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'Meu remédio é mato', diz gari que cuida de horta de plantas medicinais no Parque Municipal de BH

29/08/2018 03h38
Exposição com espécies cultivadas no viveiro do parque é realizada toda última quinta-feira do mês.
'Meu remédio é mato', diz gari que cuida de horta de plantas medicinais no Parque Municipal de BH

“Meu remédio é mato”, disse a gari Maria Gonçalves Gomes rodeada de mudas de plantas medicinais em uma manhã de sol no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, no Centro de Belo Horizonte. A gari de 66 anos, uma das pessoas que cuida das ervas, contou que muitas mudas são doadas todos os meses para a população.

A iniciativa da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica da capital (FPMZB) é realizada sempre na última quinta-feira do mês na praça da administração. A exposição com espécies cultivadas no viveiro do parque é gratuita e vai das 9h às 12h30, chegando a atender até 500 pessoas por edição, segundo a fundação.

A cada mês são eleitas algumas ervas ou plantas medicinais para serem apresentadas aos frequentadores do parque, juntamente com dicas sobre o modo de conservação, utilização e preparo.

Os visitantes também têm a oportunidade de levar uma muda para casa. Entre algumas das espécies disponíveis estão o salsão, a pimenta malagueta, boldo, elevante, saião e melissa.

Maria Gomes mostra com orgulho as mudas e, com facilidade, vai dizendo os nomes de cada uma. “Plantinhas medicinais, de fazer chá, poejo, levante, hortelã, um punhado de coisas, meu filho. Coisa boa”, destaca a gari.

Natural de Dom Cavati, um município de menos de 5 mil habitantes na Região Leste de Minas Gerais, Maria contou que é de lá que vem tanto conhecimento sobre as plantas. “Da roça a gente sabe tudo, bobo”, conta.

A mineira disse que chegou em Belo Horizonte e se tornou funcionária na Superintendência de Limpeza Urbana (SLU). A gari trabalhou por 24 anos nas ruas e, já há algum tempo, dedica-se à plantação das mudas em um dos pontos verdes do centro da capital mineira.

“A gente tira as mudas lá e planta por aqui a fora. Planta aqui para doar, graças a Deus. Eu tenho maior amor pelas minhas plantas. Não gosto de tomar comprimido não. Só chá do mato”, revela Maria.
A bióloga do parque, Andrea Paiva, conta que a exposição é uma oportunidade para as pessoas conhecerem de perto a variedade de plantas medicinais. “Nem todas as espécies cultivadas no viveiro do parque têm mudas o suficiente para distribuição aos interessados, mas todas são colocadas na exposição para que as pessoas possam conhecer, sentir, tocar”, explica a bióloga.

'Farmácia da cozinha'

O médico especialista em terapia intensiva doutor José Ruguê destaca que as plantas medicinais podem ser usadas de duas maneiras: como temperos e chás, e também na forma de medicamentos fitofármacos e fitoterápicos.

“As plantas que nós temos em casa, na forma de temperos, – cominho, coentro, erva-doce, açafrão, manjericão, hortelã, noz moscada –, eles, por si, já podem ser chamados de farmácia da cozinha, farmácia de casa”, contou Ruguê, que também é professor responsável pela formação de vários terapeutas em Ayurveda, a medicina tradicional da Índia.

De acordo com ele, o uso das ervas medicinais pode trazem uma série de benefícios para a saúde.

“Acrescentar esses temperos, essas plantas, na nossa comida diária melhora a digestibilidade, aumenta a nossa imunidade, a nossa resistência, favorece a eliminação de toxinas do organismo”, explicou.
O especialista afirmou que é preciso avaliar quando as plantas são usadas como medicamentos fitofármacos e fitoterápicos. Segundo ele, dessa forma, são utilizados muitas vezes extratos, que concentram fortemente o princípio ativo da planta medicinal. “Existe um conceito no Ayurveda que tudo é remédio ou veneno de acordo com a dose, para quem e quando”, explicou.

Para Ruguê, esse é um conhecimento que deveria ser cada vez mais difundido. “Esse conhecimento, associado com o conhecimento cientifico, atual, deve ser espalhado para toda a população. Todas as pessoas deveriam conhecer e ter autonomia do uso das plantas na sua casa, para as suas necessidades básicas de saúde.”

Autor: Pedro Ângelo, G1 MG, Belo Horizonte

Fonte: https://g1.globo.com