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Biden diz que não quer Guerra Fria e dá recado à China

22/09/2021 08h32
Americano e chinês adotam tom semelhante em falas na ONU e mandam recados sem citar o respectivo maior rival
Biden diz que não quer Guerra Fria e dá recado à China

Sem citar especificamente o principal rival político e econômico dos Estados Unidos, Joe Biden afirmou em discurso na ONU que seu país não procura uma nova Guerra Fria.

O presidente enviou, no entanto, uma série de recados à China.

SÃO PAULO Sem citar especificamente o principal rival político e econômico dos EUA, o presidente Joe Biden afirmou em discurso na 76ª Assembleia-Geral da ONU, nesta terça (21), que seu país não procura uma nova Guerra Fria, embora ele tenha enviado uma série de recados à China.

“Defenderemos nossos aliados e amigos e vamos nos opor às tentativas de países mais fortes de dominar outros mais fracos, seja pela força, por coerção econômica, exploração tecnológica ou desinformação. Mas não estamos procurando uma nova Guerra Fria ou um mundo dividido em blocos rígidos”, disse.

Biden afirmou que o país defende a liberdade de navegação, em referência às reivindicações chinesas no Mar do Sul da China; posicionouse contra ataques cibernéticos, que o país acusa os asiáticos de coordenarem; e citou Xinjiang, região de minoria muçulmana na qual os EUA consideram haver genocídio.

Na abertura da sessão, o secretário-geral da ONU, António Guterres, já havia alertado para os problemas provocados por uma “divisão global em dois sistemas”. “É a receita para problemas. Isso seria muito mais imprevisível do que a Guerra Fria”, afirmou.

Apesar das críticas, o discurso de Biden focou a necessidade de os países trabalharem juntos para enfrentar o coronavírus e a crise climática.

Ele prometeu dobrar para US$ 11,4 bilhões (R$ 60,3 bi) as doações americanas ao fundo internacional para países em desenvolvimento combaterem as mudanças climáticas e doar US$ 10 bilhões (R$ 53 bi) para o combate à fome.

O democrata enfrenta forte pressão internacional. O episódio mais recente envolve a França, depois de os EUA anunciarem parceria com o Reino Unido para fornecer à Austrália submarinos nucleares —ação que visa conter avanços regionais da China. O acordo significou o fim de uma negociação australiana com a França, que viu o caso como uma “punhalada”.

Sob desconfiança europeia, Biden usou o espaço na ONU, em seu primeiro discurso em uma Assembleia-Geral como presidente, para reafirmar a posição de que “os EUA estão de volta” ao cenário global, depois que seu antecessor, Donald Trump, abandonou fóruns e acordos multilaterais.

O americano também procurou se defender de outro episódio pelo qual sofreu críticas da comunidade internacional: a conturbada retirada das tropas do Afeganistão após duas décadas de ocupação militar. A operação foi atacada pela atuação unilateral dos americanos e pelas cenas de caos vistas após a volta do Talibã ao poder.

“Encerramos 20 anos de conflito no Afeganistão e, à medida que encerramos essa era de guerra sem fim, estamos nos abrindo para uma nova era de diplomacia sem fim”, disse Biden na ONU.

Quando a operação de retirada foi concluída, o tom do presidente americano foi distinto. Na ocasião, lembrou que os EUA estão em uma séria competição com China e Rússia e que sua principal missão não é “proteger a América das ameaças de 2001, mas das ameaças de 2021 e de amanhã”.

Apesar de o presidente da sessão, Abdulla Shahid, pedir que líderes limitassem suas falas a 15 minutos, Biden discursou por mais de 30 minutos e foi aplaudido ao final. “Nós vamos escolher construir um futuro melhor. Nós, vocês e eu.”

Horas depois da fala do americano, o líder chinês, Xi Jinping, também discursou e mandou recados aos Estados Unidos, mas sem citar o país.

Xi criticou o intervencionismo americano em outras nações e usou o exemplo da turbulenta retirada das tropas americanas do Afeganistão.

“Episódios recentes no cenário internacional mostram, mais uma vez, que a intervenção militar estrangeira e a chamada ‘transformação democrática’ podem não trazer resultado nenhum além de dano”, disse ele, referindo-se implicitamente ao retorno do Talibã ao poder no país.

Xi disse ainda que “democracia não é um direito especial reservado a um país”.

Xi defendeu que “diferenças e problemas entre países precisam ser superadas por diálogo e cooperação na base da igualdade e do respeito mútuo”, ainda que tenha se referido de forma implícita várias vezes ao intervencionismo americano.

“A China nunca invadiu nem nunca vai invadir ou humilhar outro país ou tentar alcançar a hegemonia. A China constrói paz, contribui para o desenvolvimento global e defende a ordem internacional”, disse.

Segundo o líder do gigante asiático, “o sucesso de um país não deve significar o fracasso de outro”. “O mundo é grande o suficiente para acomodar o progresso de todos os países.”

Em referência à parceria anunciada por EUA e Reino Unido para armar a Austrália com submarinos nuclearas, Xi disse que é preciso “rejeitar a prática de formar pequenos círculos” e defendeu que a ONU seja “a plataforma central para países conjuntamente salvaguardarem a segurança universal e traçarem o curso para o futuro”.

Xi dirigiu boa parte de seu discurso aos países emergentes e prometeu doar 100 milhões de doses de vacina contra a Covid além das 100 milhões já anunciadas pelo consórcio Covax Facility.

O dirigente chinês propôs ainda a criação de um fórum com objetivos globais pelo desenvolvimento, para acelerar a implementação da agenda 2030 da ONU, que estabelece metas que os países devem alcançar para atingir o desenvolvimento sustentável.

Assim como Biden, Xi dedicou parte de seu discurso às mudanças climáticas. Ele afirmou que o país não vai financiar projetos mundo afora que usem energias baseadas em carvão —a China vinha sofrendo pressão internacional para tomar a medida. Xi não disse nada, porém, sobre as plantas de carvão domésticas. A China é o maior produtor de carvão do mundo.

Estou aqui para soar o alarme: o mundo deve acordar [...] Vivemos uma onda de desconfiança e desinformação que está polarizando as pessoas e paralisando sociedades António Guterres secretário-geral da ONU

“Defenderemos nossos aliados e amigos e vamos nos opor às tentativas de países mais fortes de dominar outros mais fracos [...] Mas não estamos procurando uma nova Guerra Fria Joe Biden presidente dos EUA

“Episódios recentes no cenário internacional mostram, mais uma vez, que a intervenção militar estrangeira e a chamada ‘transformação democrática’ podem não trazer resultado nenhum além de dano Xi Jinping líder chinês

“O que foi visto em nossa região prova que não apenas o sistema hegemônico, mas também o projeto de imposição de identidade ocidentalizada falharam miseravelmente Ebrahim Raisi presidente do Irã

Autor: Thiago Amâncio

Fonte: pressreader.com/Folha de S.Paulo