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Bastidores: com mensagem no LinkedIn e 30 minutos de conversa, saiba como o Botafogo entrou na vida de Textor

17/01/2022 17h16
Brasileiros convenceram empresário a investir no clube alvinegro, que viveu longo processo interno nos últimos anos até a aprovação da oferta vinculante do americano; veja detalhes
Bastidores: com mensagem no LinkedIn e 30 minutos de conversa, saiba como o Botafogo entrou na vida de Textor

Em 12 de julho de 2021, o Botafogo começou a entrar na vida de John Textor. Nesse dia, o americano recebeu uma mensagem no LinkedIn, a rede social de contatos profissionais, que abordava um projeto no Brasil. De início, não deu muita atenção, disse que não tinha tempo.

Mas a dupla que havia enviado a mensagem tirou uma carta da manga: um diploma de mestrado em negócios na conceituada Universidade de Yale, nos EUA. Textor deu 30 minutos para que dois brasileiros, Thairo Arruda e Danilo Caixeiro, apresentassem suas ideias. O Botafogo começou a mudar de mãos ali.

- Não foi nada sexy. Foi quase como Tinder. Mas ele ouviu nosso projeto e começou a confiar na gente - brinca Thairo, de 37 anos.

- Passamos a nos falar semanalmente - completa Danilo.

O paulista Thairo e o carioca Danilo se conheceram em Yale. Concluíram o curso em 2019 e passaram 2020 em Portugal prospectando projetos e um sonho: queriam comprar um clube de futebol. Chegaram a negociar com a Académica de Coimbra.

Voltaram ao Brasil em 2021 e trabalharam como consultores pro bono no projeto das SAFs no Senado. Ali vislumbraram a oportunidade que se desenhava e fundaram uma empresa, a Matix Capital, com objetivo de assessorar investidores que quisessem comprar clubes brasileiros.

 

Em junho, o Senado aprovou o projeto das SAFs - que ainda passaria por outras votações no Congresso até ser sancionado em setembro. Cruzeiro e Botafogo assinaram contratos com a XP investimentos para a busca de interessados na compra do futebol dos clubes. Em outubro, estava claro que o Botafogo provavelmente subiria para a Série A e que o Cruzeiro permaneceria na B.

Thairo e Danilo sabiam que o foco de Textor era um clube de Primeira Divisão e começaram a convencer o americano de que “The Glorious One” era uma boa oportunidade. Textor resistia. Ele temia eventuais confusões políticas e examinava duas outras oportunidades no Brasil.

 

- Mas esses dois brasileiros não paravam de me dizer que o Botafogo valia a pena - contou o americano.

Do outro lado, a XP, liderada por Pedro Mesquita e Luiz Eduardo Peiter, vendia o projeto do Botafogo com o argumento de que o clube estava maduro. Tanto o CEO Jorge Braga como o presidente Durcesio Mello viam a venda como um caminho necessário.

No lado de Textor, Thairo e Danilo viam no clube alvinegro três fatores positivos em comparação com os outros candidatos analisados: maior potencial de receita, mais capacidade de atrair atletas por estar num grande centro, o Rio de Janeiro, e facilidade de internacionalização da marca. Em novembro, o Botafogo garantiu o acesso. Thairo e Danilo aceleraram o passo. Apesar do ano de reestruturação, a situação financeira seguia muito difícil.

Logo depois do anúncio do acerto entre Ronaldo e Cruzeiro, em 18 de dezembro, o CEO da XP, José Berenguer, elogiou a negociação do clube mineiro e postou em seu LinkedIn a seguinte frase: "O Botafogo será o próximo".

- A XP teve um trabalho fundamental. E a reestruturação que o clube fez ajudou nisso. Criou uma percepção no mercado de que o Botafogo poderia ser um bom investimento - diz Jorge Braga.

Três dias depois, em 21 de dezembro, o Botafogo recebeu a oferta não vinculante enviada pela Eagle Holding, o grupo de Textor. O clube convocou uma junta para examinar o documento: o CEO Jorge Braga, os advogados André Chame (da KCB advogados), Francisco Müssnich e Thiago Frazão (ambos do BMA advogados) e o economista Laércio Paiva.

