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Estados decidem se vacinam menores, diz Lewandowski

22/09/2021 08h34
Suspender a imunização de adolescentes é tentativa de justificar o injustificável
Estados decidem se vacinam menores, diz Lewandowski

O ministro do Supremo Ricardo Lewandowski determinou que cabe a estados, municípios e Distrito Federal a decisão de vacinar adolescentes de 12 a 17 anos. O Ministério da Saúde havia recomendado interromper as doses para esse grupo.

Recentemente, tivemos outra tentativa de justificar o injustificável na pandemia. Tentando cobrir a falta de vacinas em um país que tem Programa Nacional de Erradicação e Prevenção da Febre Aftosa para o gado, mas não tem Programa Nacional de Combate à Covid, o ministro da Saúde justificou a suspensão da vacinação em adolescentes “por conta desses eventos adversos” citando a “miocardite provocada pela vacina”. O ministro, super atento aos eventos adversos em adolescentes, parece não prestar atenção em outro número importante: o de mortos pela Covid no Brasil.

Nos EUA, onde foi levantada a possibilidade de adolescentes sofrerem a inflamação do músculo do coração (a miocardite) como efeito adverso da vacina da Pfizer-BioNTech, os números são tranquilizadores. Até 16 de julho de 2021, cerca de 8,9 milhões de adolescentes com idades entre 12 e 17 anos foram vacinados. Entre eles, foram registrados 9.246 eventos de efeitos adversos no sistema americano de registro de eventos provocados por vacinas. O que representa por volta de 1 adolescente para cada 1.000 vacinados. E 90% deles tiveram efeitos leves como tontura ou mal-estar.

Foram registrados 397 casos de miocardite e a maioria respondeu bem ao tratamento em dias. São menos de 45 casos por milhão de adolescentes vacinados. Algo detectável graças ao grande acompanhamento de segurança de vacinação. Também foram registradas 14 mortes nesse grupo etário, que não necessariamente estão ligadas à vacina, por causas como embolismo pulmonar e suicídio. Nenhuma delas relacionada à miocardite.

O IBGE estima por volta de 19,5 milhões de brasileiros entre 12 e 17 anos em 2020. Se vacinarmos todos eles e registrarmos uma proporção parecida de efeitos adversos por aqui, esperaríamos por volta de 900 casos de miocardite. Em nome de menos de 1.000 casos desse tipo de complicação, a Saúde diz suspender a vacinação que protegeria quase 20 milhões de brasileiros. Enquanto Europa e EUA precisam decidir como priorizar jovens entre os quais a doença não é tão grave, aqui a decisão é outra.

EUA, Reino Unido, Itália, Alemanha, Espanha, França e Coreia do Sul registraram juntos 231 mortes por Covid entre menores de 18 anos até fevereiro de 2021. No Brasil, segundo Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (SIVEPGripe), registramos oito vezes mais mortes nesse grupo do que em todos esses países somados até setembro de 2021.

Aqui, a Covid já é a maior causa de mortes por doenças entre quem tem de 10 a 19 anos. Já registramos 641 mortes de brasileiros entre 12 e 17 anos. Já perdemos quase tantos adolescentes para a Covid quanto veríamos casos de adolescentes com miocardite temporária se tivéssemos vacinado eles. Isso sem falar nos milhares que terão complicações por conta da Covid, como problemas pulmonares, renais e outros, que podem durar o resto da vida, até onde sabemos.

Nossa falta de ação contra a Covid já impôs quase 600 mil mortes no país. E por baixo desse número ainda temos situações pavorosas como sermos o 2º país com mais mortes de crianças pela doença.

Para um país que não discute ações contra o coronavírus e no qual o ministro da Saúde reclama do uso de máscaras em escolas, a vacinação de adolescentes cumpre dois papéis. Primeiro, o de diminuir o número de vulneráveis que podem contrair e transmitir a Covid, motivo que leva outros países —como os europeus— a vacinarem seus jovens. E também o de diminuir o número de mortes evitáveis pela doença em uma população que ainda deveria ter muita vida e um país decente pela frente.

Autor: Atila Iamarino Doutor em ciências pela USP, fez pesquisa na Universidade Yale. É divulgador científico no YouTubae em seu canal pessoal e no Nerdologi

Fonte: pressreader.com/Folha de S.Paulo