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'América Latina vive o pior momento dos últimos 30 anos', afirma diretor da HRW

04/12/2021 17h43
Pessimista, José Miguel Vivanco, diretor para as Américas da ONG, crê que o enfraquecimento e o descrédito da democracia criaram terreno fértil para populismo na região
'América Latina vive o pior momento dos últimos 30 anos', afirma diretor da HRW

Hugo Chávez o expulsou da Venezuela, acusando-o de fazer “o trabalho sujo do império”. Álvaro Uribe disse-lhe, gritando, que ele era “o embaixador das Farc em Washington”, furioso com uma pergunta que ele fez sobre “falsos positivos” na Colômbia durante um jantar com autoridades e congressistas americanos no Capitólio. Com Fidel Castro, ele negociou a libertação de presos políticos a noite toda, em Havana, até 4h.

— Fidel perdeu o controle, bateu na mesa, apontava o dedo para mim o tempo todo. Eram documentos, café e água, e um fotógrafo que não parava de tirar fotos a noite toda — lembra o advogado chileno José Miguel Vivanco, de 60 anos, diretor da ONG Human Rights Watch (HRW) para as Américas.

Depois de quase três décadas na HRW, Vivanco crê que chegou o momento de abrir um novo capítulo e antecipa sua saída da organização em entrevista ao La Nación. Ele vai continuar em Washington, na mesma luta. Não está otimista com a região, mas também não é apocalíptico. E acredita que o enfraquecimento e o descrédito da democracia criaram um terreno fértil para o populismo.

Como a América Latina e a democracia mudaram desde os anos 1980?

Infelizmente estamos em um momento muito ruim, provavelmente o pior dos últimos 30 anos. A década de 1980 representou, em geral, uma época de brutalidade oficial em meio à Guerra Fria, onde a repressão era justificada com base na ideologia das vítimas ou de seus governos. A década de 1990 foi para quase toda a região um período de consenso democrático, com muitos governos comprometidos, pelo menos por retórica, com a universalidade dos direitos humanos. Mas tudo se quebrou e a América Latina se fragmentou com a chegada dos governos bolivarianos liderados por Hugo Chávez e seu desprezo pela democracia representativa. Após uma tentativa fracassada de golpe militar, Chávez chegou ao poder por meios eleitorais e promoveu com sucesso a noção de que a separação de poderes, a independência judicial e a liberdade de expressão não eram valores dignos de respeito. A influência de Chávez e sua comitiva, aliada ao progressivo descrédito da democracia como modelo de governo capaz de melhorar os serviços públicos, combater a corrupção, a insegurança e a desigualdade, abriram caminho para opções populistas de todos os tons que hoje proliferam no calendário eleitoral.

E a pandemia?

A pandemia deixou a região mergulhada em um aprofundamento da pobreza que provavelmente levará a protestos maciços, reprimidos com violência pela polícia em diversos países. Nesse contexto, consolidaram-se na região duas ditaduras, na Venezuela e na Nicarágua, que se somam à ditadura cubana, e vários países sujeitos a dirigentes autoritários eleitos democraticamente, mas que agem com desprezo pelo Estado de direito e as liberdades públicas.

Está otimista?

Otimista, não. Nem tenho uma visão apocalíptica. A principal prioridade é defender o que temos. Não há dúvida de que estamos passando por uma maré ruim. Tudo é politizado, ideologizado. Preciso entender que está em jogo, em disputa, a adesão ao sistema democrático, à democracia representativa.

O que melhorou e o que ainda precisa melhorar?

Os avanços nunca são lineares ou permanentes, e as ameaças de retrocessos estão na esquina. Talvez o progresso mais importante tenha ocorrido primeiro com a proteção do direito ao voto, depois com o desenvolvimento de garantias processuais e, ao mesmo tempo, com o surgimento de um consenso regional contra a impunidade por graves violações dos direitos humanos. Mas temo que, com a fragilidade de nossos sistemas democráticos, esses avanços sejam precários e instáveis. Um ator importante que poderia fazer muito mais em defesa da independência judicial, do meio ambiente e da transparência, é o setor privado. Os empresários têm um peso importante, mas muitas vezes, pelo oportunismo, evitam esse debate.

Como vê o papel dos EUA?

Nos últimos 30 anos, os EUA desempenharam um papel fundamental na promoção dos direitos humanos e da democracia na região. Infelizmente, com Donald Trump, isso mudou a partir do minuto que não havia nem adesão ao sistema democrático interno. As tendências despóticas de Trump prejudicaram seriamente a democracia nos EUA e geraram antecedentes perigosos que estimulam os aprendizes de caudilhos a imitar a fórmula populista que governou Washington.

Após quase 30 anos na Human Rights Watch, que mensagem deixa?

A mensagem é simples: não se deixe seduzir pelas sereias de demagogos populistas. Nossas democracias até agora não têm feito o suficiente para combater a desigualdade, a insegurança e a corrupção. Precisamos fortalecer nossas democracias e nosso compromisso com o Estado de direito. Nada de bom pode vir dos populistas, de esquerda ou de direita, que prometem melhorias às custas da destruição das instituições democráticas.

*O Grupo de Diarios América (GDA), do qual O GLOBO faz parte, é uma rede de veículos líderes em seus países fundada em 1991, que promove os valores democráticos, a imprensa independente e a liberdade de expressão na América Latina através do jornalismo de qualidade. 

Autor: Rafael Mathus Ruiz, do La Nación/GDA

Fonte: oglobo.globo.com