Medidas de Paes

Especialistas criticam novas medidas de Paes para a pandemia: 'Pode afetar o retorno escolar'

Médicos apontam que regras mais duras precisam ser tomadas em meio ao grande número de casos e óbitos que a cidade registra diariamente

14/01/2021 por Redação Felipe Grinberg

RIO — Em meio ao crescente do número de óbitos e casos de Covid-19 no início de ano, a prefeitura do Rio publicou, em conjunto com o Governo do estado, novas medidas de flexibilização devido ao avanço do novo coronavírus. No texto, estão especificadas as regras para os três níveis de alerta: moderado, alto e muito alto. Entretanto, especialistas ouvidos pelo GLOBO criticaram parte do plano, pois acreditam que o momento exige regras mais rígidas para conter o avanço da doença.

O epidemiologista da Fiocruz Diego Xavier diz que dividir a cidade em diversas regiões para acompanhar o fluxo da doença com mais detalhamento é algo positivo, mas alerta que não pode ser o único plano. Ele critica a prefeitura por permitir o funcionamento de estabelecimentos que causam aglomerações e tem ambientes fechados como as boates e cinemas:

— Precisamos fazer escolhas, mesmo que impopulares. No momento que estamos não temos necessidade de locais fechados que causem aglomeração. São estabelecimentos que deveriam ser fechados em todo o município, não apenas nas regiões que são consideradas com risco muito alto. Não é razoável ter boate funcionando. Se não temos como fiscalizar e punir as atividades, temos que fechar.

Ele ainda alerta que a permanência da cidade e do estado em um cenário de alto contágio pode levar a mais um adiamento do retorno das aulas presenciais:

— Estamos em janeiro e todos tem a perspectiva que o período escolar retorne, mas, para isso, precisamos do contágio controlado. Do jeito que está, voltar às aulas é um risco grande que não podemos correr.

Já a especialista em saúde pública da UFRJ Ligia Bahia critica o fato do plano não ter sido aprovado pelos membros do Comitê Científico da prefeitura, que só se reunirá pela primeira vez na próxima segunda-feira. Ela ainda alerta para a grande circulação de pessoas em diferentes áreas da cidade, que podem apresentar riscos distintos:

— Estamos em uma situação de explosão de casos e óbitos na cidade, que tem uma circulação grande nessas áreas. As pessoas trabalham e moram em locais diferentes. Parece que o prefeito está procurando uma maneira de driblar o fechamento de alguns setores, como boate, cinemas e academias.

O infectologista Roberto Medronho concorda que dividir as áreas da cidade para acompanhar os números é uma boa medida, mas ressalta que não pode ser a única. Ele questiona como será feita a fiscalização na cidade e o fato de no plano original os estádios esportivos serem autorizados a receber público. Horas depois da publicação do decreto, o prefeito Eduardo Paes, entretanto, disse que ira revogar a medida.

—  Dá uma sensação que está mais interessado em abrir os estabelecimentos do que conter a doença. Querer abrir o Maracanã, transmite um sinal inverso à população. Outra questão é a fiscalização. Como fiscalizar uma boate para evitar que a pessoa não vá para a pista de dança? Para que a pessoa vai para a boate? Para dançar. A saúde é um dever do Estado. É um dever constitucional do Estado criar políticas públicas para promover a saúde da população. E sem ter a vacina é a redução da mobilidade e o distanciamento social são as melhores políticas — afirma.

As novas restrições
Diante do avanço da Covid-19 nos últimos dias, o prefeito Eduardo Paes publicou nesta quarta-feira no Diário Oficial um decreto com uma série de medidas para tentar conter o contágio da doença. As restrições atingem bancos, boates, shoppings, academias, restaurantes, entre outros estabelecimentos, que deverão funcionar de acordo com a classificação de risco de transmissão do coronavírus divulgada pelo município. Poucas horas após a publicação do plano, no entanto, Paes usou suas redes sociais para anunciar que vai revogar a liberação de torcida nos estádios por ser “quase impossível de fiscalizar”.

As medidas já estão em vigor, mas a fiscalização só começa amanhã com agentes circulando pela cidade para orientar quem estiver burlando as regras. Posteriormente, quem descumprir as normas pode ser multado, e o comércio, conforme o caso, ser até fechado. O município não informou quando começará essa atuação mais rigorosa.

— A gente pede a colaboração da população para seguir as regras básicas: uso de máscaras, higienização das mãos valem sempre para todas as situações — disse Paes.

Uma das novidades é que, em caso de risco muito alto de contaminação, shoppings (exceto setor de delivery), boates, museus, feiras livres e academias deverão ficar fechados. Hoje, de acordo com o mapa divulgado pela prefeitura na última sexta-feira, nenhuma Região Administrativa está com o risco muito alto. A escala tem apenas três níveis de risco: moderado, alto e muito alto. Amanhã, será divulgada nova classificação no boletim epidemiológico, que vai orientar como os estabelecimentos devem funcionar a partir de segunda-feira. Será assim toda semana.

A principal mudança prevista no plano é na capacidade dos espaços públicos. Quanto mais a doença avança, menos público será permitido. De acordo com a situação atual da Zona Sul, que está com risco alto, bares e restaurantes, por exemplo, só podem funcionar sem música ao vivo e só servir bebida a pessoas que estejam sentadas. Já as boates não podem abrir as pistas de dança.

O plano foi apresentado por Paes nesta quarta-feira ao setor produtivo na sede da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Porto (Cdurp).

— Nós reunimos toda a legislação que já existia, promovendo modificações em conjunto com o governo do estado para buscar, em um tema tão complexo, simplificar as regras para a compreensão da população. Depois de tantos meses em que regras do estado e da prefeitura não coincidiam, buscamos unificar isso — disse o prefeito.

Representantes de bares e restaurantes reconheceram a necessidades das restrições, e integrantes do setor de supermercados elogiaram a recomendação da prefeitura para ampliar o horário de funcionamento.

Já retomada das aulas presenciais na rede municipal ficou fora desse processo. O secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, disse que o assunto será alvo de discussão com o novo comitê científico da prefeitura, que se reunirá pela primeira vez no dia 18. Os colégios privados também não são citados, mas uma decisão da Justiça desta semana permite a volta as aulas presenciais.

O prefeito não descartou adotar regras mais severas, caso as orientações da prefeitura não sejam cumpridas e a curva da doença continue ascendente:

— As regras estão estabelecidas, e vamos fazer uma fiscalização por amostragem. Vamos escolher bares e boates em áreas com risco mais alto. É impossível fiscalizar toda a cidade.

Paes negou que a resolução tenha flexibilizado o isolamento social, apesar da autorização para a reabertura das áreas de lazer em condomínios e nas pistas da orla, a partir deste fim de semana.

— Estamos trabalhando para trazer regras mais claras. Ano passado, as medidas mudavam a cada dia. Não estamos relaxando, estamos fixando regras.

Multa para condomínios
Nos condomínios, podem funcionar com plena capacidade piscinas, quadras poliesportivas e outros espaços abertos, desde que respeitadas as regras sanitárias. As áreas fechadas, quando o risco for moderado, poderão abrir com dois terços da capacidade. A capacidade permitida cai para a metade em caso de riscos alto e muito alto.

— Cabe aos síndicos fiscalizar o cumprimento das restrições. Se a prefeitura receber denúncias pelo 1746, poderá multar o condomínio e até moradores que estiverem em áreas comuns sem máscaras — disse Daniel Soranz.


Fonte: oglobo.globo.com

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