Falta de leitos de UTI em SP

Pacientes e médicos relatam falta de leitos de UTI em ao menos três grandes hospitais particulares da cidade de SP

Alta dos casos de Covid-19 seria a responsável por superlotação de UTIs na capital. Familiares de pacientes afirmam que não conseguiram, nesta quarta (18), leito nos hospitais Albert Einstein, Sírio-Libanês e São Luiz.

19/11/2020 por Redação Lívia Machado e Beatriz Borges,

Pacientes da capital paulista estão enfrentando dificuldades para conseguir vaga em leitos de UTI de hospitais da rede particular de São Paulo. Segundo relatos ouvidos pelo G1, o aumento no número de internações por coronavírus seria o responsável pela lotação na rede privada na cidade.

Familiares de pacientes ouvidos pela reportagem afirmam que não conseguiram leitos nesta quarta-feira (18) em ao menos três grandes hospitais da cidade: Albert Einstein, Sírio-Libanês e São Luiz.

O problema afeta tanto pacientes com suspeita ou diagnóstico de Covid-19 quanto de outras doenças.

Em nota, o Hospital Israelita Albert Einstein não confirmou a falta de vagas, mas disse que no momento "há 91 leitos ocupados por pacientes com diagnóstico confirmado para a Covid-19" e que "da última semana de setembro ao dia 12 de novembro, a média de internações oscilou entre 50 e 55 pacientes com o novo coronavírus".

Médicos que atuam na rede particular e municipal de SP também confirmam ao G1 a saturação do sistema particular. Um dos profissionais ouvidos pela reportagem revelou que nesta terça-feira (17), em seis horas de plantão em um hospital particular na Zona Oeste, atendeu ao menos 25 pacientes com suspeita ou confirmação de Covid-19.

Além da escassez de vagas, os funcionários dos hospitais privados estão sendo orientados a redobrar os critérios para liberação dos poucos leitos que ainda restam, principalmente de UTI.

Em entrevista à GloboNews na manhã desta quarta-feira (18), o infectologista Davi Uip, membro do Centro de Contingência do Coronavírus de SP, disse que o comitê pediu ao governo João Doria (PSDB) que os leitos de Covid-19 não sejam desmontados no estado. A solicitação ocorre após a alta de casos da doença registrados na cidade de São Paulo e também no interior paulista.

De acordo com a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), a procura por exames para detecção da Covid-19 aumentou 30% nos últimos 15 dias. Já o percentual de resultados positivos aumentou 25% no mesmo período.

Médicos assustados
Em carta divulgada nesta quarta-feira (18) para parentes e amigos, um grupo de infectologistas de vários hospitais da capital se disseram "exaustos e surpresos" com o avanço dos casos de Covid-19 na cidade.

"Acreditamos que vocês estejam cansados de tudo isso, mas lembre-se que nós estamos muito mais", afirmam. "Cada um tem que fazer sua parte porque nós, apesar de exaustos, não vamos deixar de fazer a nossa", dizem os médicos.

A infectologista Marcela Capucho, uma das signatárias da carta, conta que o grupo se surpreendeu com a lotação das UTIs e enfermarias em São Paulo com casos de infecção por coronavírus.

"O que aconteceu foi que de duas semanas pra cá, os casos começaram a aumentar exponencialmente. A gente percebeu o aumento do número de casos, principalmente, no Pronto Socorro. As enfermarias começaram a ficar cheias novamente e as UTIs também", conta Capucho em entrevista à TV Globo.

"A gente ficou um pouco assustado porque não esperava. Não deixa de ser um reflexo do que tem acontecido na sociedade como um todo. Que o pessoal basicamente perdeu o medo e começou a sair mais na rua, começou a se expor, começou a fazer festa... A gente vê o pessoal fazendo até festa de casamento. Isso, invariavelmente, ia levar a um aumento do número de casos", afirma a médica.

Outros hospitais particulares
O Hospital 9 de julho, localizado na região central de São Paulo, informou, por meio de nota, que "após a estabilização no número de casos entre os meses de maio a outubro, nos primeiros 17 dias de novembro foi registrado um aumento de cerca de 30% nas internações de pacientes com Covid-19".

