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Apuração final no Peru dá vantagem à esquerda

11/06/2021 09h45
Festa. Mesmo com provável contestação, militantes se reuniram para ouvir Castillo no centro de Lima
Apuração final no Peru dá vantagem à esquerda

Faltando apurar menos de 1% dos votos na eleição presidencial no Peru, a vantagem do esquerdista Pedro Castillo tornou-se ontem irreversível e foi celebrada no centro de Lima. A conservadora Keiko Fujimori, que teve a prisão pedida por um procurador, pretende contestar os resultados.

Instabilidade. Autoridades estavam perto de concluir contagem com Pedro Castillo na liderança, com vantagem pequena sobre candidata conservadora, que garante ter provas de fraude, tenta impugnar 200 mil votos e promete contestar atas eleitorais que estão sub judice

Faltando apurar menos de 1% dos votos do segundo turno das eleições presidenciais no Peru, a vantagem do esquerdista Pedro Castillo tornouse ontem irreversível. Ele mantém uma liderança que oscila entre 65 mil e 70 mil votos sobre a candidata conservadora Keiko Fujimori, que garante ter provas de fraude e promete contestar os resultados.

Apesar de ainda faltar pouco mais de 100 mil votos para serem contados, boa parte deles vem de redutos de Castillo. Com a possibilidade de ganhar a eleição se fechando, Keiko se concentra agora nas tentativas de impugnar atas eleitorais. Ela pede anulação de cerca de 200 mil votos e diz ter vídeos para provar as acusações. No entanto, observadores internacionais até agora garantem que o processo eleitoral ocorreu normalmente.

Outra frente de batalha da candidata são os votos que estão sub judice, que foram marcados com algum tipo de irregularidade, como dados ilegíveis, rasuras e dúvidas sobre assinaturas. Uma primeira análise será feita pelo Júri Especial de Eleições (JEE), que funciona como primeira instância, com a decisão final, se necessária, tomada pelo Júri Nacional de Eleições (JNE).

O cenário mais provável, no entanto, é a confirmação da terceira derrota seguida de Keiko em eleições presidenciais – ela perdeu para Ollanta Humala, em 2011, e para Pedro Pablo Kuczynski, em 2016. Como se não bastasse, ela ainda terá de enfrentar os tribunais.

Ontem, José Domingo Pérez, procurador da equipe especial da Lava Jato peruana, pediu a prisão preventiva de Keiko, acusada de ter se reunido indevidamente com uma testemunha do caso Odebrecht. “Determinou-se novamente que a acusada, Fujimori Higuchi, cumpra a determinação de não se comunicar com testemunhas. E se tornou público e notório que ela se comunica com a testemunha Miguel Torres Morales”, afirmou o procurador.

Na entrevista coletiva que Keiko concedeu na quarta-feira, quando anunciou que pediria a revisão de 802 atas de votação – o que representa cerca de 200 mil votos –, ela apareceu ao lado de Torres Morales, que é testemunha de acusação no caso Odebrecht e prestou depoimento, em setembro de 2020, na presença da advogada de Keiko, Giulliana Loza.

Pessoas próximas à campanha de Keiko disseram ao Estadão que Torres Morales se tornou um porta-voz informal da campanha desde que ela passou para o segundo turno. Ex-congressista, Torres Morales é amigo de Keiko há anos e afirma que apenas tratou de temas de campanha com a candidata.

Keiko é investigada por receber dinheiro ilegal da construtora brasileira Odebrecht para as campanhas de 2011 e 2016, mas nega as acusações. Como não foi condenada, ela teve sinal verde para se candidatar à presidência.

Em março, Pérez pediu uma pena de 30 anos e 10 meses de prisão para Keiko pelos delitos de lavagem de dinheiro, crime organizado, obstrução de justiça e declaração falsa em processo administrativo. Se não vencer as eleições, Keiko pode ser julgada. Caso vença, seu processo será suspenso até que ela deixe o cargo.

Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, Keiko ficou em prisão preventiva por 1 ano e 4 meses, em 2020. Agora, o juiz Víctor Zúñiga Urday deve convocar uma audiência para ouvir os argumentos do procurador e da defesa de Keiko, mas ainda não há uma data definida.

Castillo, que já se declarou vencedor das eleições, recebeu ontem uma série de congratulações ao longo do dia de muitos líderes, ativistas e chefes de governo, principalmente de aliados, como os presidentes boliviano, Luis Arce, e o argentino, Alberto Fernández.

Já considerando a eleição peruana um caso perdido, Jair Bolsonaro lamentou a vitória de Castillo. “Perdemos agora o Peru”, disse Bolsonaro, durante discurso em Anápolis (GO), na quarta-feira. “Vai reassumir um cara do Foro de São Paulo.”

Autor: Fernanda Simas

Fonte: pressreader.com/O Estado de S. Paulo