 

Laércio e Chame fizeram parte de um grupo que, durante dois anos, tentou botar de pé um projeto de S/A para o clube. Esse grupo contava com o então presidente Nelson Mufarrej, os ex-presidentes Carlos Augusto Montenegro e Carlos Eduardo Pereira e vários ex-dirigentes do clube como Manuel Renha, Paulo Mendes, Marcelo Murad, Cláudio Good, Paulo Novis e Ricardo Rotenberg.

O economista Gustavo de Almeida Magalhães participava também do time, que se reunia na sala 3 do escritório da KCB Advogados, no Centro do Rio de Janeiro.

Em 2021, depois de dois meses no leme do clube, Braga procurou Laércio em São Paulo para ouvir sua visão sobre a situação do clube. O economista tinha submergido em novembro de 2020, quando enviou uma carta a investidores encerrando o chamado Projeto A da S/A.

 

- Eu pedi ajuda do Laércio no processo porque ele é um craque de finanças e contratos e conhecia a situação do Botafogo como poucos. Ele só me pediu uma coisa: para não aparecer - diz Braga.

No dia 23 de dezembro, o ge publicou que o clube havia recebido oficialmente uma proposta não vinculante para comprar 90% das ações da SAF que o clube estava registrando. A reportagem contava também as pressões internas no clube - do grupo ligado a Gustavo de Almeida Magalhães que, incomodado com a exclusividade do contrato da XP, tentou emplacar outra proposta, o Projeto B.

 

O site "Fogao.net" chegou a citar a existência de uma oferta de R$ 700 milhões. Nos bastidores, a XP dizia que a proposta não existia.

- Não era uma proposta, e sim um grupo que dizia que buscaria investimentos. Ou seja, a mesma coisa que nós fazemos - disse um executivo da XP.

Após receber a primeira oferta de Textor, o Botafogo alinhou rapidamente uma resposta com algumas alterações e devolveu para que o investidor avaliasse. No dia 24 de dezembro, as duas partes assinaram a oferta não vinculante e começaram a planejar os passos seguintes, que seriam trocar documentos e aprofundar detalhes contratuais para assinar a chamada oferta vinculante.

 

Enquanto isso, o presidente Durcesio Mello buscava equilibrar os pratos. De um lado, ouvia críticas de quem considerava que o grupo liderado por Magalhães havia sido tratado injustamente. De outro, seguia em frente nas negociações com a XP. Em mensagem no Twitter, o deputado federal Rodrigo Maia chegou a questionar se a venda não tinha sido apressada, no que foi seguido por outro deputado, Pedro Paulo.

Coube a Carlos Augusto Montenegro, amigo de Durcesio, decretar o fim das hostilidades quando anunciou numa mensagem em grupos de WhatsApp.

- É o melhor negócio da vida. Estou muito feliz. Muda a história do clube. Parabéns ao presidente Durcesio, ao Jorge Braga e à XP.

Montenegro foi mais longe. Disse que o investimento de Textor era, na verdade, de R$ 1,4 bilhão, porque ele assumia a dívida do clube. Rodrigo Maia postou então que tinha recebido uma ligação do ex-presidente alvinegro defendendo a transação. No dia 25, Braga telefonou para Montenegro para desejar feliz Natal.

- Nesse cenário todo, Durcesio foi a ponte entre passado e futuro - comenta o CEO.

A partir daí foram dez dias de videoconferências entre advogados e assessores. No início de janeiro, sobrava um grande impasse: o tamanho do investimento assegurado por Textor no futebol da nova SAF. O clube queria garantir performance esportiva no campo. Os assessores do americano queriam margem de manobra para o investimento.

Apesar dessa dificuldade, Textor estava tão confiante no acerto que comprou passagem para o Rio de Janeiro, com embarque no dia 6 de janeiro.

O impasse só foi solucionado numa videoconferência realizada pouco antes do embarque. Textor viajou, fez escala em São Paulo e chegou ao Aeroporto Santos Dumont às 15h do dia 7. Foi recebido no aeroporto por Braga, Chame e uma centena de torcedores.

