Alagoas

Alagoanos usam cannabis medicinal para tratar doenças

19/06/2022 20h23
Tema foi pauta de debate em audiência pública promovida pela Assembleia Legislativa na última segunda-feira
Alagoanos usam cannabis medicinal para tratar doenças

O enfermeiro e bacharel em direito Victor Manoel Lima Araújo, de 37 anos, foi diagnosticado em 2017 com transtorno afetivo bipolar, que está associado a alteração de humor. Para tratar o problema, o maceioense usou, por três anos,  três comprimidos por dia, o que trazia prejuízos para o estômago, como ele conta. Foi através de uma amiga psicóloga que ele descobriu um tratamento alternativo, percebido ainda como um tabu para a sociedade brasileira: o uso da Cannabis Medicinal. 

"Hoje em dia eu tomo apenas dois comprimidos [por dia] e os óleos da Cannabis de manhã (THC) e de noite (CBD). Minha qualidade de vida melhorou ainda mais com a terapia canábica. Hoje durmo melhor, a ansiedade não me incomoda mais, penso com mais clareza, tenho o humor em estabilidade e consigo levar uma vida normal", conta o enfermeiro, acrescentando que reduziu a sensação de enjoos provocados pelos medicamentos. 

Não é somente Victor que usa a Cannabis como tratamento medicinal na família. A mãe dele também usa o meio para auxiliar nos cuidados com a saúde. Ela tem 69 anos e é portadora de Alzheimer e Parckinson.

 "Houve um dia aqui em casa que ela me agrediu com cinco murros no rosto. Percebi que era necessário outro tipo de tratamento. E com a cannabis, ela melhorou muito o humor, a agressividade desapareceu, as mãos pararam de tremer. Ela também parou de repetir os mesmos assuntos e forma novas frases, acessa outras memórias", afirma. 

O uso da cannabis para fins medicinais ainda é um tema polêmico na sociedade brasileira. O tema foi pauta de debate em audiência pública promovida pela Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE) na última segunda-feira (13), promovida pelo deputado Lobão (MDB). Na ocasião, médicos, pacientes e familiares, autoridades do Ministério Público e Poder Judiciário estiveram presentes para defender o acesso desse tipo de tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS). 

O médico clínico boliviano Freddy Mundaka erradicado em Alagoas foi um dos profissionais que esteve presente na audiência. Ele é pioneiro no estado alagoano em prescrição de cannabis medicinal, além de ser estudioso dos beneficios terapêuticos da planta nas mais diversas enfermidades, como ansiedade, insônia, depressão, doenças imunológicas, neurodegenerativas, a exemplo do Parkinson e Alzheimer, dor crônica, dentre outros. 

Fundador do Instituto Mundaka, localizado em Maceió, que auxilia pacientes que precisam de acompanhamento e orientações sobre a terapia, ele prescreve o tramento para cerca de 180 pessoas, sendo em média, ao mês, 120 alagoanos. 

Mundaka afirma que se interessou pela medicina canábica, como é denominado o tratamento, após precisar socorrer um paciente de 135 quilos que havia infartado. Devido ao peso, ele danificou a coluna. 

"Depois daquele dia, minha coluna nunca mais foi a mesma. Durante meses sofri de intensas dores que me deixaram dependente de analgésicos e anti-inflamatórios. Desenvolvi uma gastrite medicamentosa que me atrapalhou muito. Decidi procurar outras alternativas. Já era curioso e apaixonado por plantas medicinais. Foi então que decidi pesquisar e testar o canabidiol e funcionou muito bem no meu caso. Constatei que ele poderia ser uma opção terapêutica com poucos efeitos colaterais", lembra.

Um dos poucos profissionais da saúde a prescrever o tratamento em Alagoas, ele elenca que  a cannabis medicinal provoca relaxamento muscular, tem ação anticonvulsionante, atua contra náuseas e vômitos, tem efeitos ansiolíticos, reduz efeitos colaterais de outros medicamentos,  reduz a sialorreia ou hipersalivação, dentre outros efeitos.  

"Na minha prática clínica, uso óleos aplicados na mucosa oral, mas também existe o uso inalatório, por meio de vaporizadores. Importados, temos cápsulas, óleos, sprays e supositórios", informa o médico. 

Ele explica que os principais componentes da cannabis são o "THC"  ou tetrahidrocanabinol, que tem potencial de causar dependência, quando exposto em combustão ou, popularmente falando, quando é 'fumado', e o "CBD" que é o canabidiol, com potencial terapêutico e é usado no tratamento de epilepsia, esclerose múltipla, esquizofrenia, mal de Parkinson, autismo e dores crônicas. 

"Existem 27 variedades modernas de cannabis. Fumar a planta significa adulterar os componentes durante a combustão do cigarro na procura do "THC" ou tetrahidrocanabinol que pode causar dependência, sem muito poder medicinal. Já nos óleos e extratos [via oral], os componentes são bem aproveitados. Já o canabidiol não é psicoativo, ou seja, não dá aquele 'barato' procurado pelos apreciadores da planta. O uso recreativo, portanto, não faz parte da terapia canábica", esclarece. 

O cirurgião-dentista alagoano e secretário-geral da Sociedade Brasileira de Odontologia Canabinoide, Edyerk Lira, também prescreve medicamentos a base do canabidiol para pacientes, especialmente, aqueles que têm bruxismo.

 "Prescrevo óleos e pomadas de cannabis para pacientes que apresentam patologias e necessitam desse tipo de tratamento, como os que têm bruxismo, neuralgia do trigêmeo e dores orofaciais", afirma, ressaltando que tem, em média, 50 pacientes que fazem uso do tratamento em Alagoas. 

"Os pacientes que apresentam bruxismo normalmente acordam com dores nos músculos da face e no pescoço. A maioria desses pacientes são ansiosos e dormem muito mal. Pois não apresentam um sono reparador. Após o uso dos fitocanabinoides, eles melhoram a qualidade do sono, não sentem mais dor ou cansaço nos músculos da face e sentem-se mais dispostos durante o dia. A maioria deles relatam que voltaram a sonhar. Pois não sonhavam", expõe. 

Aspectos jurídicos da cannabis medicinal no Brasil 

No Brasil, o primeiro passo dado sobre o uso medicinal da planta foi em 2014. Naquele ano, o Conselho Federal de Medicina (CFM) autorizou, por meio da resolução nº 2.113/2014, o uso compassivo do canabidiol, que é um dos compostos da planta, para o tratamento de casos específicos de epilepsias em crianças e adolescentes, quando os tratamentos convencionais não tivessem surtindo o efeito desejado.

Autor: Mariane Rodrigues

Fonte: gazetaweb.globo.com