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BC levará Selic ‘aonde precisar’; mercado reduz projeção do PIB

15/09/2021 08h17
Previsões de bancos e consultorias para 2022 caem rapidamente; Banco Central mira controle da inflação
BC levará Selic ‘aonde precisar’; mercado reduz projeção do PIB

As projeções de bancos e consultorias para o crescimento do PIB em 2022 vêm caindo rapidamente e já não se descarta a possibilidade de uma pequena recessão como consequência da alta dos juros que o Banco Central vem promovendo para debelar a persistente elevação dos preços. O presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou que vai levar a Selic “aonde precisar” para controlar a inflação, mas não mudará o “plano de voo da política monetária” a cada novo número que for divulgado. Campos Neto também criticou a Petrobras por elevar os preços dos combustíveis mais rapidamente do que ocorre no exterior e foi rebatido pelo presidente da estatal, Joaquim Silva e Luna.

“Não tem puxador de PIB”, disse o economista José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados, que reduziu para 0,4% a previsão de crescimento do PIB em 2022. A nova onda de revisão das projeções do PIB foi puxada pelo Itaú Unibanco, que cortou sua estimativa de crescimento para 2022, de 1,5% para 0,5%.

Derreteram rapidamente as projeções de bancos e consultorias para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), e já há apostas de alta só de 0,4% em 2022. Não está descartada a possibilidade de uma pequena recessão no rastro do aperto maior de juros que o Banco Central (BC) está tendo de fazer para debelar a alta persistente dos preços.

O cenário de esfriamento da atividade econômica é uma ducha de água fria para o presidente Jair Bolsonaro, que já esperava chegar ao ano eleitoral com o PIB em franca recuperação.

Essa segunda forte onda de revisão das previsões de PIB foi puxada ontem pelo Itaú Unibanco, que cortou numa tacada um ponto porcentual da sua estimativa de crescimento para 2022, de 1,5% para 0,5% (mais informações na página B3).

A consultoria MB Associados, com larga experiência no acompanhamento do “Brasil real”, foi ainda mais agressiva no corte da previsão do PIB, que passou de 1,4% para 0,4%. A XP Investimentos reduziu de 1,7% para 1,3%, e o Banco BV de 1,8% para 1,5%.

Na última segunda, o BTG já tinha baixado a previsão para o próximo ano de 2,2% para 1,5%, com juros mais altos, por volta de 8,5%, para reduzir a alta de preços. Se a taxa Selic subir além de 8,5%, o BTG avalia que terá de reduzir mais uma vez o crescimento de 2022.

O Santander também está em processo de revisão do PIB, com projeção nova marcada para sair amanhã. O banco está com uma estimativa atual de alta de 2%, que deve cair. Até anteontem, a pesquisa Focus do BC (feita com os analistas do mercado financeiro) apontava uma alta do PIB mais próxima de 2%, em 1,72%.

Pressionado pelo mercado e pelo governo com a disseminação e a persistência da inflação, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse que vai levar a Selic “aonde precisar” para controlar a alta de preços, mas que não vai mudar o “plano de voo de política monetária” a cada número novo de alta frequência de inflação divulgado.

“Não tem puxador de PIB. Não é fora de propósito uma pequena recessão no ano que vem. Não dá mais tempo para mudar”, disse ao Estadão o economista José Roberto Mendonça de Barros, da consultoria MB Associados. O diagnóstico é ruim: as exportações não vão aumentar mais, o crédito está pressionado pelos juros em alta, o consumo esfriando e os investimentos continuarão baixos.

A agricultura, que teve crescimento no primeiro trimestre porque a safra de verão da soja foi muito boa, já não responde da mesma forma. Para complicar, a seca e três geadas num único mês piorou o quadro, que se juntam aos efeitos da crise hídrica e uma difusão da inflação acima de 70%. A previsão da MB para a Selic – que estava um pouco acima de 6% – agora é de 8,3%.

Com a entrada da nova bandeira de energia em setembro, prevê Mendonça de Barros, o IPCA deve fechar em 1% no mês e no acumulado em 12 meses passar de 10%. Para ele, o BC vem correndo “atrás da curva” – termo usado no jargão do mercado para dizer que está atrasado no processo de alta – desde o ano passado e vai agora puxar os juros para cima.

Segundo o economista da XP Rodolfo Margato, o principal fator que levou a redução da estimativa de PIB para 1,3% foi o aperto da política de juros mais intenso para o controle da inflação. A XP elevou a expectativa de juros de 7,25% para 8,5%. “Essas altas corroem as condições de financiamento, o que pesa sobre os níveis de investimento e consumo, especialmente de bens duráveis”, diz Margato.

Já o ministro da Economia, Paulo Guedes, chamou de “rolagem de desgraça” o pessimismo de economistas. Ele disse que, não fosse o que ele chama de “barulho político”, o câmbio de equilíbrio no Brasil estaria hoje entre R$ 3,80 e R$ 4,20 – a moeda americana fechou ontem em R$ 5,26. “Esse dólar já era para estar descendo, mas barulho político não deixa descer. Não tem problema (dólar mais alto ), mais tempo para exportações. O importante é continuar fazendo tudo certo”, afirmou, em evento promovido pelo BTG Pactual.

Autor: Adriana Fernandes / COLABORARAM EDUARDO RODRIGUES, THAÍS BARCELLOS, IDIANA TOMAZELLI e LORENNA RODRIGUES

Fonte: pressreader.com/O Estado de S. Paulo