Traições na Câmara

Disputa pela presidência da Câmara tem histórico de 'traições'

Retrospecto mostra vencedores com resultado inferior ao tamanho dos blocos

13/01/2021 por Redação Pedro Capetti

RIO - O histórico dos últimos 20 anos de eleições para a presidência da Câmara mostra que ter o maior bloco de deputados quase sempre significou uma vitória ao final, mas em patamar menor do que as alianças indicam, em função das “traições”. Nas últimas 11 disputas, em apenas uma o dono do maior apoio na contabilidade oficial não saiu vitorioso.

O fato atípico ocorreu em 2005, quando o então deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), expoente do “baixo clero”, aproveitou a desarticulação política do governo Lula naquele momento — o PT lançou dois candidatos — e chegou à presidência da Casa, mesmo sem o apoio formal do próprio partido. No segundo turno, teve 300 votos, contra 195 de Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), que tinha o maior bloco e o endosso do Palácio do Planalto.

Por outro lado, as “traições” — o voto é secreto — fazem com que uma projeção maior do que o resultado efetivo da apuração seja quase regra para o vencedor, mas existem exceções. Em 2015, Eduardo Cunha (MDB-RJ) contava com apoio formal de 218 deputados, mas obteve 267 votos. Já Arlindo Chinaglia (PT-SP) tinha 160 aliados na composição, mas registrou apenas 136 votos. A estratégia de tentar derrotar Cunha custou caro ao governo: no fim daquele ano, ele deu início ao processo que levaria ao impeachment de Dilma Rousseff.

Em 2017, quando Rodrigo Maia (DEM-RJ) foi eleito pela primeira vez no início de uma legislatura — antes, já havia cumprido um mandato-tampão no posto —, as siglas que o apoiavam somavam 359 deputados, mas o número não se refletiu no resultado, e Maia teve 293 votos.

Em compensação, o PTB conseguiu dificultar a eleição naquele ano, mesmo sem apoio formal de nenhum partido. Na oportunidade, tinha 17 deputados, mas registrou 105 votos na candidatura encampada pelo deputado Jovair Arantes (GO).

O histórico de eleições na Câmara também indica que, nem nos momentos em que a disputa é menos acirrada, a eleição foi representada dentro das margens projetadas. No início de 2011, PT e MDB combinaram um rodízio na presidência da Câmara, cabendo ao MDB o segundo biênio.

Na disputa pelos primeiros dois anos, o então deputado Sandro Mabel se lançou candidato à revelia do próprio partido, o PL, que apoiava Marco Maia (PT-RS). Mesmo sem nenhum integrante formal no bloco, conseguiu 106 votos, diminuindo a margem de vitória do petista.

Em 2013, quando Henrique Eduardo Alves foi eleito (MDB-RN), o deputado Júlio Delgado (PSB-MG) tinha 27 deputados em seu bloco, mas conseguiu registrar 165 ao final.

Na disputa atual, é Baleia Rossi (MDB-SP) o detentor da maior aliança, com 11 partidos, que somam 278 deputados. Do outro lado, o grupo de Arthur Lira (PP-AL) tem 195 parlamentares — além do apoio do presidente Jair Bolsonaro.

Estratégias distintas
Para viabilizar as “traições”, Lira adotou a estratégia de negociar individualmente com os parlamentares e conta com o racha inclusive em partidos de esquerda, que formalmente estão ao lado de Baleia — no caso do PSB, por exemplo, aliados do líder do PP contabilizam em torno de 15 votos, metade da bancada.

Já Baleia vem conseguindo obter vantagem com as lideranças e direções partidárias e tem apostado no discurso de que sua candidatura significa a manutenção de uma “Câmara independente”.

Ainda fora da contabilidade oficial, há partidos com bancadas menores que ainda não tomaram decisões oficiais, como PSOL, Novo, Podemos e PTB.


Fonte: oglobo.globo.com

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