Depois da festa, entrou no carro dirigido por Braga e seguiu para seu hotel, em Ipanema. No caminho, passaram em frente ao casarão de General Severiano. Chame perguntou se podia dar a volta para mostrar o muro em frente à sede pintado com ídolos do clube. Textor aceitou.

- Olha ali... Aquele foi campeão mundial. Aquele também. O outro também – explicou o advogado.

Textor sorriu. Disse que tinha ficado emocionado com a torcida no aeroporto. E comentou:

- Precisamos dar um título para esses torcedores.

Tudo parecia acertado para a assinatura da oferta vinculante no dia seguinte, sábado, 8 de janeiro.

 

Tensão na reta final

 

Na manhã de sábado, 8 de janeiro, Textor chegou ao Estádio Nilton Santos às 10h e pediu para terminar de assistir à partida que o Crystal Palace disputava contra o Millwall pela Copa da Inglaterra. Enquanto o americano via o jogo, as duas partes conversavam. As cláusulas que garantiam performance esportiva no contrato soaram draconianas para Textor.

A previsão era que o contrato seria assinado às 11h, mas, assim que o jogo do Palace terminou, o americano quis revisar o documento inteiro com Thairo, Danilo e o advogado Jorge Gallo. Os representantes do Botafogo ficaram inquietos. Depois de uma espera de quatro horas, Textor pediu uma pequena adaptação e os últimos detalhes foram postos no papel.

O contrato só seria assinado pelo americano no dia seguinte, 9 de janeiro, num almoço na casa de André Chame, que tirou uma foto e brincou que iria guardar a caneta. Durcesio, isolado por Covid-19, não foi ao almoço e só assinou o documento na manhã seguinte.

- Foi um dia histórico para o clube. Uma festa maravilhosa. Estou muito emocionado. Trabalhamos duro pra isso - celebrou Durcesio.

Agora as partes terão de 40 a 60 dias para acertar a transferência definitiva dos ativos do clube para a nova SAF. A questão permanece: o que será desse novo Botafogo? Como Textor pretende remunerar seu investimento?

Uma pista pode estar numa declaração do americano ao tentar comprar 25% do Benfica. Lá, o investidor comentou que, apesar de ter uma das melhores divisões de base da Europa, o clube costuma vender seus talentos precocemente, o que impede uma performance melhor na Liga dos Campeões.

Na avaliação de Textor, isso ocorre porque, mesmo tendo ações na bolsa portuguesa, a SAD (Sociedade Anônima Desportiva) do Benfica não tem acesso a recursos substanciais. Com uma plataforma global de clubes, o americano pode vislumbrar, por exemplo, a abertura de capital dos clubes num centro financeiro capaz de atrair dinheiro robusto.

Se isso funcionar, seria possível pensar em investimento em várias pontas, gerando sucesso esportivo, retenção de talento, retorno financeiro e um círculo virtuoso? Será que isso é possível num cenário em que a economia americana reduz liquidez?

Por ora, começa a operar o Conselho de transição da nova SAF, que vai transferir os ativos do Botafogo para a nova empresa. Esse conselho terá três representantes do clube e dois de Textor: Braga, Chame e o controller Alessandro Langoni estão no grupo pelo lado alvinegro. Thairo e Danilo representam o investidor. Uma grande questão a definir é se Jorge Braga continuará na futura empresa. Textor quer a permanência do executivo.

A partir desta semana, a situação dos cofres alvinegros deve melhorar. O empréstimo-ponte de R$ 50 milhões deve entrar, aliviando contas em atraso e permitindo aumento na folha. Em março, na assinatura definitiva do contrato, haverá novo aporte.

O que esperar? Em entrevista ao podcast “Dinheiro em Jogo”, de Rodrigo Capelo, Thairo Arruda disse que os planos para o Botafogo não são tímidos:

- O Botafogo não é clube para alimentar outro clube na Europa. O Botafogo é gigante por conta própria.

No mesmo podcast, André Chame acrescentou:

- Foi um trabalho longo e cansativo. Agora é com mister Textor.

No futebol, os primeiros movimentos previstos são o investimento na contratação de jogadores e o aumento da folha salarial. O volante Rafael Carioca, do Tigres, é um dos primeiros na mira. Mas certamente não é o único.

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Fonte: globoesporte.globo.com