A unidade disse ainda que dispõe de 470 leitos, sendo 110 de UTI, e que nas últimas duas semanas registrou aumento na taxa de ocupação em quarto privativo por pacientes com doenças respiratórias.

O Hospital São Camilo informou que "atualmente, a taxa de ocupação dos leitos de UTI por Covid-19 na Rede é de cerca de 86%. No entanto, como este número pode variar constantemente, novos leitos poderão ser abertos conforme a necessidade".

Em nota, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz disse que "registrou alta no número de casos de Covid-19 tratados pela Instituição, frente ao patamar de outubro" e "a maior procura de vagas por pacientes de outros estados". Com relação à ocupação dos leitos, a unidade de saúde informou que os números são repassados exclusivamente às secretarias de saúde do Estado e do Município.

Já o Hospital Samaritano informou que não está com todos os leitos ocupados e que os dados são repassados diretamente para o Ministério da Saúde. Além disso, a assessoria da unidade de saúde disse que "os números mudam diariamente, e além de leitos em operação, existem os leitos que podem ser expandidos dependendo da demanda".

O Hospital Santa Catarina informou que "possui leitos disponíveis para internação de pacientes com Covid-19, assim como de outras patologias, nas UTIs".

O Hospital Beneficência Portuguesa informou, por meio de nota, que verificou um aumento na demanda por internações devido a Covid-19 nos últimos 14 dias.

"Temos mantido estreita vigilância sobre a evolução epidemiológica dessa doença e a comparação dos números de hoje com os de 14 dias atrás sinaliza um aumento no número de internações. Em 4/11/2020 eram 35 pacientes com diagnóstico confirmado de Covid-19 internados em nossas unidades". Atualmente, a unidade de saúde está 45 pessoas internadas devido a Covid-19.

Internações
Na segunda-feira (16), o governo de São Paulo admitiu que ocorre um aumento nas internações por Covid-19 no estado.

Na última semana epidemiológica, que vai do dia 8 ao dia 14 de novembro, as internações de casos suspeitos e confirmados da doença cresceram 18% em relação à semana anterior: a média diária das novas internações subiu de 859 para 1.009.

Segundo o secretário de saúde estadual, Jean Gorinchteyn, se os indicadores de saúde continuarem a crescer, medidas mais restritivas na quarentena poderão ser adotadas.

“Se nós tivermos índices aumentados, seguramente, medidas muito mais austeras e restritivas serão realizadas no sentido de continuarmos a garantir vidas. É assim que o faremos”, afirma Jean.
Governo negava aumento

Na semana passada, médicos de 14 hospitais já haviam alertado para o aumento de internações por Covid-19 na rede privada da cidade de São Paulo. No entanto, o secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, negou na quinta-feira (12) que os números estivessem subindo.

"Todas as internações que acontecem no estado de São Paulo, seja no ambiente público, seja no ambiente privado, são notificadas para os nossos órgãos reguladores dentro da secretaria de estado da Saúde. Então nós trabalhamos com números oficiais. Estes números oficiais não revelam o que foi exposto pela mídia", disse na ocasião.

Além do relatos da rede privada na capital, dados oficiais divulgados pelo governo do estado para todo o sistema de saúde na Grande São Paulo já apontavam para aumento na média móvel de internações em novembro, em comparação a outubro.

O prefeito de São Paulo e candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), também negou que as internações estivessem subindo.

"O que nós temos são alguns dados específicos de alguns hospitais privados, que recebem inclusive muita gente de fora de São Paulo, então portanto isso não reflete a evolução da pandemia na cidade. Os números agregados da cidade de São Paulo mostram que não há nenhum recrudescimento da doença. A gente continua a abaixar os índices aqui”, afirmou na sexta-feira (13).

Em nota, o governo de São Paulo disse que "na coletiva de imprensa na última quinta-feira (12), fora esclarecido que ainda era precoce falar em aumento, pois os dados globais da rede de saúde ainda não indicavam este cenário, sendo dever da Secretaria de Estado da Saúde monitorar e analisar tecnicamente dados reportados à pasta antes de qualquer divulgação, prezando pela veracidade, precisão e transparência nas informações".


Fonte: g1.globo.com

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