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BH segue sem previsão para vacinar gestantes sem comorbidades contra a Covid-19

11/06/2021 09h04
A imunização deste grupo é defendida pelo Conselho Municipal de Saúde e por especialistas na área. Prefeitura diz que segue orientações do Ministério da Saúde, mas cidades como São Paulo e Fortaleza já retomaram este público-alvo.
BH segue sem previsão para vacinar gestantes sem comorbidades contra a Covid-19

Mesmo com a recomendação de especialistas da área e com autonomia para definir estratégias locais de vacinação, a Prefeitura de Belo Horizonte segue sem previsão de quando as gestantes sem comorbidades serão imunizadas contra a Covid-19.

A priorização deste grupo é defendida pelo Conselho Municipal de Saúde, que estuda, inclusive, buscar apoio do Ministério Público e da Defensoria Pública para acelerar o processo.

 

"Vários estados estão vacinando todas as gestantes. Nós precisamos proteger essas mulheres. Temos relatos de algumas maternidades que estão atendendo muitas gestantes jovens e com quadros graves de Covid-19", afirma a presidente da entidade, Carla Anunciata.

 

A Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig) também é favorável à vacinação de grávidas, com ou sem comorbidades. Segundo a entidade, em todo o ano passado, 455 gestantes morreram com coronavírus, enquanto, neste ano, 814 óbitos já foram registrados.

 

"As gestantes são um grupo mais suscetível à Covid-19, provavelmente pela queda de imunidade natural da gravidez. Então, a gente acha que elas devem ser vacinadas. No momento, o grupo de risco mais importante que a gente vê são as gestantes. Pela gravidez, elas têm que sair para fazer consultas e exames e acabam se expondo mais ao risco", diz o diretor da Sogimig, ginecologista Eduardo Cunha.

A vacinação de grávidas sem comorbidades chegou a ser anunciada em Belo Horizonte e iria começar no dia 12 de maio. Mas, um dia antes, o Ministério da Saúde anunciou que a imunização de gestantes e puérperas no Brasil contra a Covid-19 seria restrita a mulheres com comorbidades e que elas deveriam receber apenas doses da Pfizer ou Coronavac.

A medida foi adotada depois da morte de uma gestante de 35 anos em decorrência de um acidente vascular cerebral hemorrágico (AVC), que poderia ter ligação com o uso da vacina da AstraZeneca. Isso ainda não está comprovado.

Atualmente, o Ministério da Saúde indica que gestantes, puérperas e lactantes podem se vacinar contra a Covid-19, desde que pertençam a um dos grupos prioritários e especialmente se tiverem comorbidades. A pasta recomenda que estados e municípios sigam as orientações, mas destaca que gestores locais do SUS têm autonomia para implantar uma estratégia regional de vacinação.

Várias cidades do país já estão imunizando grávidas sem comorbidades. É o caso, por exemplo, de São Paulo (SP)Natal (RN) e Fortaleza (CE).

Em Belo Horizonte, ainda não há previsão de data para a vacinação deste público. A prefeitura informou que "segue rigorosamente as orientações do Ministério da Saúde", de vacinar apenas mulheres com comorbidades ou trabalhadoras consideradas essenciais. O município disse que tem em estoque, atualmente, apenas vacinas da AstraZeneca, não recomendadas para este público.

 

"A Secretaria Municipal de Saúde não iniciou a aplicação da vacina contra a Covid-19 em gestantes e puérperas sem comorbidades, já que é necessário aguardar novas instruções do Ministério da Saúde", concluiu a prefeitura, em nota. Belo Horizonte tem cerca de 22 mil mulheres grávidas.

 

A professora universitária Letícia Birchal Domingues, de 28 anos, foi a um centro de saúde no bairro Novo São Lucas, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, na última sexta-feira (4), data marcada para a vacinação de trabalhadores do ensino superior, mas não recebeu o imunizante por estar grávida.

Como a aplicação de doses da AstraZeneca em gestantes está suspensa, ela foi a um posto onde havia Coronavac. Mesmo assim, a vacinação foi negada. Aos seis meses de gestação, ela se sente insegura, principalmente quando precisa sair de casa para o acompanhamento pré-natal.

 

"Eu sinto medo toda vez que saio de casa para fazer exames em laboratório, ultrassom, consultas. Eu me sinto também muito desamparada pela prefeitura e pelo governo como um todo. Todas as gravidas estão em uma situação de alto risco, que deveria estar sendo olhada com cuidado e está sendo vista com negligência", afirma Letícia.

 

Segundo a prefeitura, no decreto federal, "não constam profissionais da educação como serviço essencial".

No estado, a orientação da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) é que as mulheres sem comorbidades que pertençam a um grupo prioritário sejam vacinadas após avaliação médica individual de risco e benefício.

 

Testes da Pfizer em gestantes

 

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) iniciaram, nesta quinta-feira (10), a vacinação de grávidas sem comorbidades em testes de eficácia e segurança da vacina da Pfizer contra a Covid-19 em gestantes. Uma mulher foi vacinada.

A instituição é um dos quatro centros de pesquisa do Brasil que fazem parte do estudo internacional conduzido pela Pfizer e a BioNTech. Em todo o mundo, 4.000 mulheres vão participar dos testes clínicos – cerca de 200 são brasileiras.

Vacinas da Pfizer — Foto: Divulgação Sesapi

Elas devem ter 18 anos de idade ou mais e acompanhar o pré-natal do Hospital das Clínicas. Podem participar mulheres que estejam entre a 24ª e a 34ª semana de gestação e tenham risco obstétrico habitual.

As gestantes que participarem dos testes vão receber vacina ou placebo, já que uma das ideias do estudo é comparar o grupo imunizado com o não imunizado. Além da coleta de sangue do cordão umbilical, que vai permitir verificar a transmissão de anticorpos para os bebês, mães e filhos serão acompanhados por seis meses pelo estudo.

 

Pesquisa com grávidas

 

A UFMG também está desenvolvendo uma pesquisa que busca colher a percepção das mulheres sobre a assistência obstétrica e suas consequências para a saúde de mães e crianças em Belo Horizonte.

O estudo é uma iniciativa do mestrado de Promoção da Saúde e Prevenção da Violência do Departamento de Medicina Preventiva e Social, da Faculdade de Medicina da UFMG, em parceria com o Departamento de Demografia e o Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar).

 

"As pesquisas que ouvem diretamente as mulheres são as que mais podem colaborar para que as necessidades da mulher sejam atendidas", diz Fabiana Guimarães, aluna do mestrado. Os resultados da pesquisa podem ajudar na proposta de melhorias na assistência obstétrica.

O questionário está disponível na internet. Podem participar mulheres que estiveram em pré-natal, parto e pós parto entre 2018 e 30 de abril de 2021.

Autor: Rafaela Mansur, G1 Minas

Fonte: g1.globo.com