Candidatos às prefeituras de Rio e SP

Candidatos às prefeituras de Rio e SP evitam assumir compromissos sobre restrições no combate à pandemia do coronavírus

Casos e óbitos de Covid-19 nas duas capitais voltaram a crescer na última semana

20/11/2020 por Redação João Paulo Saconi, Luiz Ernesto Magalhães, Silvia Amorim e Sérgio Roxo

RIO e SÃO PAULO – Candidatos que disputam o segundo turno das eleições municipais em capitais brasileiras têm evitado assumir compromissos com o retorno das restrições para reforçar o isolamento social contra a Covid-19, mesmo num momento de recrudescimento da doença em diversos locais. Discursos, entrevistas e publicações em redes sociais indicam que prefeitos em busca da reeleição fogem da impopularidade relacionada às ações de combate à pandemia, numa movimentação encampada ainda pelos seus concorrentes.

Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas (PSDB) tem recorrido às estatísticas para justificar a decisão de não retroceder em regras de flexibilização da quarentena a dez dias do segundo turno.

Contudo, a gestão de Covas interrompeu o ritmo de reabertura da cidade por causa do aumento do número de casos da Covid-19: aulas do Ensino Infantil e Fundamental não poderão ser retomadas. Houve um aumento de 10% nos casos suspeitos da doença nos últimos 17 dias, de acordo com a ferramenta de monitoramento Info Tracker.

— Não há nenhum número que indique necessidade de lockdown ou de retroceder na flexibilização que já foi feita. Também não é o momento de ampliar (a reabertura) — disse o candidato ontem, mesmo dia em que foi anunciada a medida referente às escolas.

No Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) tem atuação semelhante. Na última terça-feira, em entrevista à CNN, afirmou que “não há a menor hipótese” de uma segunda onda de Covid-19 atingir os cariocas.

Na manhã do mesmo dia, no entanto, um ofício enviado pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) às unidades de atenção primária registrou que a prefeitura observa um “aumento expressivo” dos casos de Covid-19 e, por isso, enviou orientações sobre procedimentos a serem adotados nos atendimentos médicos.

O documento criou um mal estar interno na pasta por contrariar o discurso público do prefeito.

— Nenhuma perspectiva de lockdown ou nada do tipo — defendeu Crivella durante a entrevista.

Dados da SMS indicam que, ontem, a taxa de ocupação dos leitos de UTI voltados para a Covid-19 em unidades municipais chegou a 97%. O índice é de 83% em leitos intensivos do SUS instalados na cidade. A oferta de vagas foi ampliada recentemente, de acordo com a pasta.

Lugar comum
Os adversários de Covas e Crivella também têm evitado a associação de seus planos para as prefeituras com novas medidas de isolamento social.

Guilherme Boulos, que concorre na capital paulista pelo PSOL, tem defendido a testagem em massa como forma de identificar e combater um repique de casos e recorrido à ciência quando questionado sobre optar por um “lockwdown”, caso eleito.

— Decisões dessa natureza não podem ser feitas como jogada política. Uma decisão de qualquer natureza de como lidar com a pandemia tem que ser tomada com epidemiologistas — afirmou anteontem em sabatina do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Eduardo Paes (DEM), que disputa a preferência dos cariocas com Crivella, fez afirmações no mesmo sentido aos colunistas do GLOBO Lauro Jardim e Fernando Gabeira, em sabatina também promovida anteontem.

— Tem que prevalecer a medicina em qualquer decisão que se tome — afirmou Paes, colocando em xeque os dados da gestão Crivella: — Os números da prefeitura não são confiáveis e não me permitem dizer se vou fazer lockdown ou não.

Outras quatro capitais em que prefeitos tentam a reeleição também não têm tido o combate à Covid-19 como um tema prioritário da corrida eleitoral. É o caso de Cuiabá, Porto Velho, Boa Vista e Aracaju. Nesses locais, no entanto, são menos significativas as oscilações nos números de casos da doença. A discussão sobre o tema entre candidatos envolve prefeitos defendendo a própria atuação frente à pandemia e oponentes apontando falhas, sem mencionar o futuro.

Para Roberto Medronho, infectologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Covid-19 deveria estar no centro desse debate:

— Essa é uma informação essencial para o eleitor julgar quem merece o seu voto. A possibilidade de aumentar o isolamento essencial existe para conter a doença. Deveriam estar debatendo isso — disse Medronho.

Em São Gonçalo, prefeito endureceu medidas após perder eleição

Enquanto os candidatos de Rio e São Paulo evitam falar sobre possíveis medidas para garantir o isolamento social em meio à pandemia, um prefeito já derrotado na busca pela reeleição decidiu apertar as restrições no segundo maior colégio eleitoral do estado do Rio. José Luiz Nanci (Cidadania), que comanda São Gonçalo, baixou ontem um decreto em que adota novas regras para limitar a circulação de pessoas no município até a próxima sexta-feira. A cidaderegistrou 100% de lotação dos leitos para Covid-19.

Nanci, que é médico, disputou a reeleição no último domingo, mas recebeu apenas 7,24% dos votos e terminou em quinto lugar. O segundo turno será disputado pelo também médico Dimas Gadelha (PT), que ficou em primeiro lugar, e o candidato do Avante, Capitão Nelson.

Entre as medidas adotadas pelo prefeito de São Gonçalo estão o fechamento de praças públicas e a limitação de todos os estabelecimentos comerciais a 2/3 de sua capacidade. A prefeitura nega que se trata de um “lockdown”, expressão em inglês que significaria um fechamento geral. De acordo com o governo municipal, a decisão foi tomada “em decorrência de mortes já confirmadas e o aumento de pessoas contaminadas”, além do “crescimento taxa de ocupação de leitos destinados ao Covid-19”.

As limitações para o funcionamento do comércio valem para diversos estabelecimentos, como farmácias e drogarias; hipermercados, supermercados, mercados e centros de abastecimento de alimentos; padarias; pet shops; óticas; barbearias e salões de beleza. Bares, restaurantes, lanchonetes deverão priorizar serviços de entrega. O funcionamento de shopping centers, centros comerciais e galerias ficará restrito ao horário de 12h às 20h.


Fonte: oglobo.globo.com

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