiões costumavam abrigar fatias mais pobres da população, pessoas negras e imigrantes que hoje tentam se adaptar à nova realidade.

“Amudançaclimáticaéracista”, afirma Yoca Arditi-Rocha, diretora-executiva do Instituto CLEO, que atua na defesa de medidascontraefeitosdacrise do clima. “As construtoras entram, e as comunidades saem. Essa é uma das muitas maneiraspelasquaisgrupostradicionalmentemarginalizadoscontinuam a ser prejudicados por um sistema racista arraigado nestepaísdesdeacolonização.”

Um dos atingidos é Louis Cherenfint, que migrou para os EUA em 1977 e se fixou no norte de Miami, no bairro batizado de Little Haiti por abrigar tantos haitianos como ele. Quase20anosdepois,comprou um mercadinho, cercado hoje por galerias de arte, sorveterias gourmet e academias que têm se espalhado pela região.

De trás do balcão, o sorriso de Louis precede o aviso de que ele não entende bem o inglês —sua língua nativa é o crioulo haitiano. Ainda assim, quer falar sobre como sua vida e seus negócios mudaram. “Vim aos EUA em busca de uma vida melhor. Tive quatro filhos, todos se formaram e conseguiram trabalho [...] Mas tudo ficou mais caro, e minha loja tem cada vez menos movimento”, diz.

O nível das águas em torno da cidade de Miami levou 31 anos para subir 15 centímetros, mas os próximos 15 centímetros devem ser atingidos na metade desse tempo

“Esses novos empreendimentos estão expulsando antigos residentes, trazendo gente diferente, turistas, que podem até ajudar em algum momento, mas até agora os preços só estão mais altos. Meu pai consegue apenas o dinheiro suficiente para sobreviver”, completa a filha de Louis, Manouska.

Os valores das casas residenciais em Little Haiti quase triplicaram desde 2010, a maior disparada em toda a região de Miami, impulsionados pela chegada de novos conglomerados, como o Magic City Innovation District, que fica a menos de 1 km do Louis Market.

O projeto, orçado em US$ 1 bilhão, promete lojas, escritórios, hotéis e apartamentos em um total de 18 torres, a primeira com previsão de ficar pronta daqui a um ano e meio.

O consultor Joshua Rosa atende em um dos escritórios de vendas do Magic City e insiste que o impacto final na vizinhança será positivo.

“Não haverá lojas de bebidas ou cigarro”, afirma ele. “A intenção é ser menos sobre dinheiro e mais sobre funcionalidade, tudo a uma distância possível de caminhar, com sensação de minicidade.”

Sob pressão de ativistas, para quem os prejuízos ultrapassam o mercado imobiliário e avançam sobre o funcionamento da comunidade, as construtoras responsáveis pelo projeto ofereceram US$ 31 milhões para iniciativas que beneficiem o bairro.

Especialistas, por sua vez, dizem que não é possível medir com clareza o impacto da inauguração do conglomerado sobre antigos residentes, mas a tendência é que as mudanças sigam expulsando os mais vulneráveis.

Rosa afirma que o valor do aluguel no Magic City ainda não está fechado, mas define o perfil dos possíveis moradores como “jovens de negócios”.

Westley Hosey, 55, está desempregado e não se enxerga no novo conceito. Conta que precisará deixar Little Haiti se os preços continuarem a subir no ano que vem.

Em frente ao prédio de sete unidades no qual mora há pouco mais de três anos, diz que pagava US$ 800 por mês por um apartamento de um dormitório e que, neste ano, o valor aumentou para US$ 1.200. “Não dá para subir US$ 400 da noite para o dia. As pessoas precisam se planejar. Está ficando ridículo.”

Parte dos moradores do bairro não relaciona a situação que está vivendo com a crise do clima, principalmente porque a elevação do nível do mar demora anos para ser perceptível visualmente. Segundo cientistas, as águas em torno de Miami levaram 31 anos para subir 15 centímetros, mas os próximos 15 centímetros devem ser atingidos na metade desse tempo.

“As pessoas não se sentem impactadas pessoalmente pela crise climática, veem isso acontecendo em um futuro distante”, diz Yoca ArditiRocha, do Instituto CLEO. “E, quando se sentem parte insignificante no caos, muitas se calam, não sabem o que fazer. É um mecanismo interno que o ser humano tem para lidar com o estresse.”

Essa

postura pode explicar em parte por que encontramos tantas pessoas apáticas diante da crise do clima, apesar de pesquisas mostrarem crescimento do temor dos americanos com o tema. Levantamento divulgado em setembro pela Universidade Yale aponta que 70% da população americana se diz de alguma forma preocupada com o aquecimento global —eram 65% em março. O número dos que afirmam acreditar que o planeta está esquentando também aumentou: são 76%, ante 70% em março.

A dona de casa Pam Lentz, 63, está entre os que se preocupam com a crise, mas acha que não há muito a fazer. “Somos atingidos por tempestades e furacões, que continuam a nos dizer que esta ilha vai ficar debaixo d’água um dia. Mas, como vivemos no paraíso, temos que conviver com isso. Quando se mora aqui, você não se preocupa muito.”

Pam vive há uma década em Big Pine Key, uma pequena ilha a três horas de Miami e um dos últimos —e mais ameaçados— territórios ao sul da Flórida. Conhecida por seus grandes pinheiros (“big pine”, em inglês) e por ser o único habitat da espécie de veado key, a ilha perdeu 30% de suas árvores após a passagem do furacão Irma, em 2017.

Parte dos pinheiros se recompunha após as tempestades, mas a água salgada que tem avançado sobre a terra dificulta o crescimento da vegetação —além de diminuir as fontes para a sobrevivência dos cerca de mil veados que ainda hoje dividem a ilha com quase 5.000 habitantes.

