Alagoas

Prova falsa, correção em tempo real... Entenda o esquema para fraudar concursos de Alagoas

18/05/2022 19h20
Investigação detalhou como candidatos recebiam as respostas para conseguir aprovação nas provas. Polícia Civil pediu afastamento de 61 aprovados; 77 pessoas foram indiciadas.
Prova falsa, correção em tempo real... Entenda o esquema para fraudar concursos de Alagoas

A Secretaria de Estado da Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL) detalhou, nesta quarta-feira (18), como funcionava o esquema de fraudes nos concursos públicos do Corpo de Bombeiros e das polícias Militar e Civil de Alagoas. Os investigadores pediram afastamento de 61 aprovados e indiciaram 77 pessoas investigadas na Operação Loki.

17 suspeitos foram presos ainda na primeira fase da investigação, em 2021. Cinco deles foram presos em flagrante durante o concurso em Maceió e Recife. Depois disso, outras 12 pessoas foram presas em Alagoas, Sergipe, Pernambuco e Paraíba. Os concursos chegaram a ser suspensos, mas foram retomados por ordens judiciais.

Veja abaixo como era o esquema montado pelos criminosos para conseguir aprovação dos candidatos, que recebiam as respostas por meio de pontos eletrônicos e SMS.

 

Como os fraudadores tinham acesso às provas dos concursos

 

Havia a função do piloto, que, segundo a polícia, eram pessoas que se inscreviam apenas com o objetivo de encaminhar as provas dos concursos para um integrante do grupo criminoso que ficava do lado de fora, passando as respostas aos candidatos.

Segundo as investigações, o piloto entrava para fazer a prova com uma outra prova qualquer escondida junto ao corpo e, assim, conseguia retirar a prova atual sem chamar atenção, ficando com uma prova falsa na sala do concurso.

"O piloto se inscrevia e entrava na sala com uma prova antiga. Ele conseguia tirar a prova que levava junto ao corpo e trocar pela atual, entregue na hora do concurso. Depois disso, ele pedia para ir ao banheiro e mandava essa prova ao ambiente externo. Segundo conseguimos apurar, eles levavam de 30 minutos a 1h30 para levar a prova ao ambiente externo", disse o delegado José Carlos Reis.

 

Quem respondia as questões

 

Professores eram aliciados pelo grupo criminoso para responder as questões dos concursos. Quando as provas saiam para o ambiente externo, esses professores eram responsáveis por respondê-las e encaminhar as respostas para que outros integrantes, classificados como guias, repassassem aos candidatos.

"Conseguimos identificar três professores envolvidos no esquema fraudador. Para facilitar, eles mandavam apenas as respostas corretas. As outras, os candidatos sabiam que eram erradas. Isso facilitava na hora de o candidato marcar a prova", explicou o delegado.

 

Como os candidatos recebiam as informações

 

De acordo com a polícia, os candidatos fraudadores entravam com celulares ou pequenos dispositivos que não eram identificados por detector de metais, usados pelos fiscais para inibir a presença de aparelhos eletrônicos durante a prova.

"Recebiam mensagens e até mesmo ligações. Os dispositivos são minúsculos e não perceptíveis ao detector de metais. Havia orientações para que os candidatos guardassem esses dispositivos, como perto do cinto da calça, porque se apitasse, era o metal do cinto e o fiscal não percebia que se tratava de um aparelho eletrônico", disse.

A polícia descobriu que, em alguns casos, os candidados recebiam ligações de até 20 minutos com as respostas das provas, tanto objetiva como discursiva.

"Alguns dos dispositivos eram colocados mais próximo ao ouvido porque a conexão do ponto do ouvido era por meio de bluetooth. Além disso, eles eram orientados a ligar o aparelho pouco antes de entrar na prova porque a bateria só durava 6 horas. Mas isso também acontecia nas provas discursivas", afirmou Reis.

Valores pagos aos fraudadores

 

Os valores eram, inicialmente, de R$ 5 mil para os cargos de ensino médio e de R$ 10 mil para os cargos de nível superior. Esses valores eram apenas registrados como entradas. Depois da posse dos aprovados, havia um novo valor a ser pago a partir da margem do empréstimo consignado.

A polícia disse ainda que os valores pagos após a posse eram de acordo também com a relação entre o candidato e o grupo fraudador. As investigações apontam que houve cobranças de até R$ 100 mil.

Autor: Michelle Farias e Ana Clara Pontes*, g1 AL

Fonte: g1.globo.com