Um deles é Chris Bergh, que, debaixo de um chuvisco fino, nos guiou entre os mangues até um ponto onde pudemos ver em perspectiva os três níveis de vegetação de Big Pine Key.

A cena era didática: onde estávamos, as plantas ficaram marrons, inundadas e mortas à beira-mar. No meio do terreno, era possível avistar algum verde a salvo da água salgada, enquanto somente no ponto mais alto de terra (a 1,5 metro de altitude) via-se árvores saudáveis, ainda com algum acesso a água doce.

“É o começo de uma floresta fantasma”,afirmaBergh,48,gerentedoprogramaparaosulda Flórida da Nature Conservancy, organização internacional para a proteção do ambiente.

Ele vive na ilha desde 1999 e explica que o turismo e a pesca comercial são as principais atividades da região, cuja população é formada majoritariamente por brancos (78,7%), de classe média e aposentados, que buscam temperaturas amenas no inverno.

Durante a temporada de furacões —de junho a novembro—, todos precisam ficar em alerta para deixar a ilha em caso de emergência. Apesar do aviso oficial, que obriga a saída dos moradores antes da tempestade, não são todos os que têm outro lugar para ir.

Bergh conta que costumava permanecer em Big Pine durante a passagem dos furacões, mas, desde 2005, quando começou a estudar o impacto da crise climática —e teve a própria casa atingida por duas tempestades—, resolveu mudar de comportamento.

A abordagem mais eficaz na tentativa de chamar a atenção das pessoas, porém, é a econômica. “Explicamos que, com a água subindo, o valor da propriedade aqui despenca. Por enquanto, a região ainda é desejável, mas, em algum momento, se a elevação do nível do mar seguir acelerando, vai ser mais arriscado e menos confortável ficar. Vamos ter que andar com a água no joelho para chegar em casa ou ir a restaurantes.”

“Estou aqui há um bom tempo e posso dizer que o furacão Ida foi o pior de todos. Eram 25 casas antes dele, sobraram sete. Uma desgraça completa

Albert Naquin

chefe da tribo BiloxiChitimacha-Choctaw

Bergh afirma que várias organizações e os governos local, estadual e federal têm ajudado na proteção, mas que, a esta altura, só é possível ganhar tempo para a sociedade entender que algo precisa ser feito.

Entre as medidas estão a proibição da caça do veado key, a remoção de espécies invasoras, a restauração de terras via água doce, a abertura de clareiras para controlar fogos e a compra de terrenos pelo governo para que novas casas não sejam construídas.

Em Big Pine Key, nossa última missão era tentar encontrar um dos veados ameaçados de extinção. Não foi difícil. Quando a chuva cessou, eles se multiplicaram no meio da estrada e entre as casas, comendo a grama dos jardins.

estão acostumados com a gente, parecem cachorros”, contou Pam. Ela vivia do outro lado da ilha com o marido, Randy, em uma casa de madeira, que acreditava não ser forte o suficiente para resistir aos furacões. Neste ano, compraram um imóvel feito de concreto. “Meus filhos continuam dizendo: um dia essa casa será engolida pela água. E eu respondo que não me importo, que estarei morta quando isso acontecer.”

Nosso

próximo destino era Jean Charles, na Louisiana, onde moradores sabem que o dia em que será impossível ficar na ilha está cada vez mais perto. A maioria deles é de origem indígena, da tribo Biloxi-Chitimacha-Choctaw, e viu o local perder 98% do território em 66 anos —dos cerca de 89 km², sobrou 1,3 km².

O chefe da tribo, Albert Naquin, 75, nos recebeu na parte continental. De calça de moletom, tênis e boné, sentouse em frente à casa de tijolos em que vive, a 20 km de Jean Charles, para explicar por que decidiu deixar a ilha em 1995.

“Algo mudava. A água estava subindo, e entendemos que, em algum momento, não teríamos mais aquele pedaço de terra. Vai virar tudo água.”

O ponto de virada para muitos moradores, afirma ele, foi em 2002, com a passagem do furacão Lili. Naquele ano, Jean Charles atingiu o pico de 350 habitantes, número que min“Eles guou até os pouco mais de 20 registrados hoje. “Era insustentável continuar ali, reconstruindo tudo após cada furacão.”

O pior de todos, porém, havia passado menos de um mês antes da nossa conversa. Em 29 de agosto, o Ida devastou a ilha e várias cidades da região, inclusive parte de Montegut, onde vive Naquin. “Estou aqui há um bom tempo e posso dizer que o Ida foi o pior de todos. Eram 25 casas, sobraram 7. Uma desgraça completa.”

Os ventos do Ida chegaram a 240 km/h e duraram quase oito horas, deixando 96 mortos e 1 milhão de pessoas sem luz em todo o estado. Naquin diz que a recuperação é lenta e que os moradores ainda não haviam retornado a Jean Charles naquele 25 de setembro. Ele estava certo. Quando chegamos à ilha, havia menos de dez pessoas espalhadas pela Island Road, a única rua da península, tentando se livrar dos entulhos e dos mosquitos.

Benny Dardar, o personagem que abre esta série, molhava os braços com álcool para tentar afastar os insetos, enquanto criava espaços entre os destroços para fincar no terreno onde era a sua casa uma bandeira estilizada dos EUA, com o desenho de um índio no meio.

“Deslocados pela crise do clima sofrem praticamente as mesmas consequências de deslocados devido a conflitos. Saem de casa sem saber quando ou se vão voltar”, diz Kayly Ober, gerente do programa de deslocamento climático da Refugees International.

Autor: CAOS CLIMÁTICO PÕE MODELO AMERICANO NA ROTA DO COLAPSO

Fonte: pressreader.com/Folha de S.Paulo